Leituras: 1ª: Br 5,1-9. Salmo 126/125,1-2ab.2cd-3.4-5.6. R/ Grandes maravilhas fez por nós o Senhor: por isso exultamos de alegria. 2ª: Fl 1,4-6.8-11. Evº: Lc 3,1-6. II Semana do Saltério

Depois de elencar um rol de reis e sacerdotes que definem o mapa do poder político e religioso da época, eis que a palavra de Deus toca o coração de um jovem profeta, João, que se veste e come como um simplório, um tanto ou quanto selvagem.

Ao escolher João, Deus fala longe do templo e da capital. Deus fala longe dos centros de decisão, das assembleias municipais e de algumas sacristias. A sua Palavra ressoa no silêncio e liberdade do deserto.

“Preparai o caminho do Senhor”, grita João! “Endireitai os caminhos tortuosos”.

Torta é a minha vida! Não uma doce “torta de nós”. Torta de tantas feridas nessa geografia de pecado entre montes e vales de escolhas erradas e onde se torna difícil descobrir um caminho que leve a algum lado, para fora de mim, para longe do pior que há em mim, para perto de Deus.

“Preparai o caminho do Senhor”, que vem! E eu vou ao teu encontro, Senhor. Não ficarei sentado à espera que o tempo e a vida passem. Encontramo-nos no caminho. Não importa se a meio, se mais para lá ou mais para cá… irei caminhando como puder, alteando os vales do medo e abatendo os montes da arrogância. Irei ao teu encontro, Senhor, que vens!

E irei sem armas pois o profeta Baruc disse-me que o teu nome é «Paz»! A minha arma és Tu! Neste mundo de violência, onde é preciso inventar guerras para alimentar a industria do armamento, onde é preciso destruir comida para alimentar um sistema de produção injusto, onde é preciso destruir o meio ambiente para construir alguma coisa, onde é preciso fazer ataques pessoais para vencer eleições, onde irmãos não se falam por causa de cinco metros de terreno, onde alguns dos nossos bispos têm nos seus brasões uma espada maior do que a cruz, onde há tanta violência meio escondida nas nossas casas, escritórios, lojas, fábricas e escolas… a minha arma és Tu, Senhor!

Ontem de manhã estive com dois sem-abrigo de Barcelos. Um, apontando com o dedo para duas pombas disse-me: «sabe, irmão, tenho muita pena das pombas no inverno… passam muito frio». Um homem que dorme onde calha, estava com pena do frio que as pombas passam. Viver em paz e comunhão com toda a criação é a sua arma. Se calhar é mesmo preciso passar pelo deserto ou pela rua para lá chegar.

No próximo domingo à tarde início um tempo de retiro, de silêncio, de solidão. Peço a vossa oração por mim, para que também eu possa abater alguns dos montes que me afastam do Senhor e consiga rezar com sincera preocupação para que “toda a criatura veja a salvação de Deus” e os bispos, padres e consagrados do mundo inteiro troquem as espadas e escudos dos seus brasões por cajados de peregrinos e conchas de “água viva” para dar de beber a quem tem sede…

… “e toda a criatura verá a salvação de Deus”.

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