Leituras: 1ª: Jr 33,14-16. Salmo 25/24, 4bc-5ab.8-9.10.14. R/ Para Vós, Senhor, elevo a minha alma. 2ª: 1 Ts 3,12–4,2. Evº: Lc 21,25-28.34-36. I Semana do Saltério

Num final de dia em junho de 2007, em Laleia, Timor-Leste, uma mulher idosa abraçou-se a mim, no meio da rua, completamente dominada pelo medo e pelas lágrimas. No ar ela respirava todos os sinais de uma guerra civil. Muitos haviam fugido horas antes. Na aldeia ficaram homens, para defender as casas, e velhos que não tinham mais pernas para correr. Alguns refugiaram-se na Igreja. O desespero em cada músculo da Dª Francisca, que se contorcia em espasmos de angústia enquanto soltava gemidos no dialeto local, era fundado num passado de luta, torturas e morte; mas não na realidade presente. Alguns tiros de gás lacrimogéneo foram suficientes para acalmar a situação e em breve os gritos deram lugar ao silêncio, o desespero à calma, a angústia à esperança de uma noite tranquila, e uma noite tranquila a um novo dia de paz.

Há muitos sinais de violência e sofrimento nos dias de hoje que nos levam ao desespero e a reduzir os horizontes da nossa esperança. Tudo parece mau. Mas nem tudo é mau! Temos de nos animar e levantar bem a cabeça (Cf. Lc 21,28) para vermos os horizontes além do nosso horizonte, para abraçarmos a esperança além do medo.

Muitos cristãos procuram nos astros, nos signos, nas cartas, nas energias e outros “gases” poluentes do espírito o que querem ouvir para resolver as suas preocupações no imediato: vais ter sorte no amor, vais ganhar muito dinheiro, é fulana ou sicrana que te está a fazer mal, que te lançou um mau olhado, tens de te livrar dessas energias negativas, etc. Essa forma de viver a religião e a vida sim… seria “ópio do povo”. A esperança cristã não faz promessas “gasosas” nem enganosas; a esperança cristã é encarnada. Deus faz-se Homem para nos conduzir a uma verdadeira humanidade e, no cultivo da nossa liberdade, nos reconduzir a Ele.

É isso que celebramos no tempo do Advento que hoje começamos. A espera do esperado, do Messias, desse rebento de justiça (Cf. Jer 33,15). A espera de uma pessoa, que é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que tem um rosto, chama-se Emanuel, que é Deus-connosco e que nos compromete na construção de um mundo mais justo.

Por isso nós cristãos temos necessariamente de nos erguer e levantar a cabeça / para ver Jesus que vem, / para ver o mundo com olhos de ver, / para discernir o que Deus nos chama a ser neste mundo, / para ver longe, para lá do horizonte do nosso umbigo, / para lá do desespero e da angústia, / para ver e ajudar os outros a verem essa Luz ao fundo do túnel, / para deixarmos os papagueios para os papagaios e metermos mãos à obra!

O Advento não é uma espera passiva, de adormecimento, de uma religião de frases feitas, quentes e boas como as castanhas no outono. O Advento é uma espera ativa, fazendo o bem, vigiando e orando, procurando crescer na intimidade com o Senhor e acolhendo com todas as nossas forças o desafio de São Paulo à comunidade de Tessalónica: «deveis progredir ainda mais». (1 Tes 4,1). Progredir em ordem a podermos acolher com verdadeira liberdade Aquele que se torna razão da nossa Esperança pois quem acha que sabe tudo, que tem respostas para tudo, que não precisa de crescer ou que é mais santo que o outro, pode ter mil presépios em casa mas nunca conseguirá acolher o Menino Jesus, Deus da Esperança, na sua vida.

Só almas santas, e santas porque humildes, como São Francisco de Assis, conseguirão viver, não agarrados a feitos gloriosos do passado, a grandes missões, a grandes pregações, a grandes conversões, mas desejosos de crescer e progredir sempre mais, com o coração posto no presente, que nos modela e define, e no futuro vivido de forma absolutamente nova em cada dia, pois conduzidos pelo Espírito de Deus.

Só almas santas, e santas porque desejam o melhor para os outros, como São Francisco de Assis, conseguirão alegrar-se com os 26 anos da Juventude Franciscana de Barcelos, fazer festa, cortar o bolo, e ao mesmo tempo ter a coragem de lhes dizer: «irmãos comecemos porque até agora pouco ou nada fizemos».

Só almas santas, e santas porque comprometidas com o futuro da humanidade e da Igreja, como São Francisco de Assis, terão a lucidez de falar ao coração de cada jovem e de cada cristão e dizer: irmãos comecemos, aqui, mas sobretudo lá fora pois o grande desafio para nós católicos não é a clericalização do mundo, inventando funções para-litúrgicas para “ocupar a malta” no aconchego da comunidade cristã, mas a salvação de todos, o testemunho da nossa esperança, amor e alegria cristã no mundo do trabalho, do comércio e dos serviços, das fábricas, no mundo do ensino, da saúde, junto dos não crentes, no mundo da arte, da música, da cultura e do desporto, no mundo da comunicação, das ciências e da tecnologia, das associações cívicas, políticas e humanitárias, de proteção do meio ambiente, no mundo da gestão, da economia e das finanças, no mundo da noite, dos cafés e bares da cidade. É aí, e não nas sacristias, que se joga o necessário diálogo da fé com o mundo contemporâneo. É aí que precisamos de cristãos formados para enriquecer o debate ético e bioético que ora se levanta, ora se devia levantar.

Erguei-vos e levantai a cabeça, mexei-vos, fazei o bem, transformai o mundo à vossa volta! A vossa libertação está próxima!