Leituras: 1ª: 1 Rs 17,10-16. Salmo 146/145,7.8-9a.9bc-10. R/ Ó minha alma, louva o Senhor. 2ª: Heb 9,24-28. Evº: Mc 12,38-44. IV Semana do Saltério

1. Uma viúva pobre tinha apenas um filho e o pão desse dia, que não recusou dar ao profeta Elias que lho pediu (1ª leitura). “Ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver” (Evangelho) – observou Jesus – em contraste com muitos que deitavam na caixa das esmolas do que lhes sobrava, do que não lhes fazia falta, e com o que esperavam poder vir a obter honras ou benefícios em troca.

A Jesus preocupava o ‘como’ davam e não o ‘quanto’ davam.

A minha avó Rosa, de família pobre, dizia às filhas: “tempo e dinheiro dado a Deus nunca nos fará falta”, tal era a sua fé na providência de Deus, a sua crença experimentada de que Deus não lhe faltaria com nada de essencial.

É esta atitude de desprendimento que Jesus louva, de confiança. Não é preciso ter a despensa ou o frigorífico atafulhado de coisas necessárias e desnecessárias. O pão de cada dia nos basta.

2. É também um desafio, em tempos de maior ‘desafogo’ económico, a aprendermos a viver com sobriedade por opção. Uma opção consciente por um estilo de consumo que respeita a sustentabilidade ambiental, que não fere a dignidade dos pobres, e que nos introduz numa dinâmica de profunda comunhão e corresponsabilidade para com quem vive numa situação de indigência.

Há um princípio cristão difícil de engolir mas que nos faz ver a vida e os outros de forma libertadora: o que tenho não é meu. Ponto. O que tenho foi-me ‘emprestado’ para poder satisfazer as minhas necessidades – não a minha ganância – e as dos meus irmãos, dos meus empregados, e dos pobres que me batem à porta. Ganhei muito porque trabalhei muito e por isso ‘mereci’? Há tanta gente que trabalha tanto ou mais do que eu e não consegue sair do ciclo de pobreza… não ‘merece’? Não estamos todos no mesmo barco?

3. Enquanto pároco, uma das minhas maiores dores de cabeça foi a gestão das propriedades da paróquia. Terras sem grande valor económico mas fonte de muitas preocupações e desgaste que nos tira tempo precioso para estar com as pessoas e para o nosso trabalho de evangelização. Precisamos realmente disto? Precisamos mesmo de acumular bouças, campos, casas e, em tantos casos, contas chorudas das ‘fabriqueiras’ que muitas vezes se preocupam mais com os foguetes para a festa do que com os pobres da paróquia? Até quando?

“A opção pelos pobres é opção pela justiça, e não é preferencial” (José María Vigil). É uma opção que, na consciência coletiva das nossas paróquias, deveria ser acolhida como obrigação, como prioridade.

4. Um dos traços mais característicos dos religiosos e religiosas ao longo dos séculos – mais ainda da família franciscana – foi o da simplicidade de vida, de modo visível no vestir e no comer. Essa opção-testemunho deixou de fazer sentido? Então porque é que…

O testemunho de serviço aos pobres, que nos foi deixado por São Martinho, que celebramos este dia 11, e pelos nossos santos fundadores, ficará remetido apenas aos anais da história?

5. Como estão as contas bancárias de paróquias, comissões fabriqueiras, centros sociais-paroquiais, congregações religiosas!? O que mudou na vida da Igreja e na nossa vida para que fujamos a sete pés da situação – indigente mas de fé – da viúva pobre? Situação difícil, é certo, mas cujo coração agrada a Deus e não escandaliza os pobres!

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.” (Mt 5,3)