No dia 25 de Abril, realizou-se, no salão nobre da Câmara Municipal de Gouveia, o primeiro duma série de colóquios orientados para a construção dum Museu Internacional do Livro Sagrado e a realização dum Congresso Internacional sobre “A Bíblia na Cultura Ocidental”.

O salão foi pequeno para o número bastante elevado de participantes, provenientes de vários setores do mundo da cultura e da religião. A temática, essencialmente bíblica, justifica plenamente o envolvimento da Província Portuguesa dos Frades Menores Capuchinhos, os quais, desde há muitos anos, fizeram a opção evangelizadora da Dinamização Bíblica do Povo de Deus. Neste 1º Colóquio a Província fez-se presente na pessoa do Fr. Herculano Alves, membro da Equipa promotora destes eventos, e do Fr. Fernando Alberto, Ministro Provincial.

Como foi anunciado, este Colóquio contou com grandes e muito competentes personalidades da cultura e outras autoridades civis e religiosas. Depois de um momento musical de abertura, muito bem interpretado pelos jovens da Sociedade Musical Gouveense, seguiram-se (das 15h30 às 18h30) quase três horas ininterruptas de muito e bom saber sobre as mais diversas questões ligadas ao(s) Livro(s) Sagrado(s), enquanto ADN das civilizações. O Prof. José Eduardo Franco, responsável pelo projeto, fez a “apresentação científica do evento”. Seguiu-se o Prof. Paulo Mendes Pinto, que falou do “Conceito do Livro Sagrado nas Religiões do Mundo”. O dominicano e gouveense Fr. José Luís Monteiro, que preside à Federação das Bibliotecas Eclesiásticas de França e está na origem da ideia da criação do Museu Internacional do Livro Sagrado, desenvolveu o tema “O livro como objeto de cultura e civilização”. O Prof. José Eduardo Franco fez a apresentação deste projeto de Museu, a construir em Farvão (Monte do Dique), em estreita ligação com o centro histórico de Gouveia, e das atividades que aí se vão realizar. Por sua vez, os arquitetos José António Falcão e João Favila desvendaram parte dos “segredos” referentes às linhas gerais para a construção deste espaço cultural. Seguiram-se depois as intervenções de D. Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda, e do Prof. Carlos Fiolhais, apresentando e enaltecendo a obra de investigação do grande biblista capuchinho Fr. Herculano Alves, sobre a Bíblia em Portugal, da qual já há dois volumes publicados, e o terceiro está a ser impresso.

O Fr. Herculano Alves, cujo nome e obra foram várias vezes referidos em várias intervenções anteriores, fez o “Anúncio do Congresso Internacional (sobre) A Bíblia na Cultura Ocidental – Milénios de Civilização”, que se realizará na cidade de Gouveia, nos dias 10,11 e 12 de Setembro do ano de 2020. Na qualidade de Presidente da Comissão Científica do mesmo, sublinhou a importância das raízes bíblicas da civilização ocidental e o perigo de as esquecer, com as desastrosas consequências que todos conhecemos, só porque a Europa abandonou os ideais do humanismo cristão e se fundamentou em «valores que dependem do ter e não do ser». Concluiu, por isso, afirmando que «todos os esforços culturais e espirituais de retorno aos valores humanistas da Bíblia são benvindos; e o próximo congresso sobre a Bíblia irá, inequivocamente, ser um instrumento de alarme em relação aos perigos que afetam a nossa Europa, nas suas raízes mais profundas.»

A palavra final deste Colóquio coube ao Presidente da Câmara de Gouveia, Luís Tadeu, o qual sublinhou a importância deste projeto assumido pela Câmara em parceria com outras entidades, projeto que relançará a cidade de Gouveia nos caminhos do turismo e da cultura, tanto a nível nacional como internacional.

Ao fim de tanto labor cultural, todos os oradores e participantes se misturaram num suculento “Dão de Honra”, servido num dos espaços da Câmara Municipal que noutros tempos foram habitados pelos Jesuitas.

 

Discurso do frei Herculano Alves

Senhor Presidente da Câmara de Gouveia
Senhor bispo da diocese da Guarda e demais autoridades presentes
Senhoras e Senhores

Fazer um congresso sobre a Bíblia não é propriamente uma novidade, em qualquer parte do mundo. Mas fazer um Congresso Internacional sobre a Bíblia em Portugal é uma novidade absoluta, já que, em assuntos de cultura, não costumamos andar na dianteira em relação a outros países europeus ou mesmo americanos.

Sem querer ser pessimista vou apresentar alguns aspetos menos positivos desta nossa Europa.

Fazer um congresso sobre a Bíblia, sobre as raízes da cultura ocidental tem um sentido e valor em si mesmo, pelos conhecimentos que iremos auferir, desse Livro que é o nosso. Nosso pela fé cristã, que lhe é intrínseca, mas também na sua relação com as raízes da cultura europeia, na qual Portugal se integra perfeitamente.

Quanto à oportunidade deste congresso, podemos dizer que ele já vem com grande atraso, pois vai cavar bem fundo para verificar como estão as raízes dessa “árvore” a que chamamos Europa, ou melhor ainda, a cultura ocidental.

Fazer um congresso sobre as raízes cristãs, bíblicas, da cultura europeia é algo do mais urgente, neste continente, que se apresentou, ao longo dos séculos, como modelo de civilização, de cultura. A famosa comparação evangélica: “pelos frutos se conhece a árvore” (…), apresenta-nos a metodologia do exame a fazer às raízes da Europa atual. Aliás, o cartaz oficial do Congresso exprime bem a importância que teve a Bíblia na nossa cultura, comparando-a a uma árvore bem enraizada, nas águas que, no meu entender, são as águas da Palavra de Deus, a lembrar precisamente as palavras do Sl 1:

Feliz o homem (…) que põe o seu enlevo na Lei do Senhor
e nela medita dia e noite.
É como a árvore plantada à beira da água corrente:
dá fruto na estação própria
e a sua folhagem não murcha;
em tudo o que faz é bem sucedido (Sl 1,1-3).

Este salmo revela-nos, pois, um programa de sucesso, e mesmo a chave do verdadeiro sucesso humano, enraizado na Bíblia, como o grande Código dos valores da cultura ocidental. No nosso exame às raízes da cultura europeia, todos notaremos que, infelizmente, a Europa nem sempre foi fiel a estas suas raízes. É espantoso como uma Europa, com a Bíblia na mão – e para grande escândalo de outras religiões e culturas – deu origem a duas guerras mundiais no séc. XX! “Com a Bíblia na mão” – dizia eu. Não certamente com a Bíblia na mão. Esta foi arrumada nas bíbliotecas, como um livro que perdeu utilidade, que foi “ultrapassado”, que ficou “fora de moda”… Foi devido a esta falta de cuidado, de “tratamento”, de alimento das nossas raízes, que a “árvore Europa”, produziu estes e tantos outros frutos venenosos. Porque, sem os valores que vêm da Bíbia, o ser humano deixa em liberdade o animal feroz que se encontra nela adormecido.

Mas a infidelidade da Europa às suas raízes cristãs não parou aí: hoje encontramo-nos na chamada nova Europa em que o próprio nome de Deus está proibido de entrar em documentos oficiais, porque as raízes cristãs foram, não apenas esquecidas, mas, pior ainda, rejeitadas em nome de uma qualquer ideologia…. Como se Deus fosse um impecilho ao progresso, à cultura, à liberdade, ao bem-estar humano… Quando é exatamente o contrário que acontece, quando se vivem os valores que nos vêm do Nosso Livro: acontece a paz, o perdão ao inimigo (e não as vinganças), o respeito pelos valores e dignidade do outro…

Com tantos progressos e liberdades, messianicamente prometidas (sem dúvida com boas intenções), vemos o que acontece, um pouco por todo o lado: nunca houve tão poucos ricos, cada vez mais ricos e, vice-versa, nunca houve tantas multidões de pobres que sobrevivem à míngua, praticamente, de tudo.

Numa palavra, a Europa, mediante o anúncio dos valores cristãos inerentes à Bíblia, de pagã que era, tornou-se cristã. Hoje, os políticos da Europa conseguiram um “feito” extraordinário: a Europa, de cristã que era, está a voltar rapidamente ao paganismo, paganismo nas manifestações religiosas, paganismo nas manifestações culturais, paganismo na vida particular e social do dia a dia.

Temos, assim, uma Europa pagã, com novos deuses, sobretudo com o deus dinheiro, pai de muitos outros deuses. A Europa de hoje deixou de definir o homem pelo que ele é diante do Criador, com os valores que lhe advêm dessa condição divino-humana, para o definir pelo que ele tem. A diferença é abissal. Assim, caricaturando o lema cartesiano “Cogito, ergo sum”, “penso, logo existo”, a Europa de hoje segue pelo caminho do ter e não do ser. Não diz: “Sou criatura de Deus, logo existo”; mas, na prática, afirma este outro axioma: Tenho muito dinheiro, muito poder; logo existo. O que mais interessa aos políticos europeus é a economia, o bem estar material, o que dá prazer ao corpo, à parte animal do ser humano, ou seja, os valores que dependem do ter e não do ser.

Por isso, as ciências humanas, que constroem o homem dos valores e do pensamento, são relegadas para segundo ou terceiro plano. O homo europeus deixou de pensar, de fazer filosofia da história, para fazer coisas… coisas materiais, tecnologia. Partindo do homo christianus, produziu-se o homo technologicus; do homem do pensamento greco-cristão, passou-se ao homo machina. Numa palavra, frequentemente, o culto do Criador foi simplesmente substituído pelo culto do deus dinheiro (mammona).

Com tal desumanização, o homo biblicus europeus sofreu uma mudança tal, que o torna, por vezes, cruel para consigo e para com os outros, com o terrorismo, as injustiças sociais, a corrupção… numa palavra, a falta de valores espirituais e humanos. Tudo isto e muito mais levou o homem europeu a construir caminhos que só conduzem a desertos de incertezas, a becos sem saída… Porque se esqueceram que o ser humano não é apenas corpo, matéria. É também pensamento, utopia, desejo de infinito…, do Infinito.

O que estamos a afirmar não implica necessariamente a volta à Respublica Christiana. Mas implica, sim, necessariamente, o respeito pelos verdadeiros valores que constituiram as profundas raízes europeias, a nossa identidade e também o respeito pelos ideiais do humanismo cristão, que esteve na mente dos fundadores da nova Europa: Konrad Adenauer, Winston Curchill, Alcide De Pasperi, Jean Monet, Robert Schumann e outros.

Por isso, todos os esforços culturais e espirituais de retorno aos valores humanistas da Bíblia são benvindos; e o próximo congresso sobre a Bíblia irá, inequivocamente, ser um instrumento de alarme em relação aos perigos que afetam a nossa Europa, nas suas raízes mais profundas.

Fazemos votos para que este 1.º Congresso sobre as raízes da Cultura europeia, em Portugal, crie um impacto visível no pensamento e na vida de todos os participantes e mesmo no nosso país.

Gouveia, 25 de abril de 2019

 

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Cartaz do Colóquio | 25 de abril de 2019

Cartaz do Congresso Internacional | 10-12 de setembro de 2020