Igreja

Imprimir

Das palavras da Bíblia à Pessoa de Jesus

vat_ii_01

Neste dossier, refletimos sobre alguns documentos do concílio Vaticano II, 50 anos depois. Um dos principais é a Dei Verbum (Palavra de Deus), isto é, a constituição dogmática sobre a Bíblia, a Tradição e o Magistério da Igreja. Por isso, impõe-se uma breve reflexão sobre a Palavra.

Há muitas pessoas que dizem sentir imensas dificuldades em ler a Bíblia e, portanto, de fazer da palavra de Deus o alimento da sua fé cristã. A razão fundamental de tais desabafos está no facto inegável de os livros e as palavras da Bíblia não fazerem parte do nosso vocabulário normal e, portanto, da nossa cultura atual.

Impõe-se, pois, um maior esforço, da Igreja em geral e de cada cristão em particular, na procura do sentido das palavras da Bíblia; e isto sob pena de não se encontrar nela a Palavra de Deus. Esta está escondida por detrás das palavras humanas dos seus livros inspirados. O conhecimento destas palavras é condição imprescindível para sabermos o seu sentido, a sua mensagem divina, a grande Palavra que ela encerra. Ora, esta Palavra eterna encarnou na Pessoa de Jesus Cristo. Por isso, a Dei Verbum consagrou esta frase lapidar de S. Jerónimo: «Desconhecer a Bíblia é desconhecer a Cristo» (n. 25). Ele está lá escondido nas palavras humanas, como também está escondido na forma do pão e do vinho da Eucaristia.

A este propósito, diz a Dei Verbum: «Deus inspirador e autor dos livros dos dois Testamentos, dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo, e o Antigo se tornasse claro no Novo» (DV 16). De facto, Cristo já estava “escondido no Antigo Testamento”, numa linguagem profética e simbólica. Podemos formular esta ideia de outro modo: “Das palavras da Bíblia à Palavra, e da Palavra a Cristo, Palavra do Pai.”

Assim, o cristão precisa de percorrer três etapas, que conduzem umas às outras:

1) possuir um conhecimento minimamente correto sobre o modo de ler a Bíblia;

2) compreender a Palavra, isto é, as grandes ideias da Bíblia, cujo conteúdo é, fundamentalmente, aquilo que chamamos Revelação de Deus à humanidade;

3) conhecer e aceitar a Pessoa de Jesus Cristo, a Palavra eterna que “se desfez” em palavras humanas (Evangelho), para nos revelar o rosto de Deus-Pai. De facto, Ele é o Verbo / Palavra de Deus, que se revelou em palavras humanas – tal como aconteceu no Antigo Testamento – único modo de nós compreendermos a Palavra, isto é, a Ele próprio.

Nunca atingiremos plenamente estas etapas, pois nem sequer chegaremos a conhecer bem as palavras da Bíblia, apesar do enorme avanço dos estudos bíblicos. Este deficit no conhecimento da primeira parte irá provocar efeitos negativos também nas duas seguintes.

Com isto, não pretendo provocar desânimo nos leitores, mas incentivá-los a aproveitarem todas as ocasiões para um melhor conhecimento da Palavra, o que os levará a melhor conhecer e amar nosso Senhor Jesus Cristo. Esta é a nossa principal tarefa no campo da fé cristã. Aqui teremos que investir esforços materiais (mesmo dinheiro) e espirituais. A Bíblia não é objeto de uma “devoção” como outra qualquer. É a nossa grande obrigação. É ela que pode dar todo o sentido à nossa vida. Mesmo nas férias! Boas férias, com a Palavra!