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Outro Mundo, outra Igreja?

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odas as cronologias do século XX registam como acontecimento da maior relevância e interesse a abertura do Concílio Vaticano II, a 11 de Outubro de 1962. Na altura, o Papa João XXIII pretendia renovar a Igreja e iniciar uma nova relação da Igreja com o Mundo. Que Mundo e que Igreja tínhamos, então? E que imagem temos dessas duas realidades, 50 anos depois?

 

Mundo e Igreja no início de 60

Fruto das reminiscências ideológicas do início do século, mas sobretudo das consequências da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo encontrava-se dividido em dois blocos. No mesmo mês em que iniciou o Concílio Vaticano II, dias 22 e 23 de Outubro, viveram-se os dramáticos momentos designados por a «crise dos mísseis», com o bloqueio de Cuba pela esquadra americana e consequente retirada dos mísseis soviéticos ali instalados. De facto, Cuba contava com todo o apoio de Brejnev, a 7 de Maio de 1960 tinha sucedido a Vorochilov no praesidium do Soviete Supremo, que se tinha comprometido a 15 de Fevereiro de 1960 a comprar um milhão de toneladas de açúcar cubano por ano. Como consequência deste apoio a 14 de Outubro, Cuba inicia a nacionalização dos bancos e das suas indústrias chaves e de 16 a 30 de Abril de 1961, fracassou o desembarque da oposição anticastrista na Baia dos Porcos. A 2 de Dezembro, Cuba seguiria o caminho da rotura, criando o Partido Unido da Revolução Socialista, e proclamando-se a 1 de Maio de 1961 como República Democrática Socialista de Cuba. A 25 de Janeiro de 1962, era excluído da Organização dos Estados Americanos.

Um dos sinais mais expressivos da divisão do mundo em dois blocos é o início da construção do Muro de Berlim em Agosto de 1961, no seguimento do abatimento de um avião-espião U2, Norte Americano, sobre o território da União Soviética a 21 de Abril de 1960; da partida inesperada e espetacular de Kruchtchev da cimeira de Paris, a 17 de mai-o, abandonando o diálogo com Eisenhower, De Gaulle e Macmillan; das manifestações antiamericanas no Japão, de meados de maio a meados de junho, que levaram ao cancelamento da viagem de Eisenhower àquele país.

Apesar do mundo se apresentar ridiculizado e dividido em dois blocos, já se avistavam as divisões internas dentro do bloco comunista. De facto e apesar de se apresentar cientificamente como última palavra da História e por isso irreversível, as políticas marxistas já evidenciavam as fragilidades que as levaria à sua definitiva decadência. De facto, de 11 a 24 de Novembro de 1960, reuniu-se em Moscovo a conferência dos 81 partidos comunistas que não conseguiram evitar a rutura albano-soviética e oposição entre soviéticos e Chineses. A 10 de Dezembro concluía-se a ruptura diplomática Moscovo-Tirana. Entre os sinais mais fortes das divisões internas do bloco Soviético foi a releitura da sua própria história da revolução que levou ao embate Kruchtchev-Chu En lai no XXII Congresso do PC Soviético (17-31.X.1961) e à retirada da múmia de Estaline do mausoléu da Praça Vermelha (29. X.1961).

Depois da sua eleição presidencial, a 7 de Novembro de 1960, também o Democrata J. F. Kennedy percebeu o perigo da revolta dos pobres à volta da superpotência Norte Americana, por isso logo a 13 de Dezembro, através do tratado de Manágua criou o Mercado Comum da América Central; a 15 de Março de 1961 lançou a Aliança para o Progresso destinada a fazer sair a América Latina do seu subdesenvolvimento perigoso para a paz na região, tudo isto na peugada do Tratado de Montevideu, que a 18 de Fevereiro de 1960 já tinha criado uma zona de livre-câmbio entre sete Estados Latino-Americanos.

Depois das últimas manifestações anti-segregacionistas nos EUA (10.III.1960) e das lutas pelos plenos direitos de todos os cidadãos, o país interditou o Partido Comunista a 9 de Outubro de 1961, em todos os Estados Norte Americanos.

A par da «guerra fria» entre as duas superpotências, reuniu-se de 1 a 6 de Setembro de 1961, em Belgrado, a Conferência dos «países não alinhados», publicando uma carta sobre a coexistência pacífica, a independência dos povos submetidos e o auxílio aos mais pobres. Hoje reconhece-se que as estratégias desta «terceira via não alinhada» estava em conexão com os interesses soviéticos.

Na complexidade deste início de década registamos também o apogeu dos movimentos descolonizadores, com o surgimento e inúmeras jovens nações: Camarões (12.I. 1960); Congo-Brazzaville, Mali e Togo (2.IV. 1960); Mali, Madagáscar Congo-Leopoldville (VI.1960); Daomé (1.IX.1960); Alta Volta (5.IX.1 960); Costa do Marfim (7.IX.1960); Níger (8. IX.1960); Chade (11.IX.1960); República Centro Africana (13.IX.1960); Ratificação do Congo-Brazza (15.IX.1960); Gabão (17.IX. 1960); Nigéria (5.X.1960); Mauritânia (2.XII. 1960); Reconhecimento do direito à independência da Argélia e integração do Sacro na Argélia, através dos acordos de Évian (12.III.1962).

Também as colónias portuguesas iniciaram as suas lutas armadas pela independência: Angola (1961), Guiné (1963) e Moçambique (1964). A 18 e 19 de Dezembro de 1961, deu-se a ocupação de Goa, Damão e Diu pelo exército Indiano, perdendo Portugal o controlo daqueles territórios continuamente reclamados como sua soberania.

Estes dinamismos descolonizadores suscitaram também acesos e polémicos diálogos «sobre a verdade da ação missionária ad gentes por parte da Igreja, ou seja, se os autênticos objetivos desta ação foram a divulgação da fé e a promoção humana ou se esta somente colaborou de modo instrumentalizado com as forças colonizadoras» (Cf. F. Senra Coelho in Vaticano II, 50 anos, 50 olhares, Ed. Paulus, 2012, pág. 223).

 

Como aconteceu o Vaticano II

Foi neste contexto de vários totalitarismos; de «guerra fria» entre as duas superpotências; radicalismos ideológicos, movimentos descolonizadores e estratégias neo-colonizadoras e de ameaças nucleares que o Papa João XXIII (1958-1963) dirigiu à Igreja e «Homens de Boa vontade» a Encíclica social Mater et Magistra (14.VII.1961), na qual defendia que o Estado pode legitimamente exercer uma fricção, mas sem aniquilar as iniciativas provadas, ou seja, o Papa condenava o coletivismo estatizante.

A 2 de Dezembro de 1960, numa visita privada, o Arcebispo de Cantuária visitou João XXIII em Roma. Era o prenúncio ecuménico de novos tempos para as Igrejas.

Entretanto, várias figuras da hierarquia da Igreja, sobretudo de Itália e França, compreendiam e integravam, como sinais de valor profético, os esforços de renovação litúrgica; o movimento ecuménico; o desejo de maior participação na vida da Igreja, por parte das alas mais preparadas do laicado; os grupos sacerdotais de compromisso com as novas realidades do mundo, nomeadamente dos sacerdotes operários; os vários teólogos da Nouvelle Théologie. Quanto ao diálogo da Cúria Romana com estas novas realidades, prevaleceu a linha conservadora: a suspensão dos Sacerdotes operários (1954-1959), foi vista como sinal da indisponibilidade da hierarquia para o diálogo com o mundo e para as novas linguagens da evangelização. A reflexão de vários teólogos que contribuíram para o amadurecimento de teses que prepararam o Concílio Vaticano II, passaram a estar sob vigilância cautelosa por parte do Santo Oficio: Daniélou, De Lubac, Cheneu, Congar, Murray e outros.

A sociedade assumia-se, maioritariamente sensível aos direitos da pessoa humana e não suportava qualquer tipo de racismo: Manifestação anti-segregacionista nos EUA (10.III.1960) e anti-apartheid na África do Sul (23.III.1960). A solidariedade, a indignação perante as injustiças Norte-Sul e as grandes perguntas sobre a providência de Deus surgiram com o tremor de terra em Agadir a 1 de Março de 1960, com os seus 12000 mortos.

Viviam-se simultaneamente no mundo momentos contraditórios e empolgantes: I-nauguração da nova capital do Brasil, construída de raiz, Brasília (21.IV.1960); primeiro voo orbital de um cosmonauta americano, John Glen (20.II.1962), depois de Yuri Gagarin, primeiro cosmonauta satelizado à volta da terra ter tripulado com êxito a soviética VostokI; a realização dos XVII Jogos Olímpicos, em Roma de 25 de agosto a 11 de setembro de 1960; a 29 de Dezembro de 1962 a empresa Régie Renault, pela 1.ª vez concedeu aos seus empregados a 4.ª semana de férias pagas; tratava-se de um apreciado avanço no mundo do trabalho que competia em regalias e melhor qualidade de vida entre as duas potências.

João XXIII percebeu, através do seu olhar evangélico, que os tempos estavam maduros. Para ele tornou-se evidente que, mesmo multiplicando-se os remendos e modernizando-se aspetos parcelares da Igreja, o ambiente geral eclesiástico permaneceria cristalizado num passado já anacrónico e as respostas da Igreja apareceriam esgotadas e demasiado apologéticas aos olhos da sociedade.

Com a realização do Concílio Vaticano II, mudou o olhar da Igreja para o mundo e muitos dos que estiveram sob suspeita, foram depois referência e assumiram no Concílio e no pós-concilio atuações de primeira ordem. Como haveria de dizer Paulo VI, a 23 de junho de 1966, «O Concílio é o grande Catecismo da nova época».

 

Passados 50 anos, como nos encontramos?

A Exortação Apostólica Pós-Sinodal de João Paulo II, A Igreja na Europa (2003), fala-nos de «um ofuscamento da esperança» referindo-se aos nossos dias «como um tempo de crise». Diz mesmo que «Muitos homens e mulheres parecem desorientados, incertos, sem esperança; e não poucos cristãos partilham estes estados de alma» (nº 7).

João Paulo II refere-se a três aspetos amplamente citados na II Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Europa (1999): «Crise da memória e herança cristãs, acompanhada por uma espécie de agnosticismo prático e indiferentismo religioso, fazendo com que muitos europeus dêem a impressão de viver sem substrato espiritual e como herdeiros que delapidaram o património que lhes foi entregue pela história.» (IE, nº 7).

João Paulo II enumera uma série de consequências desta crise da memória da perca da herança e do agnosticismo prático e indiferentismo religioso:

● Medo de enfrentar o futuro;

● Imagem vaga e incerta do amanhã;

● Do futuro sente-se mais medo do que desejo;

● Vazio interior que oprime;

● Generalizada fragmentação da existência;

● Predomínio de uma sensação de solidão;

● Multiplicação de divisões e contrastes interiores e sociais;

● Perda do sentido da vida;

● Dramática diminuição de maternidade;

● A relutância ou até a recusa de tomar decisões definitivas na vida, inclusivamente o casamento;

● Queda das vocações ao Sacerdócio e à Vida Consagrada.

A Exortação Apostólica explica que: «Entre outros sintomas deste estado de coisas, a situação europeia actual regista o grave fenómeno das crises familiares e do esmorecimento do próprio conceito de família, a persistência ou reabertura de conflitos étnicos, o reaparecimento de alguns comportamentos racistas, as próprias tensões inter-religiosas, o egocentrismo que fecha indivíduos e grupos em si mesmos, o crescimento de uma indiferença ética geral e de uma preocupação obsessiva pelos próprios interesses e privilégios. Na visão de tantos, a globalização em curso, em vez de apontar para uma maior unidade do género humano, arrisca-se a seguir uma lógica que marginaliza os mais débeis e aumenta o número dos pobres da terra» (IE, 8).

Para João Paulo II, «na raiz da crise da Esperança está a tentativa de fazer prevalecer uma antropologia sem Deus e sem Cristo» (IE, 9). Assim, «Esta forma de pensar levou a considerar o homem como “o centro absoluto da realidade, fazendo-o ocupar astuciosamente o lugar de Deus e esquecendo que não é o homem que cria Deus, mas é Deus que cria o homem. O ter esquecido Deus levou a abandonar o homem”, pelo que “não admira que, neste contexto, se tenha aberto amplo espaço ao livre desenvolvimento do niilismo no campo filosófico, do relativismo no campo gnoseológico e moral, do pragmatismo e também do hedonismo cínico na configuração da vida quotidiana”. A cultura europeia dá a impressão de uma “apostasia silenciosa” por parte do homem saciado, que vive como se Deus não existisse» (IE, 9).

Em 1988, no dia 30 de Dezembro, naquele ano festa da Sagrada Família de Jesus, João Paulo II apresentou a Exortação Apostólica Christifideles Laici, sobre a Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no Mundo. No nº 2 deste documento, encontramos um balanço sobre a vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo, desde a realização do Concílio Vaticano II.

Entre os aspetos positivos são apontados:

● Participação ativa na Liturgia, no anúncio da Palavra de Deus e na catequese;

● Melhor colaboração entre Sacerdotes, Religiosos e fiéis leigos;

● Desenvolvimento dos serviços e tarefas, prestados pelos leigos;

● Florescimento dos movimentos associativos na Igreja;

● Maior e mais significativa participação da mulher na vida da Igreja.

O documento aponta também alguns limites, pois talvez «(…) o caminho pós conciliar dos fiéis leigos não tenha estado isento de dificuldades e de perigos. Em especial podem recordar-se duas tentações: (…) abdicação das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, económico, cultural e político; e a tentação de legitimar a indevida separação entre fé e a vida, entre a aceitação do Evangelho e a ação concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas».

A mesma Exortação Christifideles Laici, cita no seu nº 3 a Constituição Pastoral do Concilio Vaticano II sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, recordando que o Povo de Deus é iluminado pela Fé, deve discernir sobre os acontecimentos, as exigências e os desejos nos quais deve participar com os seus contemporâneos (GS, 11). É evidente neste texto a alusão aos “Sinais dos Tempos” já presente em GS 4,1. Assim, a Exortação pós-sinodal apresenta a leitura da Igreja a grande mutação cultural no nosso tempo, designada por “secularização”. No nº 4, o documento define a secularização como legítima e saudável, mas considera o secularismo incompatível com a Fé Cristã, pois trata-se duma compreensão do mundo «sem que haja necessidade de recorrer a Deus; desta forma, Deus converteu-Se em algo de supérfluo e molesto», chegando a negar Deus.

Fruto desta secularização que levou ao secularismo, os Padres sinodais afirmam que a Europa se encontra numa situação de pós-cristandade, urgindo uma nova evangelização. O nº 5 da Christifideles Laici, apresenta entre as questões urgentes do mundo contemporâneo, a necessidade de construir um Humanismo universal e individual à volta do valor comum de todos os Humanismos que é a pessoa humana. Perante um mundo organizado para a conquista do poder a Exortação apostólica, no N.º 6, apela à centralidade do Amor no Humanismo Cristão, único critério decisivo no serviço da Igreja à Pessoa Humana, traduzindo as palavras de Paulo VI: «O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas» (Evangeli nuntiandi, 41).

 

Os apelos do Concílio, hoje

Bento XVI lembra que «A fé em Cristo nunca se limitou a olhar para trás, nem só para o alto, mas olhou sempre também para a frente, para a hora da justiça que o Senhor repetidas vezes anunciará.» (Spe Salvi, 41). É com este olhar que percebemos os apelos do Concílio Vaticano II para hoje: Igreja fiel ao Evangelho e aos valores humanos e por isso humanizante, que está junto de cada Homem e do Homem todo como quem serve; “perita em Humanidade” e por isso eternamente jovem e criativa, distinguindo o essencial e o periférico, com a liberdade que lhe vem da fidelidade ao Espírito Santo, que a conduz em cada geração.

O Santo Padre reafirma que o «primeiro e essencial lugar de aprendizagem da esperança é a oração» (Spe Salvi, 32). Por isso acreditamos que o grande contributo da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II é uma bússola indicativa dos caminhos da contemplação como amplo mar capaz de refazer, levar e unir. Só na profundidade da oração os Homens se renovarão na Esperança e se encontrarão na comunhão ecuménica. Pois, como diz o Papa, o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e o Salvador e este descobre-se na eloquência do silêncio que contempla e por isso ouve e vê (Spe Salvi, 47).

Que Maria seja a estrela da manha nesta viagem que ainda só começo: a Nova Evangelização.

 

Francisco Senra Coelho

Sacerdote da arquidiocese de Évora

doutorado em História da Igreja