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Que lugar à Palavra na vida da Igreja?

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esta apresentação da receção da Dei Verbum (DV), 50 anos depois do Concílio, pretendo, antes de mais, fazer um breve balanço daquilo que este documento produziu (ou não) na Igreja Católica.

 

1. A Bíblia antes do Vaticano II

A Dei Verbum manifesta o primado da Palavra na Igreja ao longo dos séculos e representa o ponto de chegada da presença da Bíblia na Igreja, antes do Concílio. Apesar de nem sempre o conseguir plenamente, a Igreja não foi apenas intérprete, e muito menos senhora, mas sobretudo serva da Palavra. Esta constituição marca, pois, um antes e um depois, na relação da Igreja com a Bíblia: ao mesmo tempo, ponto de chegada do antes e ponto de partida do depois.

A Bíblia foi sempre a “alma” da liturgia e da catequese, nas épocas apostólica e patrística. Desde sempre se leram “as memórias dos Apóstolos”, isto é, os Evangelhos, e “os escritos dos profetas” do início do Cristianismo, que transmitiam a mensagem de Jesus. Desde o início da Igreja, a Liturgia da Palavra precedeu a Liturgia Eucarística (“a Palavra e o Corpo de Cristo”: DV 21). Os primeiros cristãos eram «assíduos à Palavra dos Apóstolos» (At 2,42). Muito cedo, apareceram mesmo “escolas” de interpretação da Bíblia, sobretudo as de Antioquia e de Alexandria.

Já na época medieval se desenvolveram as Escolas das catedrais e dos mosteiros, para a interpretação e leitura da Bíblia. Floresceu, então, o método da Lectio Divina e os famosos 4 sentidos da Escritura. No Renascimento (séc. XV-XVI), a nova cultura fomentou a volta aos textos originais da Bíblia, trabalho que culminou nas primeiras tentativas de edições críticas da Bíblia, de que foi pioneiro o padre católico, Erasmo.

 O concílio de Trento apresentou uma reflexão sistemática sobre o Cânon, ou a lista definitiva dos livros considerados inspirados pelo Espírito Santo; a relação entre Escritura e Tradição; apresentou a Vulgata como Bíblia oficial da Igreja e legislou sobre a formação bíblica do clero, a fim de que este levasse o conhecimento da Bíblia ao povo de Deus.

 Quando, já nos tempos modernos (séc. XIX-XX), surgiram novos problemas de carácter científico que contestavam não poucos dados bíblicos – tal como eram apresentados pela Igreja – surgiram as “encíclicas bíblicas” a iluminar tais problemas com novas respostas de fé: Providentissimus Deus (1893); Spiritus Paraclitus (1920) e Divino Afflante Spiritus (1943), sem esquecer o documento final do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus promovido por Bento XVI (Verbum Domini, 2010). Nestes documentos, a Bíblia aparece sempre como fundamento da fé e de toda a vida da Igreja.

 

Propostas da Dei Verbum e dados já adquiridos

A Dei Verbum consolidou a doutrina tradicional da Igreja, mas também apresentou a necessária inovação, sobretudo quanto aos seguintes aspectos:

a) A Bíblia é «a alma da Teologia». Antes do Concílio, a Teologia apresentava-se como tendo uma relação de superioridade para com a Bíblia. Parecia que a Teologia é que era a alma da Bíblia; e esta era, frequentemente, vista como “um depósito” de material para a argumentação dos teólogos. Ao relembrar a doutrina antiga da Igreja de que a Bíblia é que é a “a alma da Teologia, a Igreja pôs as coisas no seu lugar e recolocou o princípio fundador da Teologia, que não pode ser outro senão a Bíblia. Isso contribuiu para a renovação da própria Teologia. A Bíblia tornou-se, de facto, a “alma”, não só da Teologia, mas da própria Igreja, como não podia deixar de ser. Os próprios documentos do Concílio (16, ao todo) citam a Bíblia 1.333 vezes, sendo 88 do Antigo e 1.245 do Novo Testamento. 

b) Leitura científica da Bíblia. Para responder aos justos anseios das ciências modernas, a Dei Verbum apresentou métodos científicos que, aliás, já se praticavam, para o estudo científico da Bíblia (Método Histórico-Crítico, Crítica Literária e Crítica Histórica...). Tem que se ter os conhecimentos básicos acerca da Bíblia para encontrar nela a Palavra de Deus para a nossa vida.

c) Leitura teológico-espiritual da Bíblia (DV 25). A característica fundamental deste tipo de leitura depende do ouvinte/leitor e chama-se simplesmente “fé”, que necessita da graça de Deus e dos “auxílios interiores do Espírito Santo, que mova o coração e o converta a Deus, abra os olhos da mente e dê a todos a suavidade no assentimento e na adesão à verdade” (DV 5).

Estes dois tipos de leitura pretendem aproximar a Bíblia da cultura moderna, de modo a que haja uma efectiva inculturação da Palavra no homem do séc. XXI.  

d) Leitura e interpretação da Bíblia em Igreja e na Igreja. Pela sua própria natureza, a Bíblia não pode ser interpretada por uma só pessoa, mesmo que tenha estudado mais do que as outras. É mais proveitosa, e sobretudo mais legítima, a leitura da Bíblia na comunidade, sobretudo na assembleia litúrgica. É uma prática recomendada desde os tempos apostólicos (1 Cor 11; 2 Tm 3,15). Ler a Bíblia em Igreja significa lê-la conforme a interpretação oficial da Igreja e não apenas segundo «a minha interpretação» (ver DV 12).

Este último princípio (protestante) deu origem a milhares de Igrejas, seitas e outros grupos, que se dizem cristãos e que batem às nossas portas e até nos interpelam na rua.

 

Principais conquistas depois da Dei Verbum

Dizia acima que há um antes e um depois da Dei Verbum. Esta constituição do Concílio marca uma viragem altamente positiva na relação da Igreja com a Bíblia. Basta reparar nos documentos que a Igreja produziu antes e depois do Concílio. Assim, na obra Documentos da Igreja sobre a Bíblia, o leitor pode constatar que no antes (até 1962) há apenas 587 páginas das 2.162 de documentos deste livro. Ou seja, nos 50 anos depois do Concílio, a Igreja produziu aproximadamente quatro vezes mais documentos bíblicos do que em todos os séculos anteriores, desde o ano 160 até ao Concílio. Isto dá para pensar acerca da revolução que a Dei Verbum produziu na Igreja.

Além disso, não podemos esquecer o florescimento de grupos, de várias tendências e carismas, que utilizam a Palavra; os conteúdos dos catecismos são directamente extraídos da Sagrada Escritura; a pregação atém-se mais à palavra da Escritura do que à temática dos antigos sermões; multiplicaram-se os grupos de reflexão bíblica, de tipo Escola Bíblia ou de caráter mais popular; na liturgia, a Palavra tornou-se mais abundante, etc.

Intensificou-se o movimento ecuménico, justamente por meio daquilo que une todos os cristãos: a Bíblia; intensificou-se igualmente a Pastoral Bíblica/Animação bíblica da Pastoral, que deu origem a várias estruturas de apoio. Um exemplo de tudo isto é o Centro Bíblico dos Capuchinhos, em Fátima, centro do País.

 

Caminhos ainda a percorrer

A meu ver, a prática da Igreja está ainda muito longe de atingir o nível que os seus próprios documentos propõem. E o que estes enaltecem de diferentes maneiras é a relação mais intensa da Igreja com a Bíblia – o que não se nota na prática de muitas dioceses e paróquias. Daí a necessidade de criar uma nova atitude em relação com a Palavra de Deus, o que se pode fazer do seguinte modo:

a) “Conversãoda Igreja à Palavra. Esta é a pedra de toque, o ponto de referência, em ordem a cumprir a Dei Verbum e o Concílio, em geral. Tudo depende deste ponto, que não podemos separar da conversão a Cristo. Não nos convertemos a Cristo sem a conversão à sua Palavra, pois «Desconhecer a Bíblia é desconhecer a Cristo» (S. Jerónimo).

b) Evitar rutura entre exegese e Povo de Deus. Isto significa que os estudos bíblicos sérios já existentes na Igreja Católica devem chegar, naturalmente, ao conjunto do povo de Deus. Daí a necessidade de uma intervenção mais alargada dos agentes de Pastoral, que se situam entre os exegetas e o povo. Este princípio leva-nos ao seguinte:

c) Intensificar ações de Pastoral Bíblica, em ordem a:

Corrigir certas leituras da Bíblia, tantas vezes fundamentalistas, ao gosto de algumas “seitas bíblicas”.

Promover e difundir as “Comunidades da Palavra”, isto é, levar a todas as pessoas a Palavra de Deus, sobretudo aos domingos, onde não há a Eucaristia.

Formar devidamente e credenciar oficialmente os “Ministros da Palavra”, pessoas com a devida preparação para ensinar o povo a interpretar a Bíblia. Há muito que se espera este ministério laical da parte dos nossos bispos.

Organizar a “Escola Bíblica” / “Escola da Palavra”, paroquial ou inter-paroquial, em ordem à catequese bíblica dos adultos.

d) Criar uma Comissão ou Secretariado Episcopal de Pastoral Bíblica, em ordem a promover e coordenar, oficialmente, a Pastoral Bíblica em Portugal. Há muitos anos que se espera a concretização desta iniciativa por parte da Conferência Episcopal Portuguesa.

Estes “caminhos a percorrer” representam ainda uma tarefa árdua para a Igreja de hoje. Sobretudo para a Igreja que está em Portugal. Mas, sem esta caminhada, a Igreja não atinge o seu objectivo fundamental que é a evangelização, muito menos a Nova Evangelização. Esta não se consegue sem algumas convicções que extraímos da Dei Verbum:

1) A Bíblia é mais do que livros e palavras. É uma Pessoa, que nos interpela à conversão (é a Palavra); mas é unicamente mediante o conhecimento das suas palavras que chegaremos ao conhecimento da Palavra, isto é, da Pessoa de Jesus Cristo.

2) A Bíblia é o espelho da Igreja, onde ela, e cada cristão em particular, revêem a sua própria fidelidade a Cristo.

3) A Bíblia é o ponto de referência normativo da vida espiritual e o instrumento da pastoral da Igreja. Não temos outro. Pois todos os outros “pontos de referência” – que até andam bastante em voga – sem este, são vazios de conteúdo e fazem parte mais da “religião” do povo do que do cristianismo.

4) A Bíblia, livro de oração pessoal e comunitária, ou seja, da nossa resposta ao Deus revelador. Daí a necessidade de rezarmos os Salmos e outras orações da Bíblia, como a Igreja aconselha.

5) A Bíblia é o livro da pregação, da catequese e da acção missionária da Igreja, a Palavra a anunciar (DV 25). Não há outro “manual” de pregação na Igreja Católica.

 

Concluindo

É urgente criar nos católicos uma consciência – sobretudo no clero, pois vivemos ainda numa Igreja clerical – que leve os responsáveis da Igreja a “inventar” algumas

estruturas mínimas que ajudem os fiéis a amar mais a Palavra de Deus. Por exemplo: Domingos Bíblicos, Semanas ou mesmo o Ano da Bíblia em cada diocese ou mesmo em todo o País, de modo que os fiéis possuam um conhecimento mínimo da Bíblia e alimentem a sua espiritualidade cristã com a palavra de Deus. Um meio importante e necessário para atingir esta finalidade será a formação de Animadores/Agentes da Palavra (leigos), que deveriam exercer um verdadeiro Ministério da Palavra.