Igreja

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Qual a missão dos Leigos?

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Igreja considera urgente que os leigos assumam a missão que lhes cabe. «Novas situações, tanto eclesiais como sociais, económicas, políticas e culturais reclamam hoje, com uma força toda particular, a ação dos fiéis leigos. Se o desinteresse foi sempre inaceitável, o tempo presente torna-o ainda mais culpável. Não é lícito a ninguém ficar inativo» (Christifideles laici, 3).

 

A hora dos cristãos leigos

Depois do século III, a clericalização de tarefas não exclusivas dos ministros ordenados fez dos cristãos leigos uma «massa amorfa e passiva», que se limitava, em grande parte, a «receber tudo sem dar nada». Felizmente, nem sempre foi assim. A julgar pelo Livro dos Atos, nas primitivas comunidades houve uma ampla e diversificada participação dos leigos. Harnak escreveu que foram os leigos «os verdadeiros apóstolos da Igreja primitiva».

O termo «leigo», para designar aqueles que não são ministros da Eucaristia, como bispos, presbíteros e diáconos, só é conhecido a partir do séc. III, altura em que bastantes tarefas comuns passaram a ser reservadas ao clero (González Faus, Hombres de la Comunidad, p. 90.). Apesar disso, os cristãos leigos não deixaram de afirmar o seu dinamismo apostólico, por exemplo como na evangelização da Germânia e nos movimentos Renovadores da Igreja da Idade Média. E quem não recorda o impacto evangelizador da Ação Católica, antes do Concílio Vaticano II?

 

Revolução ‘coperniana’ do Vaticano II

Não é exagero afirmar que o Vaticano II trouxe uma nova mentalidade e consciência eclesial sobre a missão dos leigos na Igreja, que tinha ido fermentando desde Pio XI com a Ação Católica. Yves Congar cita, a propósito, uma frase do cardeal Hond: «Os leigos não podem ser considerados uma espécie de apêndice na Igreja… Eles são a Igreja» (Congar, Os Leigos na Igreja, p. 78).

O cap. IV da Lumen Gentium é todo consagrado ao lugar dos leigos numa perspetiva de «igreja-comunhão». Em conformidade com a sua específica vocação laical, diferente da dos ministros ordenados, os leigos, «incorporados a Cristo, constituídos no povo de Deus e, a seu modo, feitos partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, … exercem a sua parte de missão de todo o Povo na Igreja e no mundo» (LG 31).

Com o decreto Apostolicam Actuositatem, o Concílio reforça a vocação apostólica do laicado, afirmando que, «em virtude do batismo e da confirmação, os leigos recebem do próprio Senhor delegação para o apostolado. (1 Pe 2,4-10; AA 3).

 

Vocação ao serviço da Igreja e do mundo

Para os dois documentos conciliares, os cristãos leigos participam na totalidade da missão que a Igreja recebeu de Cristo (LG 31, 33, 35; AA 2, 10) e o seu apostolado tem como caraterística principal a “índole secular”, cuja raiz mergulha no mistério do Verbo encarnado (LG 31; EN 15). 

■ Índole secular da missão laical. O documento Apostolicam Actuositatem considera a «índole secular a «forma singular de evangelização» dos leigos», que deve «iluminar todas as coisas temporais». Segundo o mesmo documento, a vocação laical consiste em «viver no meio do mundo e nos negócios seculares como fermento no meio da massa» (AA 2). João Paulo II esclarece, por seu lado, que a «evangelização do politico, do económico, do familiar, não sendo um exclusivo dos leigos, lhes pertence como modo próprio» (ChL 43). E na Carta a Diogneto, dos primeiros séculos afirmava-se já que os cristãos devem ser para o mundo «o que a alma é para o corpo (LG 38).

■ Leigos chamados ao múnus profético. O Vaticano II reconhece que os cristãos leigos, em virtude do batismo e da confirmação, gozam do múnus profético, para o  anúncio do Evangelho, através da catequese, do testemunho e da palavra na vida quotidiana,  familiar e social (LG 11,35; AA 6,10,24). Todavia, mantém silêncio quanto à possibilidade da pregação por parte dos leigos; mas no Código do Direito Canónico já permitido aos leigos, na falta de ministros ordenados, exercer o ministério da palavra, mesmo não sendo leitores ou acólitos, desde que recebam delegação para o efeito (CDC 230, 3). Não falta quem, devido à escassez do clero, denuncie aquilo que consideram o perigo da «clericalização dos leigos».

■ Dimensão santificadora e sacerdotal. Porque participantes do sacerdócio de Cristo, em virtude da sua vocação batismal, diga-se que os leigos podem ser mediadores da missão salvífica da Igreja. De facto, o Vaticano II ampliou o campo da ação laical, seja co-mo ministros extraordinários do batismo e da comunhão, seja como acólitos e leitores (CDC 230). S. João Crisóstomo dizia que os leigos «eram o pleroma sacerdotal do Bispo». O exercício de tais tarefas, porém, não significa que o leigo se transforma em astor (ChL 23). Mas, de facto, tarefas há que, não sendo exclusivas dos ministros ordenados, vão sendo cada vez mais atribuídas aos leigos. Nesse aspeto, é reconfortante verificar que se esfumaram certas reservas, ainda bem recentes, quanto à participação das mulheres nos ofícios de acólito e leitor…

Presentes na organização comunitária… O Vaticano II contribuiu também para a participação mais alargada dos leigos nos sínodos, nos conselhos diocesanos e paroquiais da pastoral (AA 26; ChL 25), cooperação, que é extensiva aos ofícios na Cúria romana (CDC 27), à administração dos bens da Igreja e a outros cargos relacionados com os deveres dos pastores (AA 5). Isto nada tem de novo. Já no seu tempo, o zeloso bispo S. Agostinho recorria ao auxílio de leigos cultos, porque, «não sendo profissionais da fé, estão em posição mais favorável para demonstrar como a fé pode iluminar a cultura».

■ Atenção à formação dos leigos. A uma maior participação laical deve corresponder maior exigência na formação dos cristãos leigos na linha bíblica, teológica e pastoral. Atente-se, porém, que a alma de toda a formação é a vida de fé, unida a uma grande paixão pelo evangelho. E não é descabido recomendar aqui que toda esta abertura doutrinal à participação dos cristãos leigos na missão da Igreja, só resultará na medida em que desapareçam algumas reservas mentais que, infelizmente, ainda perduram em muitos pastores e membros da hierarquia. Assim, não podemos deixar de implorar que o Espírito do Senhor continue o soprar como no tempo do Pentecostes.

 

SIGLAS: CLChristifidelis Laici, de João Paulo II; LG Lumen Gentium, do Vaticano II; AAApostolicam Actuositatem, do Vaticano II; CDC – Código do Direito Canónico; ENEvangelii Nuntiandi, de Paulo VI (1975).