Igreja

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Que imagem da vida Consagrada?

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aminhamos a passos largos para o 50º aniversário do Decreto conciliar “Perfectae Caritatis”, promulgado a 28 de Outubro de 1965 e aprovado com 2321 votos a favor e apenas 4 contra. Aqui fica meia dúzia de considerações, tratadas de maneira escandalosamente breve.

 Nas vésperas do Segundo Concílio do Vaticano, entre os Consagrados, registava-se alguma efervescência prática, provocada por Congressos e não só, e muita imobilidade teológica. Vinha de longe, transmitindo-se de geração em geração, uma visão que os Padres Conciliares debateriam vivamente.

A gestação do nosso Decreto não foi fácil. Pela primeira vez na história dos Concílios, um deles abordava a Vida Consagrada numa Constituição Dogmática: todo o capítulo VI da Lumen Gentium. Outros Concílios Ecuménicos (V de Latrão, Trento) tinham-se ocupado dos Consagrados, mas só a nível disciplinar e prático.

O Decreto Perfectae Caritatis alimenta-se da Lumen Gentium. Mas outros documentos do Vaticano II influem na renovação da Vida Consagrada: a Constituição Dei Verbum, para os fundamentos bíblicos, a Sacrosanctum Concilium, para a vivência litúrgica, a Gaudium et Spes, para a relação com o mundo, o Decreto Ad Gentes, sobre a actividade missionária, o Christus Dominus, para as relações entre os bispos e os superiores religiosos.

 

Linhas de rumo

Os critérios gerais de renovação, propostos pelo Perfectae Caritatis, são os seguintes:

Retorno às fontes de toda a vida cristã e aos valores característicos de cada instituto. Remergulhar na Palavra de Deus («seguir Cristo como ensina o Evangelho») e no carisma dos Fundadores.

Conveniente adaptação às exigências das novas circunstâncias. Atenção aos «sinais dos tempos» («e dos lugares» - acrescentou-se mais tarde).

Intervenção activa de todos os Consagrados na renovação, tanto espiritual como exterior, do próprio instituto. Antes do nosso Concílio, as mudanças eram geralmente delineadas por peritos do Vaticano e aplicadas pelos superiores. Uma renovação imposta de cima para baixo. O Vaticano II exige a colaboração das bases. Quem melhor conhece o carisma dum instituto são aqueles que o vivem.

Note-se que o Perfectae Caritatis é o único documento conciliar que recorda explicitamente no título um dos propósitos de João XXIII ao convocar o Concílio: «a renovação adequada» (Perfectae Caritatis, Decreto sobre a adequada renovação da Vida Religiosa).

Deslocou-se o acento: do primado da Regra para o primado do Evangelho; da autoridade para a fraternidade; da “fuga do mundo” para o desejo de conhecer o mundo, a fim de melhor o servir; da visão ascética para uma visão mais centrada no compromisso a favor da sociedade, nomeadamente dos pobres; das devoções para a Palavra de Deus e a liturgia; da conversão entendida como questão pessoal para a conversão da comunidade e do instituto.

 

“Fidelidade criativa”

À distância de mais de quatro décadas, vê-se que os princípios e temas aprovados então, permanecem indicadores, bons e fecundos, do caminho a seguir.

Por exemplo estamos convencidos, de que não se pode elaborar uma eclesiologia sem falar da Vida Consagrada. Es-ta faz parte inseparável, indiscutível, da realidade carismática da Igreja. Os Consagrados não podem ignorar o significado dos outros carismas, designadamente os laicais; os leigos e os padres (e os bispos), por sua vez, farão bem em conhecer a teologia da Vida Consagrada.

Hoje em dia – é outro exemplo – ninguém ousa denominar a Vida Consagrada como “estado de perfeição”. Na realidade, só existe um “estado de perfeição”, que é a vida cristã. Diversos são, pelo contrário, os estados, géneros de vida, serviços e ministérios. Chamados à perfeição da caridade, todos sem excepção.

Os princípios dinâmicos do Perfectae Caritatis também valem hoje. Mas o tempo não para e foi com naturalidade que outros documentos viram a luz no Pós-Concílio. Os Consagrados de hoje podem chamar-se (por agora) a geração da Vida Fraterna em Co-munidade (1994), da Vita Consecrata (1996), do Partir de Cristo (2002), de O serviço da autoridade e a obediência (2008).

Não podemos, de facto, pedir ao Perfectae Caritatis todas as respostas aos problemas surgidos em quase meio século; o Decreto não podia prever todas as mudanças. Estou a pensar no movimento da Vida Consagrada para o hemisfério sul do planeta; na sua redução ou redimensionamento no mundo ocidental; na exigência crescente e inadiável de verdadeira inculturação devido à rápida mestiçagem étnica e cultural das nossas fraternidades e institutos; nas dificuldades específicas da Vida Consagrada feminina, unidas à “revolução” que ainda sofre o papel familiar e social da mulher; num certo aburguesamento, secularismo e individualismo que serpenteiam entre nós.

Pede-se uma “fidelidade criativa”, para seguirmos com renovado frescor a «Cristo que é, ao mesmo tempo, o consagrado à glória do Pai e o enviado ao mundo para a salvação dos irmãos e irmãs» (Vita Consecrata, nº 22).

 

Perguntas para a reflexão

Assumimos que as mudanças exteriores são necessárias, mas que a renovação interior é a questão decisiva?

Não gastaremos demasiado tempo e energias a discutir assuntos de segunda ou terceira categoria (típico “vício” eclesial)?

Não seria bom focar-nos sobretudo naquela doação superabundante e gratuita, simbolizada no perfume de Betânea (Jo 12,1-8)?

 

Trabalho de casa

«Fazer memória agradecida do passado, viver com paixão o presente, abrirmo-nos com esperança ao futuro» (Partir de Cristo, 19).