Igreja

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Um novo rosto da Missão?

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inquenta anos depois do decreto conciliar sobre a atividade missionária da Igreja, a Missão assume um novo rosto, onde a iniciação à fé e a educação concorrem quer para a possibilidade de um discurso atual e inteligível sobre Deus, quer para o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente elevada à dignidade da pessoa humana. Isto é, que procura o seu desenvolvimento integral, como nos desafiam os Lineamenta para o Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização para a Transmissão da Fé, a decorrer em Roma.

 

Vida e sonho 

Ao longo dos séculos, nunca parou de ressoar por toda a terra a urgência do mandato de Jesus: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28,19-20).

Se em certas alturas os baptismos foram em massa, não se poderá dizer o mesmo do empenho no ensino, salvo algumas exceções felizes em “escolas das missões” nos chamados países de missão, desafio lançado pelo decreto Ad Gentes: «Os leigos colaboram na obra de evangelização da Igreja e participam da sua missão salvífica, ao mesmo tempo como testemunhas e como instrumentos vivos... Nas terras de missão exerçam o ensino nas escolas» (nº 41).

Os Franciscanos Capuchinhos chegaram a Timor-Leste em Outubro de 2003 e depressa perceberam o enorme desafio que tinham em mãos: uma comunidade com mais de 90% de católicos mas praticamente sem catequese ou, pior, com uma base antropológica animista que aceitou o cristianismo nos seus ritos sem se interrogar nem lhes procurar o sentido. Ora, a encarnação do Evangelho nesse horizonte cultural teria que começar pelo alargamento dos próprios horizontes, no interior dos quais o Evangelho possa fazer sentido (cf. João Duque, Jornadas Missionárias 2006).

O cenário encontrado era muito devido ao facto de a educação católica se ter reduzido à transmissão de informações e não da inculturação dos valores do Evangelho com a formação da pessoa para torná-la capaz de, por um lado, viver plenamente a sua fé e, por outro, ajudar a viver uma ética da co-responsabilidade que vá mais além da tribo ou da aldeia.

Para entender isto melhor, façamos uma viagem até Ra’e-Bu’u.

 

Finalmente a estrada

 Ra’e-Bu’u é uma aldeia da nossa paróquia a que só se acede percorrendo vários quilómetros a pé; neste caso, pouco menos de quinze quilómetros, seguindo o leito do rio, caminhando sobre pedras roladas, atravessando diversas ribeiras, ladeado por montanhas altas onde as almas se elevam ao canto dos loricos (papagaios), entrecortado pela coreografia do vento nos bambus.

Aqui percebe-se mais claramente que «o livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral.» (Lineamenta, nº 21)

E é por isso que a iniciação à fé e a educação devem estar intrinsecamente unidas no esforço da Igreja em tornar inteligível hoje e em todas as culturas uma Boa-Nova que é de sempre.

 

Catequese

Muitas das crianças e adolescentes que nos acompanham nesta viagem a Ra’e-Bu’u frequentam a catequese. Em Portugal isso não teria nada de especial; mas nesta paróquia é uma novidade, pois até 2003 havia apenas a preparação para a primeira comunhão, durante cerca de um mês, sem a criança ter oportunidade para criar uma relação afectiva com Deus, que a levasse depois a desejar aprofundar e viver em pleno as verdades da fé.

Mal aqui chegou, o frei Fernando Alberto iniciou a adaptação e tradução dos catecismos e a formação de catequistas. Hoje há várias centenas de crianças e adolescentes na catequese do 1º ao 8º ano e já não se revêem sem esta proximidade com Deus e a Igreja.

 

Formação

Em muitos locais, a formação era e é entendida como simples transmissão de conhecimentos a fim de capacitarem os formandos para exercerem determinada habilidade ou serviço. Não forma a pessoa para a vida, pelo que, entendida nesse sentido, não educa verdadeiramente.

Muitos dos “tios” e “tias” de Ra’e-Bu’u, não sabem ler nem escrever; e alguns nem a língua tétum sabem, falando apenas os dialetos locais. Mas sabem que, se para baptizar um filho, terão de frequentar, com os padrinhos, um tempo de formação que não inclui apenas uma transmissão de conhecimentos, mas sobretudo o sentido de pertença a uma família mais alargada e uns valores que, sem destruírem a sua cultura, a valorizam à luz do Evangelho.

Além da formação para o batismo, há a formação bíblica e litúrgica de catequistas e pais das crianças que frequentam a catequese.

 

Prioridade na educação

Até há pouco, quase nenhuma criança de Ra’e-Bu’u frequentava a escola; e as poucas que deixavam a segurança da sua aldeia para ir estudar em Cairui, raramente faziam mais do que a escola primária. Hoje são já vários os que frequentam a universidade.

Na educação, que assumimos como uma das nossas prioridades após a leitura atenta da realidade, temos vários “campos de trabalho”:

 

Jardim de Infância

As Leigas Capuchinhas em Missão, ao chegarem aqui em Outubro de 2011, perceberam logo as graves lacunas ao nível do ensino, e deitaram mãos à obra. Em tempo recorde, e quase sem meios, montaram o Jardim de Infância que recebe crianças com 4 e 5 anos de idade. Este ano de “experiência” tem-se revelado um sucesso, sendo notório o crescimento das crianças o que deixa os pais muito felizes e reconhecidos por este trabalho dos/as missionários/as.

 

Escola Secundária

Um outro empenho da Celina Fernandes e da Joana Ribeiro tem sido na Escola Secundária de Laleia, onde ensinam as disciplinas de Língua Portuguesa e Educação Cívica. Além dos alunos, a “missão” também sai beneficiada pois nota-se maior aproximação de muitos alunos à Igreja e aos Missionários; vários deles são de Ra’e-Bu’u; por isso, quando vamos à sua aldeia natal, acompanham-nos e aproveitam as breves paragens de descanso para tirar dúvidas com as “professoras”.

 

Centro São Francisco de Assis

Para responder às necessidades na área da educação, com o apoio generoso de muitos cristãos portugueses, construímos um centro de estudos e apoio à pastoral, que noticiaremos num próximo número.

Aqui funcionará uma Biblioteca aberta ao público, a única entre Baucau e Díli, uma sala de apoio ao estudo, uma sala de formação e uma sala de exposições, além de um palco para celebrações litúrgicas e eventos culturais como o teatro, por exemplo, que é um instrumento extraordinário de estimulação cognitiva, tão necessária.

 

Novamente o sonho…

A aposta na educação na nossa paróquia é, portanto, não a “ideia luminosa” de uma ou duas pessoas, mas imperativo de consciência coletiva da Igreja, para que, ao acederem a uma educação com qualidade, as pessoas se formem realmente e o cristianismo surja como parte integrada e integrante, e não como se fosse uma imposição.

Sabemos que a educação engloba os processos de ensinar e aprender. Por isso um missionário, mais que um formador com conhecimentos a transmitir, deve ser capaz de ir a Ra’e-Bu’u para celebrar a Eucaristia, e também para se sentar nos frágeis bancos de bambu, tomar café com o povo simples e iletrado, escutar os Lia-Na’in (os velhos que ali “têm a palavra”), vestidos com lipa e pés descalços sobre a terra vermelha pisada e amada pelos seus antepassados, conhecer e amar a sua cultura, pois o Evangelho não veio para a destruir ou submeter, mas para a completar e elevar na sua dignidade ética e moral.

Aqui, Deus ainda fala – e nós o ouvimos – no sopro leve da brisa. Por certo é este o caminho. E a próxima aldeia é já ali…