Igreja

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A Missa, em 1962 e em 2012

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A

s Constituições do Concilio Vaticano II, Lumen Gentium (21.XI.64) e Sacrosanctum Conclium (4.XII.1963) tratam, respetivamente, da Igreja e da Liturgia. Para entendermos algumas reformas que, a partir delas, foram introduzidas na Igreja, publicamos a homilia feita na Missa das suas Bodas de Ouro Sacerdotais no passado dia 15 de Agosto, por frei Lopes Morgado, ordenado sacerdote a 25 de Agosto de 1962, antes da abertura do Concílio Vaticano II. Nela inclui outros dois condiscípulos e conterrâneos, concelebrantes nessa celebração e também “padres do Vaticano II”.

Senhor D. Abílio Ribas, bispo emérito de S. Tomé – ou, como diria S. Francisco de Assis, “meu irmão bispo”. Meus caros condiscípulos Arlindo e Agostinho; e meus Irmãos todos, no sacerdócio ministerial ou no sacerdócio comum de Jesus Cristo, pelo baptismo, que nos faz a todos um povo de reis, sacerdotes, profetas e santos:

 

Paz e Bem!

 

1. FESTA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA

Estarmos aqui hoje deve-se, antes de mais, ao facto de neste dia celebrarmos, em Portugal, como dia santificado, a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora ao céu, em corpo e alma. Se não fosse dia santo, nem o P. Arlindo teria sido ordenado na Sé de Braga, nem eu cantado Missa nova aqui nesta igreja faz hoje exactamente 50 anos; o P. Agostinho foi ordenado um pouco mais tarde, no dia 3 de Novembro. E por eu ter sido ordenado a 5 de Agosto, é que os meus colegas decidiram ser eu a presidir a esta celebração conjunta.

Falemos então, primeiramente, da Virgem Maria, a partir das Leituras da Palavra de Deus.

A 1ª Leitura fala da arca da aliança e de uma mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, que estava para dar à luz no meio das ameaças de um Dragão, que lhe queria devorar o filho. Trata-se de uma linguagem simbólica e cifrada, própria dos tempos de censura. Com ela, o autor do Apocalipse quer dizer aos cristãos perseguidos no tempo do Imperador Domiciano, por volta do ano 95: assim como Deus esteve presente no meio do seu povo do Antigo Testamento, livrando-o da tirania do faraó e conduzindo-o pelo deserto até à terra prometida, assim também agora o vai libertar. O mítico Dragão, que representa as forças do mal, não poderá impedir o triunfo do Messias, filho da Mulher; antes será vencido por Ele, como foi prometido ao Ser humano desde o princípio.

Claro, nós, como vemos as imagens da Imaculada Conceição rodeadas destes símbolos, ao ouvirmos o texto relacionamo-lo logo com Nossa Senhora. E de facto, o Novo Testamento e a Tradição da Igreja vêem nesta Mulher a Mãe histórica do Messias – Maria, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, que continua a ser perseguida em muitas partes do mundo, com cristãos a serem martirizados como naquele tempo. Basta dizer que, só no século XX, houve mais mártires do que em todos os séculos anteriores, apesar da Declaração Universal dos Direitos do Homem e de tantas Constituições políticas a defenderem os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.

O P. Tony Neves, aqui presente, ainda na segunda-feira passada recordou, no encontro preparatório deste dia, 7 missionários mártires no planalto central de Angola, o primeiro dos quais foi o próprio irmão do P. Agostinho e meu primo, P. Adélio Ribeiro Lopes. E apesar disso, o P. Agostinho lá continua a trabalhar há mais de 40 anos.

Porque uma coisa é certa: ao matarem os cristãos, os inimigos da Igreja não acabam com ela; antes, dão-lhe cada vez mais força. O P. Agostinho assim o testemunhou, também na segunda-feira, e ainda ontem em conversa comigo: nessas comunidades, os cristãos – que, se calhar, à luz dos nossos critérios de cá, julgamos menos preparados – tornaram-se mais adultos e responsáveis, não dependendo tanto do padre para tudo, como os da Europa. E o P. Arlindo também confirmou que, no seu apostolado entre os emigrantes na Suíça, encontrou maior empenho e apoio dos nossos compatriotas lá, do que aqui nas suas paróquias.

É da experiência comum – é dos livros, como se costuma dizer: a muita facilidade infantiliza, e não ajuda a crescer nem a assumir as próprias responsabilidades, tanto na vida como na fé.

 

2. A IGREJA E NÓS, NESTES 50 ANOS

Faz hoje exactamente 50 anos, o pregador da minha Missa Nova (frei Miguel de Negreiros, falecido no dia 10 de Março do ano 2000) dirigiu-se à minha Mãe naquele tom dos “distintos oradores sagrados” da época:

– Senhora Engrácia, a senhora é uma mulher cheia de sorte, porque o seu filho arranjou-lhe uma nora fácil de aturar: casou com a Santa Igreja!

Não me posso queixar da minha “Mulher”, a santa Igreja; talvez ela tenha mais queixas de mim, embora eu tenha trabalhado e sofrido muito para mantê-la viva, limpa e arejada, quando tantos a dizem morta ou retrógrada. Mas, de facto, ambos mudámos muito nestes 50 anos – a Igreja e eu, ou a Ordem a que pertenço. Só o total amor do Espírito Santo nos poderia ter mantido a ambos fiéis e unidos até hoje. E o que digo por mim, julgo poder dizê-lo pelos meus dois colegas.

 

(A) Permitam que lhes lembre, apenas, as diferenças exteriores entre o culto aqui realizado há 50 anos, e o realizado hoje.

- Há 50 anos, só eu celebrei, e os outros padres assistiram à missa; hoje concelebramos todos.

- Há 50 anos, celebrei aqui em cima, longe de todos e de costas voltadas para as pessoas; hoje, estou de frente para todos vós.

- Há 50 anos, a Missa era em Latim; hoje, em Português.

- Há 50 anos, havia apenas duas Leituras da Bíblia, mas eram lidas em Latim (e nas missas não cantadas, à semana, de costas para a assembleia); hoje temos 3 Leituras, proclamadas (não lidas) em Português, de modo que todos possam entender, se a proclamação for bem feita.

- Há 50 anos, só os clérigos proclamaram as Leituras e só o celebrante deu a comunhão; hoje, podem fazê-lo padres ou leigos aptos para isso.

- Há 50 anos, os homens estavam da grade da comunhão para cima, e as senhoras da grade da comunhão para baixo; hoje, os casais podem e devem estar juntos.

- Há 50 anos, houve um pregador que veio fazer o sermão; hoje falo eu, em nome dos três colegas.

 

A estas, acrescentaria outras duas diferenças importantes:

- Há 50 anos, ninguém tinha nem lia a Bíblia; hoje, as crianças recebem a Bíblia na catequese e qualquer pessoa a pode ler, rezar ou consultar em casa.

- Há 50 anos, esta igreja estava entregue às pombas e à humidade, com altares destruídos, imagens retiradas e andaimes no coro; hoje está este encanto que podem ver. Nunca pensei que fosse possível devolver-lhe esta beleza! Honra a quem tanto se tem empenhado nisso! Falta apenas um altar, no arco cruzeiro: todos sabemos onde ele está, e esperamos que em breve regresse ao seu lugar natural, graças à boa vontade de todas as partes, como estímulo para que actos semelhantes não se repitam no futuro.

 

(B) A vivência dos nossos 50 anos de Padre foi moldada pela teologia e pelas reformas litúrgicas nascidas do Concílio Ecuménico Vaticano II, aberto em Roma a 11 de Outubro de 1962, pelo bom papa João XXIII. Damos graças a Deus por isso! O Vaticano II veio provocar uma primavera na Igreja. Só quem então estava longe dela, ou não sabe a sua história, pode dizer que a Igreja está hoje pior do que então, ou que deram cabo dela. Vem aí o ano da fé, como forma de celebrar os 50 anos dessa abertura do Concílio Vaticano II. Aproveitemos a oportunidade para renascermos como crentes e como comunidade.

Nos três encontros que programámos na paróquia como preparação para estas Bodas de Ouro, propusemo-nos reflectir sobre o tema da Igreja. A intenção era todos tomarmos consciência do que nela é mais fundamental.

Porque foram muito poucas as pessoas aqui presentes que neles participaram, resumo rapidamente as ideias desses três dias:

1. Como primeiro passo, dissemos que ser cristão é converter-se a Cristo e ao Evangelho, como Francisco e Clara de Assis; porque o cristianismo não é uma doutrina para aprender: é uma pessoa para seguir toda a vida – a Pessoa de Jesus Cristo. E, nesse seguimento, a palavra de Deus na Bíblia é hoje um roteiro imprescindível e permanente. São precisos evangelizadores que proclamem essa palavra e, sobretudo, que a vivam, fazendo o primeiro anúncio ou ajudando na formação permanente da fé.

► Era o dia de apresentar a minha vocação franciscana. E foi nisso que eu me empenhei durante a maior parte dos meus 50 anos de padre, por todas as dioceses do país, com alguns dos meus irmãos capuchinhos aqui presentes, conforme a nossa vocação missionária itinerante: em “missões populares” nas paróquias durante 15 dias, até percorrer toda uma cidade ou vigararia; em cursos de iniciação e formação bíblica; formando e animando grupos bíblicos; em retiros bíblicos; em semanas bíblicas nacionais e regionais; em conferências; nos meios de comunicação social; no apoio audiovisual à pastoral bíblica; na direcção e redacção da revista Bíblica; na edição da Bíblia completa ou das suas partes. Está aqui presente o Secretário Nacional, frei Manuel Arantes, que há vários anos coordena esse Movimento Bíblico.

2. Segundo passo: dessa palavra nasce a fé, que leva aos sacramentos. O 1º é o batismo, que nos introduz na Igreja. E assim, integrados numa comunidade concreta a que normalmente chamamos paróquia, crescemos como cristãos na escuta da palavra, na celebração da Eucaristia e na sensibilização para os problemas dos outros em ordem à promoção do homem todo e de todos os homens.

Tudo isto, com mútuo apoio e complemento da família, que por isso é chamada “igreja doméstica”; pois nela existem as características de uma igreja local ou paróquia:

- a evangelização ou educação cristã, dada tanto pelos pais aos filhos como pelos filhos aos pais e feita com o apoio da catequese sistemática de uma comunidade;

- o culto ou a oração, onde se cultiva a relação com Deus no dia a dia e em grandes acontecimentos familiares, com integração progressiva nas celebrações de uma comunidade; e

- a acção sócio-caritativa, através da solidariedade, da partilha e da promoção, que ajude a pessoa humana a desenvolver-se no seu todo, e não apenas no aspecto físico ou intelectual, mas sem os descuidar. Daí serem, muitas vezes, as paróquias e outras instituições religiosas de solidariedade social a substituir o Estado ou complementar a capacidade das famílias através de centros sociais ou do apoio domiciliário. A Igreja vai muito para além do adro!

Na animação e coordenação destas comunidades locais está um sacerdote com a missão de pároco dada pelo bispo diocesano, cada vez mais desdobrando-se na atenção a várias comunidades ao mesmo tempo, como o P. Walter, da nossa freguesia e os de outras da diocese.

► É esse o carisma e missão especial dos padres diocesanos, como o Padre Arlindo, que, depois de vários anos como capelão militar, foi pároco em A-Ver-o-Mar e em Vila do Conde, seguindo o bom modelo em São João Maria Vianey, ou santo Cura d´Ars; e agora, após dedicar 7 anos à pastoral da migração, exerce a capelania da Santa Casa da Misericórdia em Barcelos, ajuda o D. Prior na igreja matriz de Santa Maria, e presta ainda outros serviços a colegas mais sobrecarregados. Padre para sempre e até ao fim. No nosso ministério não há reformas antecipadas.

3. Finalmente: se a Igreja vai muito para além do adro, também vai muito para além da paróquia, e mesmo de uma diocese ou país concreto: a Igreja de Cristo é, por natureza, católica e apostólica, isto é, universal e missionária. «A Igreja, ou é missionária, ou não é Igreja» – disse-o João Paulo II e vêm-no repetindo desde então vários documentos oficiais.

► Esta dimensão foi sobretudo cumprida pelo P. Agostinho, que viveu praticamente os seus 50 anos de Padre em África: primeiro em Angola, depois em Moçambique como capelão militar e novamente em Angola, até hoje. Parece que único tempo vivido fora, a não ser as merecidas férias, foi aquele durante o qual se veio tratar dos efeitos da explosão de uma mina que o mandou pelos ares e matou os catequistas que o acompanhavam. Mas logo voltou. E, quando muitos se retiraram, nos anos mais duros da guerra, ele não se retirou; e isso, deu-lhe maior credibilidade e aceitação juntos dos cristãos, que também se foram sentindo responsáveis pela sua defesa. E agora vai acabar mais cedo as suas férias, para abrir a 9 de setembro mais uma Missão. Missão que, pelo que ouvimos segunda-feira, pode corresponder ao território dos concelhos de Famalicão e Barcelos.

Eis como nós três, conterrâneos e condiscípulos da Escola Primária, embora sendo Padres diferentes, somos complementares nas várias frentes da Igreja: o P. Agostinho, talvez mais no primeiro anúncio do Evangelho, nas chamadas missões “ad gentes” – entre os gentios; eu, mais na formação e enraizamento da fé naqueles que se comprometeram com ela pelo baptismo; o P. Arlindo, mais no apoio a uma vida de fé vivida em comunidade, de cujas famílias deverão surgir novas vocações para os vários ministérios da Igreja.

Mas nenhuma opção exclui a outra. O P. Agostinho e eu também fomos párocos: ele na catedral do Huambo, e eu no Calhariz de Benfica, em Lisboa; o P. Arlindo também foi missionário, quer entre os soldados, quer entre os emigrantes. E embora eu não tenha sido destinado às Missões, os capuchinhos também são missionários por vocação: está aqui o frei Luís Leitão, bem conhecido do P. Agostinho, que esteve 25 anos em Angola; o frei Arantes, que esteve lá 4 anos; e há irmãos da nossa Missão em Timor, fundada em 2003.

 

III. O NOSSO SACERDÓCIO, À LUZ DE MARIA

É esta Igreja, una e plural, que os três temos servido, ao longo de 50 anos. Não sei qual das nossas vocações concretas é mais difícil. Sei que nenhuma delas é fácil, como também não é nada fácil a vida de cada um de vós, se a quiser viver com dignidade. Nisto, pelo menos eu não presumo ter mais méritos que os leigos.

Estas vocações foram possíveis, «porque nada é impossível a Deus» (Lc 1,37). Ao evocar estes 50 anos, só encontro uma explicação: chegámos até aqui, porque Deus foi fiel! É uma constante que percorre toda a Bíblia: “Deus é fiel!”

Da nossa parte, não há grandes segredos: é uma questão de actualizarmos cada dia as razões do princípio, aquilo que o Apocalipse chama «o teu primitivo amor» (Ap 2,4), ou o amor que te fez seguir este caminho e manter esta escolha, ao perceberes que Deus te chamava por aqui.

Porque uma vocação só é possível ser vivida com amor; e o amor não sobrevive dos rendimentos passados: é preciso renová-lo cada dia, com simplicidade, sem gestos espectaculares que nos ultrapassem, pois somos naturais e normais.

Maria, Mãe dos Sacerdotes, ensina-o no Evangelho de hoje:

1. Convidada a ser Mãe de Jesus, disse: “Eis a serva do Senhor.” Sabendo que sua prima precisava dela, «pôs-se a caminho e dirigiu-se apressadamente para» lá… Maria subiu – descendo; reinou – fazendo-se serva. É a vocação do padre: a vocação do lava-pés e do serviço.

2. Na visita à sua prima, Maria foi arca da aliança (1ª Leitura), levando Jesus no seio e com Ele santificando João Baptista, ainda no ventre de sua mãe Isabel. É a missão do padre: levar Deus às pessoas, restabelecer a aliança entre Deus e a humanidade, gerar a alegria e a festa da vida. Porque Deus é vida e é festa.

3. Elogiada por Isabel, Maria reconheceu que a sua escolha para Mãe de Deus foi um dom totalmente gratuito do omnipotente, que se dignou privilegiar a pequenez da sua humilde serva. E glorificou-o no cântico do Magnificat. É a espiritualidade do padre: eucarística, de acção de graças, porque leva consigo um tesouro em vaso de barro.

4. Terminada a sua missão, Maria retirou-se. Não impôs o seu serviço nem se considerou imprescindível. Saber retirar-se, ou aceitar os próprios limites, deve ser, também, a sabedoria do padre. Mas aqui, muitas vezes sujeita a outra vontade, como a de Jesus no horto das oliveiras: “Pai, se não queres afastar de mim este cálice, não se faça a minha vontade, mas a tua” (ver Mc 14,36).

 

CONCLUSÃO

Minhas Irmãs e meus Irmãos,

Tudo hoje, aqui, é um convite a subir:

a festa da Assunção de Nossa Senhora ao Céu;

a nossa caminhada de 50 anos de Padre;

as nervuras do corpo desta igreja, harmoniosamente unificadas pela abóbada.

Em nome dos meus colegas, obrigado por terem vindo celebrar esta festa connosco.

A igreja de Vilar de Frades, renovada depois de tantos anos, também brilha mais com esta assembleia tão numerosa. Falai dela aos vossos amigos. Voltai com eles, para uma visita demorada. A beleza faz parte, cada vez mais, da fé e da missão da Igreja.

Oxalá a comunidade, que suportou a sua ruína, saiba agora cuidar da sua beleza e promovê-la a nível da região e do país. E, depois de renovada neste espaço, continue a renovar-se nas pessoas pela evangelização, a fé e a caridade.

Dêmos graças a Deus Uno e Trino, Belo, Bom e Verdadeiro; e à Virgem Santa Maria, Mãe de Jesus, Mãe da Igreja, Mãe dos Sacerdotes e Auxílio dos Cristãos.

Ámen.

(momento de silêncio)