Igreja

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Os 50 anos de João XXIII

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onto comigo seis Papas; e posso orgulhar-me de ter querido bem a todos. Mas, como esconder o carinho e o pedaço mais quente das minhas melhores recordações que senti pelo Cardeal Roncalli, patriarca de Veneza e mais tarde o Papa João XXIII? E não é só porque ele foi Papa, porque ocupou esse lugar tão querido para todo o cristão verdadeiro: amo-o, sobretudo, porque creio que no seu século XX não existiu uma alma tão límpida como a sua, ou ao menos, nenhuma que tenha parecido tão profunda e transparente.

Hoje voltei à leitura da carta que escreveu aos seus pais quando completou cinquenta anos e encontro nela um portento de campestre sabedoria. Diz ela:

«Queridos pais, não quero terminar este dia, que é o primeiro do meu quinquagésimo aniversário, sem uma palavra especial para vós a quem devo a vida. Bendigamos juntos a Providência e continuemos a confiar nela na vida e na morte. Esta é a melhor maneira de viver: confiar no Senhor, conservar a paz do coração, ver tudo com optimismo, agir com paciência, fazer o bem a todos e nunca o mal. Desde que saí de casa aos dez anos de idade, li muitos livros e aprendi muitas coisas que vós não me podíeis ensinar. Mas o pouco que aprendi de vós em casa é agora o mais precioso e importante que sustenta e dá vida e calor a todas as outras coisas que aprendi em tantos anos de estudo e de ensino.»

Estas linhas resumem o que é uma vida cristã e feliz: «Confiar no Senhor, conservar a paz do coração, ver tudo com optimismo, agir com paciência, fazer o bem e nunca o mal.» Cinco princípios maravilhosos! Bastaria cumpri-los para mudar o mundo.

Vou deter-me neste último parágrafo da carta, em que assinala o que «de mais precioso e importante» recebeu na vida. Hoje – e há cinquenta anos? – é moda falar mal dos nossos antepassados. Se conversarmos com jovens de dezasseis anos, é raro aquele que está satisfeito com aquilo que recebeu dos seus pais. Conversando com gente da minha geração, todos contam os absurdos que tiveram de suportar na escola primária, nos colégios, nos seminários. Pelos vistos, a única coisa que ali lhes fizeram foi torturá-los, encher-lhes a cabeça de tabus, quando não manipulá-los.

Tenho de repetir que, ou sou bicho raro que não se deu conta de nada disso, ou fui um sujeito com uma sorte fora de série. E penso que também eu, nos meus dezassete anos, disse as minhas tolices. Quem, nessa idade, não teve de reafirmar a sua personalidade nascente e não falou mal dos seus antecessores? Mas não seria talvez mais normal que, passada essa fase, reconhecêssemos que o melhor da nossa vida e da nossa alma foi precisamente aquilo que recebemos na nossa primeira infância?

Ao menos eu confesso que os meus pais me ensinaram mais que os milhares de livros que depois li, que o mais fundo e mais quente da minha alma assenta no fogo da lareira que recebi em miúdo e que veio aquecer tudo o resto. Também sei que nem todos poderão falar assim. Cada um tem os seus calvários, e os mais azedos estão nalgumas infâncias. Apesar disso, peço a todo os meus amigos que limpem bem os olhos antes de julgar, que não opinem a partir de ressentimentos, que tentem compreender as falhas que seus pais cometeram. E que, depois de reconhecer todos os erros que quiserem, se voltem amorosamente sobre as suas raízes porque pode ser que encontrem nelas muito mais amor do que possam imaginar.

Não estou a convidar ninguém à visão romântica do “lar, doce lar”; mas advertindo contra uma das falsas modas do nosso tempo: a de quem, para divinizar o presente, enxovalha o passado. Ou a de quem para justificar os fracassos da sua vida, procura os culpados nos seus educadores.

Eu cá, estou a preparar-me para celebrar os cinquenta anos do Concílio Vaticano II que começam no dia 11 de Outubro e que ele sim, foi a alegria da juventude do meu sacerdócio.