Igreja

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Crer em tempos de descrença

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Adescrença, de que tanto se fala hoje, não aparece com um rosto uniforme. Pode ter as formas de indiferença, descrença positivamente afirmada e descrença revestida de religiosidade. A última é talvez a mais subtil e perigosa pela sua ambiguidade, pois pode abrigar superstição, magia, idolatria e religiões de substituição. Ora, crer não é um mero assentimento inteletual, nem Cristo é um mero dado histórico. O crente é uma pessoa que opta pela verdade.

 

Uma cultura de descrença

Todos percebemos, embora de maneira confusa, que alguma coisa – ou antes, muito – mudou no clima religioso da sociedade atual. Já não é tão natural nem tão óbvio ser e manifestar-se como crente. Tudo parece envolto num tom de descrença e desinteresse religioso (GS 7).

A religião é considerada como resíduo anacrónico, num mundo autónomo com um medo infantil, ignorância ou uma culpabilidade mal assimilada, como fator de alienação ou falso consolo face às injustiças sociais. Em certas ocasiões, também, como elemento folclórico, legitimador de usos e tradições populares… É certo que não se adota, em geral, o tom de um ateísmo militante e agressivo; pelo contrário, dá a impressão de se ter caído num ateísmo vital, prático, no qual Deus já não aparece no horizonte como referência existencial, nem sequer como problema o inquietação. Ateísmo vital que cristaliza muitas vezes, ainda que nem sempre, num vazio ético. E é que, não poucas vezes, ao eclipse de Deus segue-se um ocaso de valores.

Esta descrença, contudo, não aparece com um rosto uniforme; reveste formas variadas: indiferença (que se manifesta numa vida intranscendente – viver o dia e ao dia – indiferentismo e agnosticismo), descrença positivamente afirmada (cujo rosto costuma ser o de um humanismo que vai do entusiasmo à desesperança) e descrença revestida de religiosidade (talvez a mais subtil e perigosa pela sua ambiguidade, dada a proximidade entre fé-religião e religiosidade. A superstição, a magia, a idolatria e as religiões de substituição podem dar guarida a este fenómeno).

 

Que fazer?

De nada valem atitudes anatematizadoras, nostálgicas, inibitivas, polémicas nem, tão-pouco, acomodatícias. O crente há de tomar consciência não apenas do facto, mas do seu significado, e descobrir nele um “chamamento” de Deus. «Outro te levará aonde não queiras» (Jo 21,18), preveniu Jesus a Pedro. E algo parecido pode suceder com este fenómeno, que pode estar a conduzir-nos para onde não queremos ir espontaneamente, mas aonde deveríamos ir, porque certas “ausências” de Deus podem ser novos modos da sua “presença”, ou, pelo menos, estão a reclamá-la.

Este tempo de descrença pode ser um tempo de graça se soubermos escutar e responder ao desafio que ela envolve para os crentes, enquanto supõe a chamada para um aprofundamento, uma praxis e uma pedagogia da fé novas e renovadoras.

 

O que é acreditar?

Sem dúvida, uma resposta ajustada supõe integrar muitos elementos. Proponho um caminho simples: aproximarmo-nos do Evangelho. Conhecemos a narrativa do centurião (Mt 8,5-13). A atitude daquele militar pagão («Não sou digno de que entres na minha casa...») impressionou Jesus («Em nenhum israelita encontrei tanta fé»).

E esta não é a única amostra. Uma mulher pagã, cananeia (Mt 15,21-28), aproxima-se de Jesus com um pedido: «Tem compaixão de mim. A minha filha tem um demónio muito mau.» Jesus faz-se-lhe fugidio; quase a provoca com um desaire: «Não está certo tirar o pão aos filhos para o deitar aos cães.» A mulher, que é mãe, não se rende nem se ofende: «É verdade, Senhor; mas também os cães comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos.» E Jesus deixa-se convencer: «Ó Mulher, grande é a tua fé!»

A Jesus, impressionou-o e quase o desarmou a “fé” destes dois “não crentes” oficiais; ao mesmo tempo que o dececionou profundamente a falta de fé de tantos “crentes de ofício”. No seu próprio povo «admirou-se daquela falta de fé» (Mc 6,6).

Em que consiste, então, a verdadeira fé? Qual é? São questões que recusam a simplificação de uma resposta apressada. Ao evocar estes factos, paradoxais à primeira vista, a minha intenção é convidar a ir à procura da resposta. Mas quero oferecer uma pista: Deus é mais que um dogma, e a fé, mais que uma teoria.

Crer não é apenas saber e aceitar inteletual e afetivamente umas verdades; supõe acolhê-las efetivamente. Crer é integrar a vida no desígnio, na verdade de Deus, e integrar o desígnio de Deus, a sua verdade, na vida. Fé é acolhimento e entrega; receção e doação.

 

A fé de Deus

Para falar da fé em Deus talvez seja conveniente considerar primeiro a fé de Deus, porque Deus é crente, e modelo de crentes. A todos os que hoje dizem não acreditar em Deus, há que dizer-lhes, pelo menos, que Deus, sim, acredita neles. E essa é a fé autêntica!

Como o amor não consiste em nós termos amado a Deus, mas em Ele nos ter amado primeiro (1 Jo 4,10), tão-pouco a fé consiste em nós termos acreditado em Deus, mas em Ele ter acreditado primeiro em nós. Porque Deus é Amor e Fé. E esse Amor e essa Fé são o amor e a fé que nos salvam!

Antes de ser crente, o homem foi objeto de crença, e foi Deus o primeiro a acreditar nele até o criar e lhe entregar a sua criação (Gn 1,27-29).

Tão assombroso gesto, fez exclamar o salmista (Sl 8,5-7):

«Que é o homem?
Fizeste-o pouco inferior a um deus
Coroando-o de glória e de esplendor;

Fizeste-o senhor das obras das tuas mãos»

E não foi este o seu último acto de fé no Ser humano. Apesar do seu pecado, Deus continuou a acreditar nele até se fazer homem. Jesus Cristo é a mais perfeita profissão da fé de Deus no homem; por isso, é também a formulação mais perfeita da fé do homem em Deus.

A fé de Deus é uma fé criadora. E isto marca a linha, o estilo da fé. Habituados a crer acreditando, temos que decidir-nos a crer criando. «Cristo não disse: “Eu sou o costume” (consuetudo), mas “Eu sou a verdade” (veritas)», escrevia Tertuliano, já no séc. III, comentando a frase do Evangelho de São João. Crer é criar. A fé verifica-se na vida, na praxis, e a vida, a praxis, verifica a fé.

 

A FÉ EM DEUS

 

De que Deus falamos?

«A Deus ninguém o viu» (Jo 1,18). Esta afirmação não é um convite ao agnosticismo, teórico o prático, mas uma chamada à revisão permanente das nossas imagens e formulações acerca de Deus. O homem religioso dificilmente supera a tentação de fixar Deus em imagens (Ex 32,1) e em dá-las como definitivas (sacralizando-as).

A cada tempo compete-lhe responder significativamente acerca das suas convicções estruturantes e básicas; este repto também afeta o crente cristão (1 Pe 3,15). As fórmulas da fé não esgotam a formulação da fé; e a fé precisa de ser formulada permanentemente e significativamente.

A humanidade caminha para configurações culturais, sociais, económicas, políticas e religiosas de uma novidade tão radical, que rompe todos os esquemas anteriores e incluse os esquemas do presente. Acerca da imagem de Deus, isto é particularmente certo. E não se trata de renunciar à fé nem de questionar a verdade profunda da experiência cristã, mas de atualizá-la. A cultura mudou e as pessoas precisam de saber não apenas que crêem, mas saber em que crêem. Perguntar por Deus tem que ser uma atitude permanente; e a resposta deve ser sempre nova e renovadora.

Não podemos aqui abordar especificamente o tema da linguagem sobre Deus nem o das diferentes visões de Deus; mas dizemos que é necessário apercebermo-nos disso. Pois pode acontecer que, à força de nos habituarmos a Deus, acabemos por nos imunizarmos diante d´Ele; à custa de O darmos por sabido, Ele se torne um desconhecido (ver At 17,22ss) ou um costume. De que Deus falamos? Vejamos algumas “imagens”

O Deus intimista. Satisfação de necessidades e aspirações psicológicas. Deus é invocado como resposta à necessidade de consolo num problema (consolo na tribulação, companhia na solidão, tranquilizante na ansiedade...) Não dizemos que a fé não console, acompanhe e serene; mas não pode confundir Deus com um compensador das nossas frustrações diárias; as frustrações devem encontrar em nós a sua solução.

O Deus dos nossos interesses. Pôr Deus ao serviço de certos interesses coletivos, quase sempre de poder (guerras santas e não tão santas; sancionador de sistemas político-sociais, que pretendem encobrir os seus interesses de poder sob solenes proclamações de fé (alusões a Deus, à religião...), ou de interesses pessoais. Deus não é estranho à ordem do mundo, mas não se pode associar a qualquer ordem.

O Deus popular. A religiosidade popular, cheia de potencialidades e riqueza, não está isenta de riscos para a verdadeira fé. Esta religião, que o povo sente como sua, tem uma linguagem gestual e simbólica muito rica, que chega a camadas afetivas e emotivas profundas da pessoa humana. Mas a sua própria riqueza vital entranha riscos que não devem ser desdenhados. A imagem de Deus que nela pulsa parece-se excessivamente com o ser humano. A religiosidade popular desorbita com frequência o sentimento de culpabilidade, sublinhando, em consequência, os elementos expiatórios da religião. As imagens, gestos religiosos e outras mediações cobram valor quase absoluto. Idolatria e magia, não são alheios à religião popular.

O Deus em que fomos educados. Toda a educação – pelo menos até agora – leva consigo uma imagem de Deus condicionada pela sociedade dentro da qual é transmitida. Uma sociedade autoritária e rigorosa, gera um Deus juiz, severo... Uma sociedade permissiva, gera a imagen de um Deus permissivo, irrelevante...

O Deus confinado. Um Deus recluído, reduzido ao “mais além” (transcendência) ou à sacristia” (intranscendência). Tem influência  nisto a fragmentação da vida: economia, política, religião... A pessoa vive essas parcelas de maneira desconexa. Deus aparece confinado à “sua” parcela, sem conexões com o resto da realidade. Um Deus ao qual se tenta satisfazer só nessa parcela e, além disso, do ponto de vista pessoal, parcelarmente, sem “todo o coração”, mas com o “coração partido”.

O Deus diferente e distante. Contraposta à visão do Deus da religião popular, esta acentua a sua transcendência, até a transformar em afastamento, abrindo caminhos ao agnosticismo e o ateísmo.

O Deus irrelevante. Um Deus, cuja existência não se nega, mais ainda, se admite; no entanto, um Deus que a ninguém incomoda e para nada “serve”, a não ser para explicar a realidade, porque “algo haverá mais além…”.

 

a) A FÉ, DOM DE DEUS

Ao sublinhar o aspeto da operatividade da fé, do seu dinamismo, da sua praticidade, convém não esquecer algo fundamental: a sua gratuidade: a fé é dom, é graça.

Só se Deus «abrir o coração» (At 16,14), somos capazes de «vencer o mundo» (1 Jo 5,4). A fé é, pois, obra de Deus (Jo 6,29); não provém «da carne nem do sangue” (Mt 16,17).

Paulo afirmará rotundamente: «Fostes salvos gratuitamente pela fé; e isto não é coisa vossa, é um dom de Deus» (Ef 2,8). O movimento da fé é iniciado pelo Pai. «Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrair... Todo o que escuta o Pai e aceita o seu ensinamento vem a mim» (Jo 6,44-45). Não somos nós que conquistamos a Deus: é Ele que se entrega; e isso é a fé no seu sentido mais radical: Deus entregue, oferecido, revelado ao ser humano. É a fé de Deus, que nos chama à fé em Deus, à entrega a Deus.

Os cristãos, hoje, precisamos de redescobrir a Deus, a sua verdade mais profunda, em ordem à sua vivência e formulação. Num mundo seduzido pela fé nos ídolos, o crente aparece como um “herege”, um “heterodoxo”, face a essa religião idolátrica; e tem de vivenciar e anunciar não só a existência, mas a qualidade do Deus que sustenta a sua vi-da.

Hoje, não se nos pergunta, como ao salmista: «Onde está o teu Deus?” (Sl 79,10); mas “Quem é o teu Deus?”, “Como é o teu Deus?”

A fé implica, de alguma forma, não só a afirmação de Deus – a sua existência –, mas a sua descrição – a sua essência – (cf. Ex 3, 13). Traduzir a Deus, uma tarefa iniludível e inesgotável. Ser crente é ser recetor de uma energia que há de, necessariamente, gerar luz (Mt 5, 14.16).

E isto só é possível a partir do Espírito, pois «ninguém conhece o íntimo de Deus a não ser o Espírito de Deus» (1 Cor 2,11). É Ele a única possibilidade, a única via de acesso para essa incursão divina; só Ele é capaz de nos guiar nesse descoberta «que supera toda a filosofia» (Ef 3,19); pois “o homem naturalmente não pode captar as coisas de Deus...; só o Espírito pode avaliá-las» (1 Cor 2,14).

 

b) O DINAMISMO DA FÉ

Esse ir até Jesus, e ao Pai, no Espírito, que é a fé, não é um caminho teórico ladeado por afirmações especulativas; exige dar passos, «dar frutos de conversão» (Mt 3,8), os «frutos do Reino» (Mt 21,43). Não se trata de um mero assentimento inteletual, mas de um consentimento existencial. A fé não é redutível a um pacote inteletual de verdades: é uma força transformadora e vitalizadora, que cria no homem um dinamismo no-vo, um impulso a «levar uma vida digna de Deus» (1 Ts 2,12).

S. Paulo, sublinhando sempre a primazia da fé, usa, porém, fórmulas que vinculam a fé à acção, como quando fala de «a obra da vossa fé» (1 Ts 1,3), ou de «a fé que atua mediante a caridade» (Gl 5,6). A fé exige “as obras da fé” para alguém ser encontrado irrepreensível no dia do juízo (1 Ts 5,23).

Mas, mesmo estas obras da fé não são iniciativa do homem mas do Espírito que «concede o querer e o agir» (Gl 5,22). «Fostes salvos gratuitamente pela fé..., para fazer obras boas tal como Ele dispôs de antemão” (Ef 2,8.10).

É na Carta de Tiago onde se radicaliza e denuncia com mais força o perigo de uma “vaporização” da fé entendida como puro conhecimento ou ideologia:

«De que serve, meus irmãos, alguém dizer “tenho fé”, se não tem obras? Acaso a fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estão nus e carecem do sustento diário, e alguns de vós lhes dizem: “Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos”, mas não lhes derdes o necessário para o corpo, de que serve? Assim também a fé, se não tem obras, está realmente morta. E ao contrário, alguém poderá dizer: Tu tens fé? pois eu tenho obras. Prova-me a tua fé sem obras, e eu te provarei pelas obras a minha fé» (Tg 2,14-19). E, no fundo, não diz Paulo algo semelhante na 1ª Carta aos Coríntios, quando afirma: «Ainda que eu tivesse tanta fé como para mover montanhas, se não tenho caridade nada sou» (13,2)?

Na verdade, a perspetiva de Tiago não pode considerar-se intencionalmente anti-paulina, embora adote uma perspetiva diferente. Confirma-o a argumentação sobre Abraão (ver Rm 4,1-3). O posicionamento paulino é de ordem teológica; o de Tiago, de ordem prática. Paulo combate a autosuficiência da Lei; Tiago, o perigo de uma fé reduzida a ideologia, que pôde ser a interpretação errada que alguns fizeram do pensamento paulino (ver 2 Pe 3,16).

 

c) A FÉ ATUALIZA-SE EXISTENCIALMENTE

Para São Paulo a existência cristã, a sua existência como cristão, não é mais do que uma tradução operativa da fé. «Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim; a vida que hoje vivo na carne, a vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gl 2,20-21). Para o Apóstolo, crer é existir, viver em Cristo e viver Cristo. O qual, não supõe uma existência alienada o enjoada, mas uma existência pessoal e responsavelmente interiorizadora dos «sentimentos de Cristo Jesus» (Fl 2,5), uma existência configurada por uma pessoa livremente aceite como critério de vida.

Toda a parenese neotestamentária tende precisamente a visibilizar, a atuar a fé, configurando a partir dela a existência pessoal e a convivência social.

É claro que não se trata de algo mecânico, automático e instantâneo, mas de um processo aberto e, por vezes, difícil.

 

A FÉ É UMA OPÇÃO PELA VERDADE

Crer em Cristo é crer na Verdade, porque a Verdade é um dos nomes de Cristo (Jo 14,5). Mas crer não é um mero assentimento inteletual, nem Cristo é um mero dado histórico. O crente é uma pessoa que opta pela verdade. E que é a verdade?

 

a) A verdade não é a segurança ou a certeza de uma opinião ou situação.

Ao contrário, a verdade aparece no horizonte de uma vida quando esta decide abandonar as próprias certezas e seguranças.

Abraão teve que sair da sua terra e tornar-se peregrino para correr a aventura da promessa: «Deixa a tua terra e a tua pátria, e a casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrarei. De ti farei nascer um grande povo, e te abençoarei... Partiu, pois, Abraão... para se dirigir a Canaã» (Gn 12,1-5); e, já na Palestina, teve que sair de novo da sua tenda para, contemplando o céu, compreender a imensidão da sua descendência: «E tirando-o para fora, disse-lhe: “Olha para o céu, e conta as estrelas se puderes..., e ele acreditou em Deus, e isto foi-lhe imputado à conta de justiça» (Gn 15,6).

Moisés teve que descalçar-se para aceder à contemplação do mistério da sarça que ardia sem se queimar. «Descalça as tuas sandálias, porque o lugar que pisas é terra sagrada» (Ex 3,5). Para se tornar o libertador do povo, teve que deslocar a confiança do seu eu para o tu de Deus (Ex 3,11-15).

Os apóstolos, para seguirem a Verdade, tiveram que desenredar-se (é o significado, entre outras coisas, de deixar as redes) e pôr-se a caminho. «E no mesmo instante, deixando as redes, seguiram-no» (Mt 4,20).

A própria Verdade, o homem da verdade, Jesus, não tem um ponto de repouso: «As raposas têm as suas tocas, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça» (Mt 8,20).

A primeira exigência de quem ama e procura a Verdade, é pôr-se a caminho; renunciando, ou pelo menos questionando, as próprias certezas, abrir-se à novidade de alguém que pede um cheque em branco.

A Bíblia formula isto com duas palavras: nascimento e êxodo, que no fundo é o mesmo, pois todo o nascimento não é mais do que o primeiro êxodo da vida, o mais radical. Essa foi a alternativa que Jesus propôs a Nicodemos (Jo 3,1ss).

Uma alternativa impressionante! Como pode alguém voltar ao seio materno, do qual já todos prematura e apressadamente nos distanciámos? Como desandar tantos caminhos e hipotecar tantos resultados?

Uma alternativa dolorosa, porque implica uma leitura crítica que, em boa parte, desautoriza a nossa situação.

Uma alternativa salvadora, porque mostra a possibilidade e o caminho para sair do inautêntico, abrindo à vida horizontes de renovada autenticidade.

O convite de Jesus não é para a renúncia nem para a negação dos valores. É para um discernimento corajoso e sincero; para a criatividade de uma resposta coerente, para viver noutra dimensão – a daqueles que, cheios do Espírito e aspirando às coisas do alto, «despojados do homem velho, se vão renovando para alcançar um conhecimento perfeito segundo a imagem do seu Criador» (Cl 3,9-10).

 

b) A verdade tão-pouco é algo que esteja aí, acabado, completo, à disposição de qualquer um.

Isso facilitaria muito as coisas. O homem não só crê na verdade, mas cria a verdade, na medida em que a verdade se vai fazendo eu, e o eu se vai fazendo verdade. Mais: criar é o único modo de crer; ou, pelo menos, o melhor.

Tomar consciência disto supõe dotar a fé cristã de um dinamismo e de uma responsabilidade insuspeitados. O crente não pode ser um mero consumidor da verdade, que é mais um projeto do que um produto...

A vocação do homem é uma chamada a fazer luz; a sua tarefa é cortar e reduzir cada vez mais os contornos escuros da existência. E o crente não está dispensado deste trabalho criador que é o discernimento da verdade.

«Pela misericórdia de Deus suplico-vos... que não vos conformeis com este mundo, mas deixai-vos transformar pela nova mentalidade, para serdes capazes de discernir o que é vontade de Deus, o bom, agradável e perfeito» (Rm 12,1-2).

A verdade é uma missão; não valem as atitudes estáticas, passivas. A este respeito é interessante sublinhar o sentido profundamente dinâmico do conceito fidelidade.

Face aos que a identificam com o mimetismo conservador, aposto na fidelidade como um repto à criatividade. A fé não se conserva simplesmente com ser “repetida”, mas “reformulando-se” existencialmente. À fidelidade é conatural a contemporaneidade.

Ser fiéis não é apenas ser observantes; é, sobretudo, ser criativos, para evitar que a opção cristã se torne anacrónica e, definitivamente, inútil.

Ser fiéis não é repetir, reproduzir ou imitar as origens do cristianismo, mas viver o presente com originalidade cristã.

Se a verdade não estiver aí, acabada, com que profundidade nos entregamos, os cristãos, a configurar o seu rosto?

A Verdade não é só uma conquista humana; também é, sobretudo, graça de Deus, mas uma graça a que é preciso responder. Até que ponto estamos a criar a verdade da nossa vida cristã e religiosa?

Os pontos escuros, as interrogantes, as carências que nela se detetam, não serão uma denúncia da nossa falta de criatividade? Não teremos demasiado medo de nos enganarmos?

O cristão, pessoal e comunitariamente, tem como tarefa a investigação e a concretização da verdade; nisso está o seu contributo profético. Por isso, quando reza, pede: «Venha a nós o teu reino»; e uma das notas específicas do reino é a Verdade.

 

c) A verdade não é redutível a uma informação sobre alguma coisa ou sobre alguém.

Não é um “o” ou um “que”, mas um “Eu”, um “Quem”. «Eu sou a Verdade» (Jo 14,5). E a partir daqui se entende que essa verdade seja o sustento necessário, «o pão da vida» (Jo 6, 35) e «a luz do mundo» (Jo 8, 12).

Desta perspetiva, chegar à Verdade não é descobrir algo, mas ser descoberto por Al-guém; não é apropiarse de algo, mas entregar-se a Alguém; não é dominar algo, mas ser amado por Alguém; não é criar algo, mas renascer a Alguém, que «está cheio de verdade» (Jo 1,14), porque é «a Verdade» (Jo 14,6) e por isso «diz a Verdad» (Jo 17,17).

Qual, quem é a nossa verdade? A vida cristã configura-se a partir de algo (normas, disposições..., e então é uma vida de cumprimentos) ou a partir de Alguém, Jesus Cristo (e então é uma vida de comunhão)?

Uma coisa é certa: o indivíduo e a comunidade que procuram a Verdade são um indivíduo e uma comunidade orientados para a Luz (Jo 8,12), para a Paz (Ef 2,14); equidistantes de dogmatismos rígidos – sabem que estão a caminho – e de permissivismos irresponsáveis – sentem-se seriamente comprometidos.

Viverão profundamente o sentido da novidade e a descoberta, tal como darão maior radicalidade à conversão, como corretivo à tentação de viver, consciente o inconscientemente, na mentira; hão de superar o medo de perder o sentido da vida (isso que amordaça a tantos), porque o sentido é criado por eles; aumentarão no seu interior a esperança, a alegria e a consciência de serviço ao reconhecerem-se todos embarcados na mesma tarefa: chegar à Verdade e fazer com que a Verdade chegue até eles. A comunidade ou o indivíduo que não tiverem interesses acima da verdade, já são em si mesmos uma palavra de salvação, um sinal da presença do reino de Deus. Pois para sermos livres é que Cristo nos libertou (Gl 5,1), com a Verdade, «porque só a Verdade liberta» (Jo 8,32).