Igreja

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“Senhor, a quem iremos?”

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Vale também para a vida consagrada o que diz o Papa do cristianismo em geral: não é uma ideia genial nem um manual de bom comportamento, mas o encontro com uma Pessoa que dá sentido, forma e cor à vida (Deus Caritas Est, 1). Uma relação, uma aliança de amor com Cristo. O “Ano da Fé” pede-nos atenção a este ponto.

 

Único fundamento: Jesus Cristo (1 Cor 3,11)

A narrativa de uma vida consagrada pode inspirar-se na declaração produzida por Simão Pedro em Cafarnaúm (Jo 6,68). Jesus tinha multiplicado o pão e o peixe, e queriam aclamá-lo rei. Um rei que distribui comida de graça e restitui a grandeza a Israel. Mas Jesus deita um balde água fria sobre este entusiasmo efervescente, afirmando sem rodeios que Ele é o Pão vivo descido do céu e que é preciso comer a sua carne e beber o seu sangue. Muitos discípulos vão-se embora desiludidos. Vira-se então para o grupo íntimo e pergunta-lhes: «Também vós quereis deixar-me?» Pedro chega-se à frente e declara: «Senhor, a que iremos? Só tu tens palavras de vida eterna

Uma pessoa consagrada não segue Jesus Cristo para realizar sonhos terrenos, mas porque vê nele, e só nele, o fundamento, a sustentação, a referência, o farol, o porto de abrigo.

Não basta que tenhamos dito “creio” pela boca dos pais e dos padrinhos na hora do baptismo; importa assumir a fé de maneira pessoal, livre, madura. Não basta, a uma pessoa consagrada, ter declarado no dia da Profissão: “Faço voto de castidade, pobreza e obediência”. Há que assentar o edifício sobre o único alicerce sólido.

A castidade, por exemplo, não se pode construir sobre o facto de vivermos numa nova família ou dedicados ao povo de Deus. Se o Consagrado não tiver uma relação íntima com Cristo, o amor a qualquer outro ser humano pode levá-lo facilmente por água abaixo. O centro afetivo, ou está em Cristo ou a castidade consagrada não tem nenhum sentido.

Da mesma forma, não se pode fundar o voto de pobreza sobre alicerces moles: o caráter efémero das coisas terrenas ou o compromisso com os pobres. A pessoa consagrada compromete-se, “desposa” Cristo Pobre e, a partir daí, trabalha para ganhar o próprio pão (São Francisco enxotava os frades parasitas, gritando: “Irmão mosca!”) e assume a causa dos pobres, com os quais Jesus se identificou. Se Cristo não for a nossa verdadeira riqueza, o desprendimento deste mundo será impraticável.

 

A comunidade e a missão

Poderíamos desenvolver um raciocínio parecido sobre outros aspetos da vida consagrada. Veja-se o caso da comunidade. Frequentemente vê-se o fundamento da mesma no romantismo fraterno, na doçura de viver juntos como irmãos (Sl 133,1). Atenção! A comunidade é importante, vital, mas não é o cimento da vida consagrada. É um valor fundado e não fundante. Ninguém se pode sentir irmão, se não houver um pai comum. O nosso apoio último não é a comunidade nem fulano ou beltrano, mas unicamente Aquele que nos convocou.

Outro equívoco consiste em fundar a vida consagrada na missão. Abraça-se a vida consagrada para “evangelizar o mundo” ou “servir o povo”, “libertar os pobres”, “ir para as missões”. Não. Um homem ou mulher abraça tal projecto de vida, porque encontrou a Cristo e Este o/a “alcançou”! É Jesus quem atrai, cativa, desperta um seguimento entusiasta. O resto – a dedicação à Igreja, o apostolado – surge depois naturalmente. Quem entendeu a própria vida à luz de Cristo e sob o impulso do seu Espírito, fica comprometido radicalmente e para sempre ao serviço do Reino. Vive como Cristo para o Pai e para os irmãos.

Se Cristo não brilhar aos nossos olhos como uma pérola ou um tesouro, de tal maneira que mais nada nem ninguém possa fazer concorrência; se não pudermos dizer com toda a verdade: “Senhor, a quem iremos?”, andaremos sempre a baloiçar…

 

PARA REFLEXÃO

Descobre em ti estes traços da vocação:

1. Resposta pessoal ao chamamento de Jesus: Aqui estou, Senhor, porque me chamaste (1 Sm 3,5.6.7).

2. Tornar-se companheiro apaixonado e permanente de Jesus: Foram e ficaram com Ele (Jo 1,39). Deixaram tudo e seguiram-no Lc 5,11).

3. Caráter expansivo desta vocação pessoal e intransferível. O Consagrado sente o duplo movimento do coração: centrípeto, de adesão a Cristo, e centrífugo, de levar Cristo aos outros (ver Mc 3,14).

 

Oração

Senhor Jesus, nós seguimos-Te;

mas, para Te seguirmos, chama-nos,

porque sem Ti ninguém avança.

Só Tu és o Caminho, a Verdade e a Vida.

Recebe-nos como um caminho acolhedor recebe.

Estimula-nos como a verdade estimula. Vivifica-nos, pois Tu és a Vida.

(Santo Agostinho).