Santo António

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Papa lembra Santo António

santo_antonio_religiosidade_popularBento XVI dedicou hoje a sua catequese das Quartas-feiras à figura de Santo António, “um dos santos mais populares da Igreja Católica”.

Dotado de grande inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e fervor místico, Antônio de Pádua ou – como também é conhecido – de Lisboa, contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana”, assinalou, falando em português.

O Papa abordou o percurso de vida do Santo português, o qual “começou a sua vida religiosa entre os Cónegos Regulares de Santo Agostinho, dedicando-se ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja”. “Porém, atraído pelo exemplo dos primeiros mártires franciscanos, fez-se discípulo de São Francisco de Assis e acabou por ser destinado para a pregação do Evangelho ao povo simples e o ensino da teologia aos seus confrades, lançando as bases da teologia franciscana”, acrescentou.

No último período da sua vida, concluiu o Papa, Santo António “escreveu os «Sermões», onde propõe um verdadeiro itinerário de vida cristã. Neste Ano Sacerdotal, peçamos que os sacerdotes e diáconos cumpram sempre com solicitude este ministério de anúncio e actualização da Palavra de Deus no meio do Povo de Deus”.

O corpo de Santo António estará exposto ao público entre 15 e 20 de Fevereiro, por ocasião do regresso da sua urna ao espaço original, a Capela da Arca, que foi restaurada entre 2008 e 2009. Durante aqueles dias espera-se que a cidade italiana de Pádua receba cem mil peregrinos provenientes de todo o mundo.

A Basílica de Santo António estará aberta entre as 06h20 e as 19h00 (no último dia até às 19h45), hora local, menos uma em Lisboa. As imagens de uma câmara de vídeo direccionada para as relíquias serão permanentemente transmitidas pela Internet, através do site:

www.santantonio.org/ostensionedelsanto2010

A última vez que o corpo de Santo António foi apresentado aos fiéis ocorreu em 1981, por ocasião do 750.º aniversário da morte do frade franciscano. A iniciativa, que durou 29 dias, acolheu 650 mil peregrinos.

A urna foi transferida para permitir o restauro da Capela da Arca, embora não tenha sido aberta. “Desde então – afirmou o Pe. Enzo Poiana, reitor da Basílica de Santo António – multiplicaram-se os pedidos dos fiéis para poderem ver os restos mortais”.

Santo António nasceu em Lisboa no final do século XII. Foi recebido entre os Cónegos Regulares de Santo Agostinho. Pouco tempo depois da sua ordenação sacerdotal ingressou na Ordem dos Frades Menores, com a intenção de se dedicar à propagação da fé cristã entre os povos da África. Exerceu com grande fruto o ministério da pregação em França e na Itália, tendo convertido muitos hereges. Foi o primeiro professor de Teologia na Ordem dos Frades Menores. Morreu em Pádua no ano de 1231.

 

Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

* * *

Queridos irmãos e irmãs: Após ter apresentado, há duas semanas, a figura de Francisco de Assis, nesta manhã eu gostaria de falar sobre outro santo pertencente à primeira geração dos Frades menores: Antônio de Pádua ou – como também é conhecido – de Lisboa, referindo-se à sua cidade natal.

Trata-se de um dos santos mais populares de toda a Igreja Católica, venerado não somente em Pádua, onde se erigiu uma esplêndida basílica que recolhe os seus restos mortais, mas no mundo inteiro. São queridas dos fiéis as imagens e estátuas que o representam com o lírio, símbolo da sua pureza, ou com o Menino Jesus nos braços, lembrando uma aparição milagrosa mencionada por algumas fontes literárias.

Antônio contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, com seus fortes traços de inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e, principalmente, fervor místico.

Ele nasceu em Lisboa de uma família nobre, por volta de 1195, e foi baptizado com o nome de Fernando. Começou a fazer parte dos cônegos que seguiam a regra monástica de Santo Agostinho, primeiro no mosteiro de São Vicente, em Lisboa, e depois no de Santa Cruz, em Coimbra, renomeado centro cultural de Portugal.

Dedicou-se com interesse e solicitude ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja, adquirindo aquela ciência teológica que o fez frutificar nas actividades do ensino e na pregação.

Em Coimbra, aconteceu um facto que marcou uma mudança decisiva em sua vida: em 1220, foram expostas as relíquias dos primeiros cinco missionários franciscanos que se haviam dirigido a Marrocos, onde encontraram o martírio. Este acontecimento fez nascer no jovem Fernando o desejo de imitá-los e de avançar no caminho da perfeição cristã: então ele pediu para deixar os cônegos agostinianos e converter-se em frade menor. O seu pedido foi acolhida e, tomando o nome de António, também ele partiu para Marrocos, mas a Providência divina dispôs outra coisa. Por causa de uma doença, ele viu-se obrigado a voltar à Itália e, em 1221, participou no famoso “Capítulo das Esteiras” em Assis, onde também encontrou São Francisco. Depois disso, viveu por algum tempo escondido totalmente num convento perto de Forlì, no norte da Itália, onde o Senhor o chamou para outra missão. Convidado, por circunstâncias totalmente casuais, a pregar por ocasião da uma ordenação sacerdotal, António mostrou estar dotado de tal ciência e eloquência, que os superiores o destinaram à pregação.

Ele começou assim, na Itália e na França, uma actividade apostólica tão intensa e eficaz, que levou muitas pessoas que se haviam afastado da Igreja a voltar atrás. Esteve também entre os primeiros professores de teologia dos Frades menores, talvez inclusive o primeiro. Começou a lecionar em Bolonha, com a bênção de Francisco, o qual, reconhecendo as virtudes de António, lhe enviou uma breve carta com estas palavras: “Tenho gosto em que ensines aos irmãos a sagrada teologia". António colocou as bases da teologia franciscana que, cultivada por outras insignes figuras de pensadores, teria conhecido seu zênite com São Boaventura de Bagnoregio e o beato Duns Scotus.

Nomeado como superior provincial dos Frades Menores da Itália Setentrional, continuou com o ministério da pregação, alternando-o com as tarefas de governo. Concluído o mandato de provincial, retirou-se perto de Pádua, onde já havia estado outras vezes. Depois de apenas um ano, morreu às portas da Cidade, no dia 13 de Junho de 1231.

Pádua, que o havia acolhido com afecto e veneração em vida, prestou-lhe sempre honra e devoção. O próprio Papa Gregório IX – que, depois de tê-lo ouvido pregar, definiu-o como “Arca do Testamento” – canonizou-o em 1232, também a partir dos milagres ocorridos por sua intercessão.

No último período da sua vida, António escreveu dois ciclos de “Sermões”, intitulados, respectivamente, “Sermões dominicais” e “Sermões sobre os santos”, destinados aos pregadores e professores de estudos teológicos da ordem franciscana. Neles, comentou os textos da Sagrada Escritura apresentados pela liturgia, utilizando a interpretação patrístico-medieval dos quatro sentidos: o literal ou histórico, o alegórico ou cristológico, o tropológico ou moral e o anagógico, que orienta à vida eterna. Trata-se de textos teológicos-homiléticos, que recolhem a pregação viva, na qual António propõe um verdadeiro e próprio itinerário de vida cristã. É tanta a riqueza de ensinamentos espirituais contida nos “Sermões”, que o venerável Papa Pio XII, em 1946, proclamou António como Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de “Doutor Evangélico”, porque destes escritos surge a frescura e beleza do Evangelho; ainda hoje podemos lê-los com grande proveito espiritual.

Nos “Sermões”, ele fala da oração como uma relação de amor, que conduz o homem a conversar docemente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que envolve suavemente a alma em oração. António recorda-nos que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio, que não coincide com o afastamento do barulho externo, mas é experiência interior, que procura evitar as distracções provocadas pelas preocupações da alma. Segundo o ensinamento deste insigne Doutor franciscano, a oração compõe-se de quatro actitudes indispensáveis que, no latim de António, definem-se como: obsecratio, oratio, postulatio, gratiarum actio. Poderíamos traduzi-las assim: abrir com confiança o próprio coração a Deus, conversar afectuosamente com Ele, apresentar-lhe as próprias necessidades, louvá-lo e agradecer-lhe. Neste ensinamento de Santo António sobre a oração, conhecemos um dos traços específicos da teologia franciscana, da qual ele foi o iniciador, isto é, o papel designado ao amor divino, que entra na esfera dos afectos, da vontade, do coração, e que é também a fonte de onde brota um conhecimento espiritual que ultrapassa todo conhecimento. António escreve: “A caridade é a alma da fé, é o que a torna viva; sem o amor, a fé morre” (Sermões Dominicais e Festivos II). Só uma alma que reza pode realizar progressos na vida espiritual: este foi o objeto privilegiado da pregação de Santo António. Ele conhecia bem os defeitos da natureza humana, a tendência a cair no pecado; por isso, exortava continuamente a combater a inclinação à cobiça, ao orgulho, à impureza e a praticar as virtudes da pobreza e da generosidade, da humildade e da obediência, da castidade e da pureza.

No começo do século XIII, no contexto do renascimento das cidades e do florescimento do comércio, crescia o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por este motivo, António convidou os fiéis muitas vezes a pensar na verdadeira riqueza, a do coração, que, tornando-os bons e misericordiosos, leva-os a acumular tesouros no céu. “Ó ricos – exorta – tornai-vos amigos (...); os pobres, acolhei-os em vossas casas: serão depois eles que vos acolherão nos eternos tabernáculos, onde está a beleza da paz, a confiança da segurança e a opulenta quietude da saciedade eterna” (Ibid.).

Não seria este, queridos amigos, um ensinamento muito importante também hoje, quando a crise financeira e os graves desequilíbrios económicos empobrecem muitas pessoas e criam condições de miséria? Na minha encíclica Caritas in veritate, recordo: “A economia tem necessidade da ética para o seu correcto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa” (n. 45).

António, na escola de Francisco, coloca sempre Cristo no centro da vida e do pensamento, da acção e da pregação. Este é outro traço típico da teologia franciscana: o cristocentrismo. Alegremente, ela contempla e convida a contemplar os mistérios da humanidade do Senhor, particularmente o do Natal, que suscitam sentimentos de amor e gratidão pela bondade divina. Também a visão do Crucificado lhe inspira pensamentos de reconhecimento a Deus e de estima pela dignidade da pessoa humana, de forma que todos, crentes e não crentes, possam encontrar um significado que enriquece a vida. António escreve: “Cristo, que é a tua vida, está pregado diante de ti, porque tu vês a cruz como num espelho. Nela poderás conhecer quão mortais foram as tuas feridas, que nenhum remédio teria podido curar, a não ser o sangue do Filho de Deus. Se olhas bem, poderás perceber quão grandes são a tua dignidade e o teu valor (...). Em nenhum outro lugar o homem pode perceber melhor o quanto vale, a não ser no espelho da cruz” (Sermões Dominicais e Festivos III).

Queridos amigos: que António de Pádua, tão venerado pelos fiéis, interceda pela Igreja inteira, sobretudo por aqueles que se dedicam à pregação. Que estes, inspirando-se no exemplo, procurem unir a doutrina sã e sólida, a piedade sincera e fervorosa e a incisividade da comunicação.

Neste Ano Sacerdotal, oremos para que os sacerdotes e diáconos levem a cabo com solicitude este ministério de anúncio e actualização da Palavra de Deus aos fiéis, sobretudo através das homilias litúrgicas. Que estas sejam uma apresentação eficaz da eterna beleza de Cristo, precisamente como recomendava Santo António: “Se pregas Jesus, Ele amolece os corações duros; se o invocas, Ele adoça as amargas tentações; se pensas nele, ilumina-te o coração; se o lês, sacia-te a mente” (Sermões Dominicais e Festivos III).

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[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs: Dotado de grande inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e fervor místico, Antônio de Pádua ou – como também é conhecido – de Lisboa, contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, sendo um dos santos mais populares da Igreja Católica. Começou a sua vida religiosa entre os Cônegos Regulares de Santo Agostinho, dedicando-se ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja. Porém, atraído pelo exemplo dos primeiros mártires franciscanos, fez-se discípulo de São Francisco de Assis e acabou por ser destinado para a pregação do Evangelho ao povo simples e o ensino da teologia a seus confrades, lançando as bases da teologia franciscana. No último período da sua vida, Antônio escreveu os “Sermões”, onde propõe um verdadeiro itinerário de vida cristã. Neste Ano Sacerdotal, peçamos que os sacerdotes e diáconos cumpram sempre com solicitude este ministério de anúncio e actualização da Palavra de Deus no meio do Povo de Deus. [Tradução: Aline Banchieri ©Libreria Editrice Vaticana]