Santo António

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Devoção a Sto. António em Timor

devocao_a_santo_antonio_em_timor_mensageiroA devoção a Santo António é muito grande em Timor, a nova nação de língua portuguesa. Isso mesmo pudemos comprovar no Verão de 1996, aquando da peregrinação da relíquia do Santo (foto acima): foram 10 dias vibrantes, com multidões a acompanharem a viagem de Santo António através da ilha. Agora, pedimos a um religioso, o irmão Silva, que nos descrevesse como é que em Timor se assinala o dia 13 de Junho e se festeja Santo António.

O texto que nos enviou é publicado nestas páginas, com fotografias da actualidade de Timor Leste, o irmão mais novo da comunidade de língua portuguesa.

A sua festa começa no dia 13 de Junho, na Catedral. O andor, onde a estátua se destaca entre quatro colunazinhas adornadas, com um dossel de onde pendem fitas das cores da bandeira portuguesa, ali permanece até fins de Julho. Sim, Julho!

Todos os sucos o querem possuir e homenagear à vontade. Então, uma outra estátua, mais pequena, e porventura mais bonita, num andor, dentro de uma redoma, vai dar a volta... e há vigília durante toda a noite. Mas a imagem da catedral fica sempre!

Para as crianças é uma festa, embora dormitem ou até se deitem no tapete, ou mesmo debaixo do altar improvisado; assim ficam tapadas do 'frio' - os timorenses têm muito frio.

No dia 13 fui, como tantíssima outra gente, buscá-lo, recebê-lo, a uns talvez dois quilómetros de distância. Chovia. Não faz mal, para aplicar uma expressão muito usual. Os liurais lá estavam, os cantores, os guardas de honra. Desceu os 15 a 20 degraus, cobertos com lona, e os guardas, de joelhos, receberam-no em baixo, apresentando armas: as catanas, o rufar dos minitambores... Depois, os cantos. Em português.

Reza-se o terço pelo caminho, mas com meditações muito bem feitas. Depois, outro terço... o Rosário. Depois, as ladainhas de Santo António, em português, mas muito bonitas e 'pastorais', embora seja evidente que muitos não percebem tudo o que se está a dizer. Nem mesmo o condutor da oração. Mais ou menos como quando a missa era em latim!

Com todo o respeito. Sim. Porque já várias pessoas me disseram que em casa muita gente reza em português por respeito para com Deus, numa língua 'digna'! Eles não se esquecem: Foram os portugueses que nos ensinaram a rezar!

Depois, a imagem pára. Chega-se ao limite do território. Um belíssimo preito de vassalagem, de cor, mas com um rosto iluminado, uma entoação impecável, um olhar de interlocutor como se estátua não fosse, mas alguém vivo...

Vão as crianças em filas, duas a duas, como as pessoas grandes. Toda a gente está enxuta. Mas Baucau é terra de muita água. E, ladeando a estrada, há valas com água... As crianças descalçam as sandálias que com certeza as mães Ihes impuseram, passam pela água e depois tornam a calçá-las. Até me deu inveja...

Depois chega-se à igreja. Um dístico em azul com letras maiúsculas, brancas, a dizer: BEM-VINDO... Segue-se a Eucaristia. E, no dia seguinte, começa a 'visitar' os seus.

Aproveitou-se desta feita a presença activa de uma missionária leiga, que generosamente deu do seu melhor para iluminar as mentes e evangelizar os corações de acordo com as necessidades, variando o tema de lugar para lugar. Houve mesmo celebração de algumas Horas Litúrgicas cuidadosamente preparadas.

Quando, passando pela estrada em procissão - às vezes na carrinha, que circula muito devagarinho para que todos a possam acompanhar -, o transito pára... (é uma situação que os responsáveis estão a repensar). Mas é claro que a imagem também vai pelo meio dos arrozais, por colinas e vales... ou sendas em que as ervas são mais altas do que as pessoas, pelo meio de búfalos... mas está sempre em casa!

E o ser santo, para os nossos dias, já não é o privilégio de alguns, a separação do mundo, as ásperas penitências, mas a feliz obrigação, melhor, a atracção de estar no mundo mas com a mentalidade de Cristo para o transformar, o alegrar com algo de novo, de fresco, de belo e proposta revolucionária, oriunda da Palavra viva que funciona, que limpa... que dá vontade de viver. Não será por isso que Santo António ainda hoje atrai tanta gente?

Campeia em alguns altares ligados a Santo António - e, precisamente num deles, um dos mais importantes, o do Centro Santo António, da paróquia da Catedral - o desafio que se percebe, mesmo que esteja escrito em latim: A VONTADE DE DEUS É A VOSSA SANTIFICAÇÃO!

 

in Mensageiro de Santo António, Junho de 2002