Espaço Jovem

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Sentinelas da manhã

“sentinelas da aurora"João Paulo II chamou aos jovens “sentinelas da manhã”. Escrevo no dia 3 de Janeiro de 2010. Precisamente na Festa da Epifania (na tradição popular o Dia de Reis). Esta festa expressa três novidades maravilhosas:

A primeira: É DEUS QUE PROCURA O HOMEM! Até ao presente, o homem vinha ao templo de Deus prestar-lhe homenagem, esperar a sua boa-vontade. Relações de sentido único! Eis que Deus vai encontrar o homem nos lugares próprios da sua vida. Deus deixa o seu domínio para se deslocar aos lugares humanos.

A segunda: TODOS SÃO CHAMADOS! Nenhuma discriminação: nem religiosa, nem social, nem moral. Nenhuma necessidade de pertencer a uma casta privilegiada, de satisfazer qualquer controlo, de aplicar princípios de pureza, de estar ligado a um povo escolhido. Basta estar presente no momento em que Deus passa e responder ao seu convite. Este mínimo exigido consiste em estar lá, em esperar e em participar na empresa proposta por Deus.

A terceira: é que DEUS TAMBÉM DEVE SER PROCURADO. Na vida é preciso pôr-se a caminho. Os Magos despertaram do sono e puseram-se a caminho mal despontou a aurora. Sa não procurassem, não teriam encontrado o Deus Menino. Por isso eles bem podem ser chamados os “sentinelas da manhã”. «Se Deus se revelou, porque é que Deus se esconde?» pergunta o monge beneditino, Anselm Grum. Por vezes, Deus revela-se para nos estimular na nossa procura. Mas depois volta a esconder-se, para que ansiemos ainda mais por Ele e o procuremos de todo o coração.

Existe uma maravilhosa história sobre isso. Elie Wiesel, que sentiu o recolhimento de Deus no próprio corpo quando esteve em Auschwitz, fala dele num dos seus livros. Nele surge um pequeno rapaz que faz queixa do seu amigo ao Rabi Baruch, o seu avô. «Estávamos a jogar às escondidas, eu tinha de me esconder e depois ele devia procurar-me. Mas eu escondi-me tão bem que ele não me conseguia encontrar. E desistiu, deixou simplesmente de me procurar. E isso é in­justo.» O Rabi Baruch respondeu o seguinte: «Isso também se passa com Deus. Imagina a dor dele. Escondeu-se e as pessoas não o procuram. Compreendes? Deus esconde-se e o ser hu­mano não o procura.»

E Bernardo de Clairvaux disse, certa vez: «Aquele que te procura já te encontrou.» Deus está próximo, mesmo na ânsia pelo Deus ausente. E a mim ocorreu-me uma citação em latim que Santo Agostinho escreveu: «Ut inventus quaeratur, immensus est» (Deus é interminável, para que possa continuar a ser procurado, depois de encontrado).

Talvez a falta de vocações reside aqui: falta-nos ir mais longe na procura; andamos demasiado anestesiados e sonolentos; demasiado superficiais e não descemos à profundidade.