Interioridade: a viagem mais longa da vida

Caminhos Vocacionais

Vamos propor uma espécie de itinerário para caminhos vocacionais. São caminhos também de humanização. A grande profissão do ser humano é como se tornar homem/mulher.

  1. 1.     A interioridade é a viagem mais longa da vida

Disse o filósofo Heidegger:

“Há ainda caminhos desconhecidos por descobrir na vida”. Mas na tua vida haverá ainda caminhos a descobrir? 

Dag  Harmarsjold, Secretário Geral da Onu pelos anos 1960 , considerado  por Kenedy como o maior estadista do século XX,  teve a iniciativa de reservar, no grande arranha céus da Onu, um espaço chamado a sala da meditação. Qualquer estadista, crente ou não crente, poderia ali recolher-se, no silêncio, para meditar um pouco no sentido da vida e de uma política da paz. Infelizmente Dag Hamarsjold teve uma morte trágica de avião em pleno Congo. Há quem diga que foi um acidente provocado. Após a sua morte tornou-se famoso  o DIÁRIO autobiográfico. Nesse seu livro diz que a Viagem mais longa da vida é a viagem à interioridade.

A autobiografia é uma maneira ler-se a si próprio. Na vida é preciso parar.  É preciso revisitar a tua interioridade e olhar os desejos, ideais, o passado que já se viveu. Conhecer-se a si próprio em qualquer fase da vida é urgente.

A a viagem interior nasce de um desejo: fazer uma pausa no caminho, interrogar-se sobre essa caminhada. Fazer silêncio activo  é construtor do futuro.

Um momento importante dessa viagem é a capacidade de interrogar-se a si próprio

Platão interrogava: o que é o homem? É aquele que pergunta. Que se interroga. A pergunta ajuda a descobrir o sentido, a direcção da estrada da vida. Há viagens geográficas, mas também há viagens mais importantes: a viagem dum projecto de vida. Vários analistas dos jovens de hoje dizem que há neles um deficit de capacidade para a viagem à interioridade . Nos meus contactos com jovens encontrar um jovem que se interroga é como que encontrar um tesouro escondido.Dizia  o escritor,Thomas Elliot: Onde está a vida que perdemos vivendo; onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento; onde está o conhecimento que perdemos com a informação”?

Que recursos temos à nossa disposição? O Silêncio. Um trabalho interior cria futuro, porque nasce do desejo que a nossa vida tenha um sentido. Para isso é preciso tomar distância daquilo que diariamente faço e se vive cada dia.

Um texto do padre do deserto conta que um jovem se  aproximou do monge a pergunta-lhe sobre o que devia fazer. O monge disse-lhe: faz silêncio. O silêncio não consiste em não falar. É um silêncio activo. Foge da tirania da rotina. Faz-nos tomar consciência: Jesus fala da vigilância-estai atentos. Não viver mergulhados sempre nas coisas. Os romanos falam de “otium” no bom sentido, não é ociosidade, mas arranjar tempo para sabedoria, para a vida intelectual.

Este é também o sentido dos encontros vocacionais mensais para jovens inquietos. São realizados mensalmente na Casa dos Franciscanos Capuchinhos do Porto.

Aqui vai uma oração de Dag  Harmarsjold,

A viagem para o interior

 

Sento-me aqui, diante de Ti, Senhor,

direito e relaxado, com as costas direitas.

 Deixo o meu peso cair pelo meu corpo,

 cair até ao chão, onde estou sentado.

 

Mantenho o meu espírito agarrado ao meu corpo.

Resisto ao seu ímpeto,

de fugir pela janela,

de estar noutro sítio que não este,

de evadir no tempo para a frente e para trás,

e de escapar ao presente.

Suave e firmemente, seguro o meu corpo aí,

onde o meu corpo está: aqui neste quarto.

 

Neste instante presente

solto todos os meus planos, as minhas preocupações e os meus medos

Eu os coloco agora nas Tuas mãos, Senhor.

Relaxo o pulso com que os seguro e deixo-os para Ti.

Por este instante entrego-os a Ti.

Espero por Ti - expectante.

Vens até mim e eu deixo que me leves.

 

Eu começo a viagem para dentro.

Eu viajo para dentro de mim, para o cerne do mais profundo do meu ser,

onde Tu moras.

Neste ponto mais profundo do meu ser

aí estás sempre diante de mim;

crias, dás vida, fortaleces todo o meu ser sem cessar.

 

E agora abro os meus olhos para Te ver

 no mundo das coisas e dos homens.

Com forças renovadas, volto à vida,

não mais sozinho, mas com o meu Criador. Amen.

 

dag hammarskjõld