Escola da Palavra

categoria_escola_da_palavra_silos_emausNeste artigo, frei Lopes Morgado sublinha ou faz breves anotações às Leituras bíblicas dos Domingos e Solenidades litúrgicas. O seu objectivo é ajudar os cristãos numa leitura e reflexão prévias dos textos, sem pretensões exegéticas, para que ao escutá-los na Eucaristia melhor possam sintonizar com o Espírito que os inspirou e captar a sua mensagem para a vida. E acaba por servir tópicos para a homilia. Saídas em primeira-mão na revista BÍBLICA, são facultadas aqui aos nossos visitantes como um serviço de evangelização sem fronteiras.

O próprio título também sugere aos cristãos fazerem esse trabalho em grupo bíblico, de maneira mais aprofundada, para que a sua fé se fundamente em base sólida. Desse modo, no momento de ver, julgar e agir perante os factos da vida e da História, poderão orientar-se não apenas por valores políticos, económicos ou sociológicos, mas sobretudo por critérios da Palavra de Deus, que ajudem a integrar cada hoje no contínuo da História da Salvação e à sua luz, como recomendava o Concílio Vaticano II (ver Constituição pastoral Gaudium et Spes, 4).

Estas “Escolas” foram especialmente recomendadas aos cristãos pelo último Sínodo dos Bispos, em 2008, sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, para aprofundar o discipulado e promover o encontro com o Mestre. Por exemplo, na Proposição 9: «esperamos vivamente que resulte desta assembleia uma nova etapa de maior amor à Sagrada Escritura por parte de todos os membros do Povo de Deus, a fim de que a sua leitura orante e fiel permita aprofundar a relação com a própria pessoa de Jesus. Nesta perspectiva, desejamos que, na medida do possível, cada fiel possua pessoalmente uma Bíblia.»

Tempo Comum - Ano B

 

LITURGIA DO TEMPO COMUM

Escrito por frei Lopes Morgado

 

mês de novembro

 

 

 

Este ano, ao coincidir o seu primeiro dia com o domingo,

 iniciamos o mês com a Solenidade de Todos os Santos

 e não com a liturgia do XXXI domingo do Tempo Comum.

 

Uma oportunidade para irmos fazendo o balanço da nossa vida cristã

neste ano litúrgico, perto do fim: qual a transformação operada em nós

 pela escuta da Palavra de Deus e a comunhão do Corpo de Cristo

 nas muitas Eucaristias vividas em comunidade?

 

 

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“O meu reino não é deste mundo”

  

 

22 de novembro

XXXIV DOMINGO COMUM

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

LEITURAS: 1ª: Dn 7,13-14. Salmo 93/92, 1ab.1c-2.5. R/ O Senhor é rei num trono de luz. 2ª: Ap 1,5-8. Evangelho: Jo 18,33b-37. Semana III do Saltério.

 

Neste domingo celebramos a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, e encerramos o ano litúrgico do ciclo B. Mas não é Marcos quem apaga a vela, depois de nos ter acompanhado na maior parte dos domingos; é João, para nos recordar as palavras de Jesus a Pilatos: «O meu reino não é deste mundo… o meu reino não é daqui» (Jo 18-33b-37). Porém, como esse reino se constrói a partir daqui, continuamos a rezar: «Venha a nós o vosso reino»; e no próximo Domingo começaremos um novo ano litúrgico, para ver se finalmente conseguimos dar este nome à cidade: «O Senhor é a nossa justiça» (Jr 33,14-16: 1ª Leitura do I Domingo do Advento, Ano C).

 

O facto de Cristo nos dizer que o seu reino não é deste mundo, não nos permite pensar nem agir como se o mundo não fosse do seu reino e Cristo nada tivesse feito por ele ou nada tivesse a ver com ele. E muito menos cauciona a pretensão de eliminar do mundo qualquer presença e referência cristã, acantonando os cristãos nas igrejas e fechando a religião na sacristia como valor meramente museológico.

 

Para já, os cristãos vivem neste mundo. Não têm outro para atuar os seus dons e valores, nem outra terra para iluminar e salgar. Parece provado, e até já se vai vendo, que não faltam mundos como o nosso. Mas a Terra ainda tem várias razões que a distinguem: é povoada por seres humanos e inteligentes (embora, às vezes, desumanizados e pouco sensatos), foi este o mundo que Deus amou, foi pelos que nele habitam que o seu Filho morreu e ressuscitou, e é deste mundo que Ele é rei.

 

«Então, tu és Rei?», perguntou Pilatos. Jesus respondeu-lhe: «É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz» (Evangelho). Hoje celebramos esta soberania de Jesus, que, sendo nosso rei, «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos» (Mc 10,45: ver XXIXX domingo comum-B).

 

Daniel viu-O como «alguém semelhante a um filho de homem», a quem foi «entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos e nações O serviram. O seu poder é eterno, não passará jamais, e o seu reino não será destruído», pois Ele é Filho de Deus (1ª Leitura). Sim, «O Senhor é rei» (Salmo), «o Príncipe dos reis da terra» e «Senhor do universo» (2ª Leitura); mas, sendo Deus, fez-se um de nós (Fl 2,5-11). Ou seja: também o seu modo de reinar não é como o deste mundo, onde «aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas. […] Não deve ser assim entre vós» (Mc 10,42.43). Uma lição permanente para nós, como povo de reis, se quisermos instaurar os valores cristãos na ordem temporal, como devemos.

 

 

 

 

 

“Está próximo o verão”?

 


 

15 de novembro

XXXIII DOMINGO COMUM

Leituras: 1ª: Dn 12,1-3. Salmo 16/15,5. 8.9-10.11. R/ Defendei-me, Senhor: Vós sois o meu refúgio.2ª: Heb 10,11-14.18. Evangelho: Mc 13,24-32. Semana II do Saltério.

 

Ao aproximar-se a conclusão do ano litúrgico, a Igreja proclama textos apocalípticos do Antigo e do Novo Testamento. Com esta pedagogia, sugere aos fiéis que aproveitem os dias para uma revisão de vida ao tempo de graça que termina. Pois cada novo ano é uma oportunidade para a salvação, ganha ou perdida.

 

Na 1ª Leitura, Daniel anuncia a libertação do povo de Israel após os horrores praticados por Antíoco Epifânio. Mas, como hoje na Liturgia, em que temos no pensamento as vítimas de atentados terroristas exportados do Médio Oriente para a Europa, o seu texto extrapola da morte e ressurreição do país; fala da morte e ressurreição física e do julgamento sobre a vida, abrindo a fé à esperança da salvação: «Será um tempo de angústia […] Mas, nesse tempo, virá a salvação para o teu povo, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus; acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o horror eterno.»

 

Jesus, no Evangelho, usa os rebentos da figueira que anunciam o verão, para falar da sua vinda. Ou seja, abre o livro universal da natureza, para nos introduzir no entendimento da sua palavra: «Então verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória.» Como Ele diz no Apocalipse: «Eis que Eu venho em breve e trarei a recompensa para retribuir a cada um confirme as suas obras» (Ap 22,12). E assim, no inverno da natureza ou da vida, somos levamos a perguntar-nos. “Está próximo o verão? O Senhor está à minha porta, para me chamar?” Como não sabemos o dia nem a hora, também não temos a resposta. Fiquemo-nos, então, pelo apelo à vigilância sobre a nossa vida humana e cristã. Sabendo que a morte não é um fim – é um recomeço da vida, como anunciam os rebentos após o letargo da figueira.

 

Daí a exortação de Jesus, segundo o Evangelho de S. Lucas 21,36: «Vigiai e orai em todo o tempo, para poderdes comparecer diante do Filho do Homem» (Aleluia).

 

Com o Salmista, oramos confiantes:

«Senhor,

está nas vossas mãos o meu destino.

O Senhor está sempre na minha presença,

com Ele a meu lado não vacilarei.

 

Por isso o meu coração se alegra e a minha alma exulta

e até o meu corpo descansa tranquilo.

 

Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida,

alegria plena em vossa presença,

delícias eternas à vossa direita.»

 

 

 

 

 

Na Escola das viúvas 


 

 

08 de novembro

XXXII DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: 1 Rs 17,10-16. Salmo 146/ 145,7.8-9a.9bc-10. R/ Ó minha alma, louva o Senhor. 2ª: Heb 9,24-28. Evangelho: Mc 12,38-44. Semana I do Saltério. Primeiro dia da Semana dos Seminários.

 

Paulo disse aos Coríntios sobre a partilha de bens: «Não se trata de, ao aliviar os outros, vos fazer entrar em apuros, mas sim de que haja igualdade. No momento presente, o que vos sobra a vós supera a indigência dos outros, para que um dia o supérfluo deles compense a vossa indigência» (2 Cor 8,13).

 

Isto é o que normalmente acontece: dar o que nos sobra, para que, no caso de se reverterem as situações, os outros nos deem do que não lhes faz falta. Mas há quem dê tudo o que tem, confiante em que não lhe há de faltar o necessário. E não estou a falar dos que renunciam a tudo para seguir a Cristo num caminho de total consagração aos outros, e aderem a um Instituto religioso com o voto de pobreza, como evocamos neste Ano da Vida Consagrada. Nem aos que decidem entregar-se a Deus, o bem maior que preencha a sua vida no serviço dos outros como sacerdotes, objetivo da Semana dos Seminários, que hoje começa. Refiro-me ao testemunho dado por duas viúvas, na Palavra de hoje, que interpelam à partilha nesta hora de tantos dramas e tantas carências do mundo.

 

A 1ª Leitura fala de uma, em Sarepta, a quem restava apenas um pouco de farinha e azeite para cozer o último pão para ela e o seu filho… e depois morrer. Era o que ela se preparava para fazer, quando o profeta Elias chega e lhe pede água e pão. Ao saber da sua carência, diz-lhe: «faz como disseste. Mas primeiro coze um pãozinho e traz-mo aqui. Depois prepararás o resto para ti e teu filho.» Ela assim fez, «e comeram ele, ela e seu filho. E desde aquele dia, nem a panela de farinha se esgotou, nem se esvaziou a almotolia do azeite, como o Senhor prometera pela boca de Elias».

 

Porque «o Senhor faz justiça aos oprimidos,

dá pão aos que têm fome

… ampara o órfão e a viúva» (Salmo responsorial).

 

No Evangelho, «Jesus sentou-se em frente da arca do tesouro [do templo de Jerusalém] a observar como a multidão deitava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias aviltadas. Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas». Então, «Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: “Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobreva, mas ela, da sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver.»

 

Isto é ter fé e confiança em Deus, a quem pertence o nosso futuro. A mesma fé de Abraão, disposto a renunciar ao seu futuro como pai de inúmera descendência (Gn 12,2; 13,16; 15, 5;17,5), sacrificando a Deus o seu único filho. Mas Deus apenas queria ver a sua disponibilidade para fazê-lo, por confiar n’Ele, como estas duas viúvas. E, vendo o modo como Deus levou a sua avante, poupando-lhe Isaac, «Abraão chamou àquele lugar “O Senhor providenciará”» (Gn 22).

 

Na solução das nossas desigualdades e carências, e no alívio de tantos refugiados entregues à sua sorte por exploradores do sofrimento alheio, também temos visto a força da partilha e da solidariedade dos mais pobres. Temos de conceder mais oportunidades à providência de Deus, partilhando o que Ele nos deu quando os outros precisam mais do que nós. Pois, se um problema gera outro problema, uma solução faz surgir novas soluções – mais eficazes do que julgamos, porque nascidas da criatividade generosa e não apenas da programação calculista de riscos e benefícios. Dar aos pobres é sempre emprestar a Deus. E Ele nunca nos fica a dever nada.

 

 

 

 

 

“… VI SURGIR NUMEROSA MULTIDÃO…”

 

 

 

 

01 de novembro

 

TODOS OS SANTOS (Solenidade)

 

 

 

LEITURAS:: Ap 7,2-4.9-14. Salmo24 (23),1-2.3-4ab.5-6. R/ Esta é a geração dos que procuram o Senhor. 2ª: 1 Jo 3,1-3. Evangelho: Mc 5,1-12a. Semana III do Saltério.

 

 

 

Ao celebrarmos TODOS OS SANTOS, é sempre a santidade de Deus que celebramos. «Vós, Senhor, sois verdadeiramente santo. Sois a fonte de toda a santidade!» - proclamamos no início da II Anáfora Eucarística, logo a seguir ao Prefácio. E «pela Liturgia da terra – como afirmou o Concílio Vaticano II em 4 de dezembro de 1963 – participamos, saboreando-a já, na celeste Liturgia celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual nos encaminhamos como peregrinos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo: por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celeste, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos e aguardamos como Salvador nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória» (Constituição sobre a Sagrada Liturgia, nº 8).

 

 

 

Por isso o Apocalipse, revelado a João «no dia do Senhor» (1,10), é escolhido como Primeira Leitura de hoje. Nela, o vidente de Patmos apresenta uma ação litúrgica no céu. Primeiro, OUVE «o número dos servos do nosso Deus que foram marcados na fronte: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos povos de Israel.» Em nota de rodapé ao v. 4 do texto desta Leitura, a “Bíblia Sagrada” da Difusora Bíblica diz: «Cento e quarenta a quatro mil. Trata-se de um número simbólico feito, por sua vez, com números sagrados e de totalidade: 4x12x1.000. O número 12 é o número do povo de Deus: 12 tribos. Este número indica a totalidade do novo povo de Deus resgatado por Cristo: 12 mil de cada uma das 12 tribos.» Ou seja: o chamamento de todos os cristãos à santidade.

 

Depois de ouvir o número dos eleitos, João VÊ «uma imensa multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé, diante do trono de Deus e na presença do Cordeiro, vestidos de túnicas brancas e palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro.» E «um dos Anciãos («um dos servos viventes», diz a Bíblia da Difusora) tomou a palavra e disse-lhe: «Estes são os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro.»

 

 

 

O Refrão do Salmo Responsorial transpõe-nos da liturgia celeste para a nossa liturgia de peregrinos do céu, dizendo: «Esta é a geração dos que procuram o Senhor.» E com isto, diz-nos que a santidade é um desejo de Deus e uma procura e seguimento pelo caminho de Cristo e o testemunho dos santos, até chegar até Ele. O salmo 24(23), um “salmo processional”, diz «quem poderá subir à montanha do Senhor», até habitar no seu santuário, como dizia o texto do Concílio: «quem tem as mãos inocentes e o «coração puro», e «quem não invocou o seu nome em vão».

 

 

 

Na Segunda Leitura, o apóstolo João (diferente do João do Apocalipse) canta o «admirável amor que o Pai nos consagrou em nos chamar filhos de Deus. E somo-lo de facto» – sublinha. Desta qualidade de filhos deriva, por um lado, que «seremos semelhantes a Deus, porque O veremos tal como Ele é»; e por outro, a necessidade de «todo aquele que tem esta esperança se purificar a si mesmo, para ser puro como Ele é puro». Ou seja: ao amor de Pai, correspondermos com amor de filho; e ao privilégio de filho, preocuparmo-nos em nos parecermos com o Pai. Isto é, de nos alistarmos na geração dos que O procuram.

 

 

 

O Evangelho é uma explicitação da 1ª Leitura, quanto à universalidade dos chamados a ser “felizes”, “bem-aventurados” ou “santos”, e à sua diversidade: pobres em espírito, humildes, sofredores, com fome e sede de justiça, misericordiosos, puros de coração, promotores da paz, perseguidos por amor da justiça, insultados por causa do nome de Jesus. Nenhum santo esgota a lista, como nenhum comensal come todos os pratos de uma carta de restaurante. Mas, o esforço por vencer um vício, fará eliminar outros; e quem seguir uma virtude, levará outras consigo, como acontece com as cerejas.

 

 

 

Atenção: no caminho da santidade, o principal agente não somos nós. Apesar do amor e do esforço que nos são pedidos, tudo é pura graça de Deus. Então, «caríssimos: Vede que admirável amor o Pai nos consagrou» e sigamos o Filho, pelo Espírito, não vivendo como escravos. Nos momentos difíceis, não nos faltará o Mestre, como no Aleluia antes do Evangelho de hoje: «Vinde a Mim, vós todos que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.»

 

 

 

 

 

 

outubro 

Do XXVII ao XXX domingo comum

 

Escrito por frei Lopes Morgado

 

 

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O HOMEM, A MULHER E A FAMÍLIA

 

 

 

04 de outubro

XXVII DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Gn 2,18-24. Salmo 128/127, 1-2.3.4-5.6 R/ O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida. 2ª: Heb 2,9-11. Evangelho: Mc 10,2-16. Semana III do Saltério.

 

Os textos de hoje convidam a refletir sobre a família em geral e a família de cada um, confrontando o sonho das origens com a realidade da vida. A 1ª Leitura apresenta o projeto do Criador, na 2ª versão bíblica das origens, onde o ser humano surge no topo da obra de Deus e responsável por ela, como na 1ª versão, pois é ele que lhes impõe o nome.

 

Em forma poética, diz-nos: Deus fez o homem como ser de relação, para dialogar e partilhar a vida com alguém: «Não é bom que o homem esteja só.» Esse alguém deve ser da sua espécie e natureza: entre todos os animais e aves, «não encontrou uma auxiliar semelhante a ele»; por isso Deus a forma de uma costela do homem, para dizer que é da sua espécie e tem a mesma dignidade, mas não é do mesmo género, ao contrário do que hoje se pretende impor. Como a Bíblia já dissera na 1ª versão da criação, «Ele os criou homem e mulher» (Gn 1,27).

 

«Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne». O texto supõe que de modo exclusivo e definitivo. Assim o interpretou Cristo, à pergunta dos fariseus: «Pode um homem repudiar a sua mulher?» Disse: «não separe o homem o que Deus uniu.» E acrescentou: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério com a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério.»

 

A solução está no amor, diz o verso do Aleluia. E o Salmo canta uma família: marido ganhando o sustento com o seu trabalho, esposa «como videira fecunda» e «filhos como ramos de oliveira,/ ao redor da tua mesa».

 

 

O ESPÍRITO DE SABEDORIA

 

 

11 de outubro

XXVIII DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Sb 7,7-11. Salmo 90/89,12-13.14-15.16-17. R/ Enchei-nos, Senhor, da vossa misericórdia: será ela a nossa alegria. 2ª: Heb 4,12-13. Evangelho: Mc 10,17-30. Semana IV do Saltério.

 

O «homem» do Evangelho (e não falemos do «jovem» rico, todos os anos, pois só Mateus é que fala de um «jovem»!) não teve «o espírito de sabedoria». E ele até começou muito bem: aproximou-se de Jesus a correr, ajoelhou-se diante d´Ele e perguntou-lhe com muito boa intenção: «Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?» E até cumpria todos os mandamentos «desde a juventude» (por isso, já não era um jovem…).

 

Só não teve «o espírito de sabedoria», porque o sábio a quem ela foi concedida

«preferiu-a «aos cetros e aos tronos

e, em sua comparação, considerou a riqueza como nada

(…) pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia

e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo»» (1ª Leitura).

Ele, ouvindo o convite de Jesus a dar tudo aos pobres e segui-lo, para ter um tesouro do Céu, «retirou-se pesaroso, porque era muito rico». E assim, ao não querer arriscar nada para garantir o que desejava, pôs em risco a vida eterna que inicialmente pretendia alcançar: «Como sé difícil para os que têm riquezas entrar no reino de Deus!» E, com essa incapacidade para avaliar as coisas, talvez nem tenha tirado grande partido da sua riqueza.

 

No Salmo pedimos: Senhor, «ensinai-nos a contar os nossos dias.»

Quantos teria ainda aquele homem, para perder a oportunidade do negócio da sua vida – ser discípulo de Jesus?!

 

«A palavra de Deus é viva e eficaz, (…)

é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração» (2ª Leitura).

Deixemo-la discernir em nós o que melhor convém à nossa vida. 

 

 

 

 

“PARA SERVIR E DAR A VIDA”

 

 

18 de outubro

XXIX DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Is 53,10-11. Salmo 33/32,4-5.18-19.20.21. R/ Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vos esperamos, Senhor. 2ª: Heb 4,14-16. Evangelho: Mc 10,35-45. Semana I do Saltério. DIA MUNDIAL DAS MISSÕES.

 

Voltamos à ideia central do domingo passado: a arte de saber investir a vida para ganhá-la. A 1ª Leitura dá-nos apenas dois versículos do IV Cântico do Servo, sobre Paixão e Glória, mas neles temos a síntese de toda a mensagem: o Senhor quis «esmagar o seu Servo pelo sofrimento», porque é fonte de vida e sabe que faz parte da vida morrer para dar fruto. Não é por sadismo. Daí o sofrimento não ser imposto: só vale «se o Servo anónimo oferecer a sua vida como vítima de expiação»; nesse caso, «terá uma descendência duradoira, viverá longos dias, e a obra do Senhor prosperará em suas mãos. Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado.» E, deste modo, «pela sua sabedoria, o Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades». Ao servir, dá a vida e dá vida. «Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há de salvá-la» (Mc 8,35).

 

Eis porque o rico do domingo passado fez um mau negócio. Como poderá suceder-nos, se nos quisermos salvar apenas a nós; este Dia Mundial das Missões lembra-nos que devemos procurar fazê-lo preocupando-nos com a salvação dos outros. Foi o que fez São Lucas, o evangelista deste ano, que hoje celebramos: deixando o conforto da sua comunidade, juntou-se a Paulo na evangelização, manteve-se fielmente junto dele, e pelo seu testemunho ganhou a confiança da Igreja que o promoveu de discípulo a evangelista com especial atenção aos pagãos, aos pecadores e aos mais desfavorecidos ou marginalizados, como os doentes, os pecadores e as mulheres.  

 

A profecia do Cântico do Servo cumpre-se em Jesus – o Messias-Mestre que nos salvou pelo sofrimento. Por isso, no Evangelho, Ele desafia «Tiago e João, filhos de Zebedeu», a beber o cálice da sua Paixão para obterem, pelo “serviço”, os dois lugares de honra na sua glória, que pretendiam obter por “cunha” ou “favor”: «quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos» (Evangelho). Esta última frase, em que Jesus se propõe como modelo de serviço, é a que a Liturgia seleciona para o refrão do Aleluia.

 

«Permaneçamos firmes na profissão da nossa fé» - exorta o autor da Carta aos Hebreus (2ª Leitura), lembrando que temos nos Céus um sumo-sacerdote, «Jesus Cristo, Filho de Deus», que passou por toda a provação, exceto a do pecado. «Vamos, portanto, cheios de confiança ao trona da graça, a fim de alcançamos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno».

 

Apoiados nesta confiança, rezamos o refrão do Salmo Responsorial:

«Desça sobre nós a vossa misericórdia,

porque em Vós esperamos, Senhor.»

E proclamamos, com o Salmista:

«A nossa alma espera o Senhor:

Ele é o nosso amparo e protetor.»

 

 

 

 

“EU SOU UM PAI PARA ISRAEL”

 

 

25 de outubro

XXX DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: J 31,7-9. Salmo 126/125,1-2ab.2cd-3.4-5.6. R/ O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo. 2ª: Heb 5,1-6. Evangelho: Mc 10,46-52. Semana II do Saltério.

 

O título deste comentário é da 1ª Leitura, que diz: «O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel.» Nela, o profeta Jeremias descreve antecipadamente o regresso à pátria dos exilados em Babilónia, exortando: «Soltai brados de alegria.» O texto é belo e comovente, ultrapassando a realidade:

«Vou trazê-los das terras do Norte

e reuni-los dos confins do mundo.

Entre eles vêm o cego e o coxo

a mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz.

É uma grande multidão que regressa.

Eles partiram com lágrimas nos olhos

e Eu vou trazê-los no meio de consolações.»

 

Diria que o grande regresso/êxodo deste povo ainda não terminou; mas hoje tem outros contornos.

 

O Salmo confirma: «O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.» Evoca o mesmo regresso dos cativos de Sião, que fazia exclamar os pagãos: «O Senhor fez por eles grandes coisas.» E dá confiança a todos os expatriados:

«À ida vão a chorar,

levando as sementes;

à volta vêm a cantar,

trazendo os molhos de espigas.»

Temos que ler e rezar mais os salmos que, não apenas na Liturgia, fazem a ponte entre o Antigo Testamento, o Novo e a vida.

 

Deus diz-nos, cada dia, o que diz de seu Filho Jesus: «Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» (2ª Leitura). Ser pai é isso. E não apenas gerar de uma vez, porque nós estamos – ou devemos estar – sempre a nascer de novo. Por isso Ele é, também para nós, um Pai.

 

Jesus cura um cego: «Vai, a tua fé te salvou» (Evangelho). E ele segue-o, feliz. Uma lição para os Apóstolos, que o seguiam «assombrados e temerosos» (Mc 10,32).

 

 

 

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LITURGIA DO TEMPO COMUM

setembro

Do XXIII ao XXVI domingo comum

 

Escrito por frei Lopes Morgado

 

 

Em setembro regressamos ao Evangelho de Marcos,

para acompanhar Jesus por Tiro, Sídon e a Decápole (cap. 7-9),

antes de iniciar a sua subida para Jerusalém.

 

 

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OUVIR JESUS PARA TESTEMUNHÁ-LO

 

 

06 de setembro

XXIII DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Is 35,4-7a. Salmo 146(145) 7.8-9a.9bc-10. R/ Ó minha alma, louva o Senhor. 2ª:Tg 2,1-5. Evangelho: Mc 7,31-37. Semana III do Saltério.

 

Emociona escutar, neste duro tempo da vida, um oportuno texto do Advento: «Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus… Ele próprio vem salvar-nos» (1ª Leitura).

 

O Salmo especifica várias salvações de Deus:

 

faz justiça aos oprimidos,

dá pão aos que têm fome

e a liberdade aos cativos.

 

… ilumina os olhos dos cegos,

levanta os abatidos,

ama os justos.

 

protege os peregrinos,

ampara o órfão e a viúva

e entrava o caminho aos pecadores.»

 

E o Evangelho mostra Jesus a curar «um surdo que mal podia falar», dizendo o resultado imediato desse gesto de salvação do homem todo: «Imediatamente se abriram os olhos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente.»

 

Sabemos que a fala é condicionada pela audição. O texto diz-nos, assim, que, para anunciar o Evangelho, primeiro é preciso, como este homem, abrir os ouvidos e escutar a palavra de Deus. No Batismo, o ministro atualiza o gesto de Jesus; estendendo a mão direita sobre o neófito, diz: «O Senhor Jesus, que fez ouvir os surdos e falar os mudos, te dê a graça de, em breve, poderes ouvir a sua palavra e professar a fé, para louvor e glória de Deus Pai.»

 

Quantos pais e padrinhos, depois de assumirem isto em relação às crianças, se preocupam com que elas escutem a palavra que leva à profissão da fé na vida adulta, para louvar e dar glória a Deus?

 

«Jesus pregava o Evangelho do reino e curava todas as enfermidades entre o povo» (Aleluia). Ontem, hoje e sempre, evangelizar é isto: atender ao espírito e ao corpo.

 

 

 

 

A FÉ E AS OBRAS

 

 

13 de setembro

XXIV DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Is 50,5-9a. Salmo 116(114), 1-2.3-4.5-6.8-9. R/ Andarei na presença do Senhor, sobre aterra dos vivos. 2ª: Tg 2,14-18. Evangelho: Mc 8,27-35. Semana IV do Saltério.

 

O Evangelho de hoje é o ponto alto da 1ª parte de Marcos; o outro já foi atingido no domingo de Ramos (Mc 15,39). Após três anos a revelar os mistérios do Reino aos seus discípulos, Jesus faz-lhes aqui uma espécie de exame de profissão de fé: «Quem dizem os homens que Eu sou?... E vós, quem dizeis que Eu sou?»

 

Pedro responde: «Tu és o Messias!» E a sua resposta diz-nos que não basta sabermos o que os outros sabem ou dizem de Jesus; temos de estar preparados para testemunhar a nossa fé cristã em privado ou em público. Jesus não quis que os discípulos o dissessem a ninguém, antes de o viverem e estarem preparados para o testemunho na provação. Pedro mostrou que não estava, ao repreender Jesus quando Ele lhes anunciou a Paixão; e Jesus, que não tinha elogiado o testemunho de Pedro, como é feito em Mateus 16,17-19, vai chamar-lhe «Satanás» (Mc 8,27-35).

 

«Toda a minha glória está na cruz do Senhor», dizia Paulo (Aleluia).

 

O discípulo da 1ª Leitura estava preparado: apresentou-se, não resistiu nem recuou, confiou no Senhor.

 

Mas, «de que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhe disser: “Ide em paz. Aquecei-vos e saciai-vos”, sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta» (2ª Leitura).

 

Pensamos nisto, ao preparar o “ano da fé” e falar de “nova evangelização”?

 

 

 

CONDIÇÕES PARA SEGUIR JESUS

 

 

20 de setembro

XXV DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Sab 2,12.17-20. Salmo 54(53), 3-4.5.6.8. R/ O Senhor sustenta a minha vida. 2ª: Tg 3,16–4,3. Evangelho: Mc 9,30-37. Semana I do Saltério.

 

Em Marcos, após a interpelação a Pedro, no domingo passado, Jesus diz a quem o quiser seguir: «Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (8,34). Depois vem o episódio da Transfiguração (Evangelho de 6 de agosto). E no Evangelho deste domingo, Jesus anuncia pela segunda vez a sua próxima Paixão: «O Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens e eles vão matá-lo; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará.»

 

O evangelista diz que «os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de o interrogar»; e é chocante saber que, por isso, em vez de tentarem esclarecer a sua vocação e missão junto de Jesus, se puseram a discutir «uns com os outros sobre qual deles era o maior». Ou seja, estavam a garantir o seu futuro, indiferentes à sorte do Mestre. Daí, Jesus: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos.»

 

Neste ponto, já podemos estabelecer um ideário para o discípulo de Jesus:

- deixar tudo e segui-lo;

- escutar a sua palavra de vida eterna;

- professar a fé nele;

- tomar a sua cruz até ao fim;

- servir, em vez de ser servido;

- acolher os pequeninos em seu nome.

 

As ameaças dos ímpios na 1ª Leitura fazem olhar para Jesus, “Servo de Javé”, que já celebrámos na Semana Santa.

 

Por sua vez, o Salmo revela-nos a sua confiança e a de todos os justos: «Deus vem em meu auxílio.»

 

 

 

 “Quem não é contra nós, é por nós”

 

 

27 de setembro

XXVI DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Nm 11,25-29. Salmo 19(18),8.10.12-13.14. R/ Os preceitos do Senhor alegram o coração. 2ª: Tg 5,1-6. Evangelho: Mc 9,38-43.45.47-48. Semana I do Saltério.

 

O Senhor dá o seu Espírito a quem quer, quando quer e como quer (Jo 3,8); e não há grupo ou igreja que se possa arrogar de o possuir em exclusivo.

 

Foi esta a lição que um jovem ouviu de Moisés, quando lhe foi dizer que dois homens, Eldad e Medad, inscritos entre os setenta anciãos escolhidos por Moisés para colaborar com ele, mas não estavam dentro da tenda quando o Espírito de Moisés desceu sobre os outros, também tinham recebido o mesmo Espírito e estavam a profetizar como eles. Ao jovem, que lhe dizia: «Moisés, meu senhor, proíbe-lhes», Moisés respondeu: «Estás com ciúmes por causa de mim? Que, dera que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles» (1ª Leitura).

 

Há mais escolhidos e amados por Deus, que o servem a seu modo, mesmo que modo visível ou oficial não estejam com o grupo dos seus seguidores na hora da ação. Também foi esta a lição que o apóstolo João aprendeu, quando «disse a Jesus: “Mestre, nós vimos um homem a expulsar demónios em teu nome e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco.” Jesus respondeu: “Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós”» (Evangelho).

 

Só Deus nos conhece a todos por dentro, e sabe quem está mais dentro ou mais fora, mais perto ou mais longe dele e do seu Espírito. Aos que conhecem ou presumem conhecer as exigências da sua palavra, como as de Jesus no Evangelho de hoje, compete-nos segui-las sem julgar nem afastar ninguém, embora nos sintamos comprometidos com todos. Sabendo que, se as exigências de vida são grandes, «os preceitos do Senhor alegram o coração». Porque

 

«A lei do Senhor é perfeita,

ela reconforta a alma.

As ordens do Senhor são firmes,

dão a sabedoria aos simples.

 

O temor do Senhor é puro

e permanece eternamente;

os juízos do Senhor são verdadeiros,

todos eles são retos. (Salmo Responsorial)

 

Peçamos, com o refrão do Aleluia:

«A vossa palavra, Senhor, é a verdade;

santificai-nos na verdade.»

 

À luz desta palavra, vê-se melhor a dureza da Carta de Tiago,

- recriminando os que têm riquezas acumuladas a apodrecer;

- os que negam o salário aos trabalhadores

  e são insensíveis a esta injustiça de bradar aos céus;

- os que levam «uma vida regalada e libertina»,

  condenando e matando o justo que não lhes pode resistir (2ª Leitura).

 

 

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LITURGIA DO TEMPO COMUM

agosto 

Do XVIII ao XXII domingo comum

 

 

Escrito por frei Lopes Morgado

 

 

Nos domingos do mês de agosto concluímos a leitura

do capítulo VI do Evangelho de João sobre o Pão da Vida,

iniciado no último domingo de julho

e regressaremos ao Evangelho de Marcos

para acompanhar Jesus por Tiro, Sídon e a Decápole (cap. 7-9),

antes de iniciar a sua subida para Jerusalém.

 

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“Eu sou o pão da vida”

 

02 de agosto

XVIII DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Ex 16,2-4.12-15. Salmo 78(77), 3 e 4bc.23-24,25 e 54. R/ O Senhor deu-lhes o pão do céu. 2ª: Ef 4,17.20-24. Evangelho: Jo 6,24-35. Semana II do Saltério.

 

O Evangelho deste domingo já decorre no dia seguinte ao do milagre da multiplicação dos pães relatado no domingo passado. Jesus nota que a multidão continua a procurá-lo, mas por interesse material; e interpela-a: «Trabalhai, não tanto pela comida que se perde, mas pelo alimento que dura até à vida eterna e que o Filho do Homem vos dará.»

Por sua vez, a multidão evoca o milagre do maná que Moisés fez no deserto, e desafia Jesus a fazer um semelhante, para acreditarem n’Ele. O relato desse acontecimento constitui o texto da 1ª Leitura.

 

Aparentemente, a multidão não entendera a multiplicação dos pães como um milagre de Jesus, para lhe perguntarem que milagres fazia Ele. Tal como «toda a comunidade dos filhos de Israel», na 1ª Leitura, não tinha apreciado a sua libertação do Egito, para se considerar enjeitada por Deus no deserto; a satisfação da barriga cheia tinha-os nivelado aos animais, levando-os a perder o sentido da sua dignidade humana. Nunca os libertadores ou salvadores podem esperar a gratidão do povo nem o reconhecimento da história. E Jesus, que no domingo anterior não tinha querido ser aclamado rei, também não vai agora exibir o seu poder. Ele viera para revelar o rosto e a vontade do Pai; por isso, como bom pedagogo da fé, desvia a atenção das suas obras para «as obras de Deus» que eles devem praticar.

 

Num paciente diálogo catequético, Jesus diz-lhes que não foi Moisés quem lhes deu o maná ou «o pão do Céu», mas Deus; e Deus acaba de lhes enviar agora «o verdadeiro pão do Céu»; pois «o pão de Deus é o que desce do Céu [o próprio Jesus, Filho de Deus encarnado] para dar a vida ao mundo». A multidão, manifestando o lado “interesseiro” denunciado por Jesus, pede-lhe: «Senhor, dá-nos sempre desse pão.» E Jesus responde: «Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede.»

 

Esta pedagogia de Jesus é uma caraterística do Evangelho de João, em que o Mestre dialoga com os seus interlocutores: Nicodemos (cap.3), a Samaritana (cap.4), a mulher surpreendida em adultério (cap.8), o cego de nascença (cap.9), Marta, irmã de Lázaro e Maria (cap.11). De alguma forma, João complementa Marcos, respondendo às interrogações que, no Evangelho deste, as pessoas levantam perante a figura de Jesus, envolta em “mistério”.

 

O Salmo supõe uma boa catequese familiar, baseada nas ações de Deus em favor do seu povo, que os pais bem podem aproveitar para fazer com os filhos neste dias de maior presença e convivência; pois as crianças e adolescentes são mais sensíveis a estes sinais experimentados na vida, como via da fé para descobrir e crer em Deus, do que à “doutrina” teórica “aprendida” na Catequese. Diz o Salmista:

 

«Nós ouvimos e aprendemos,

os nossos pais nos contaram

os louvores do Senhor e o seu poder

e as maravilhas que Ele realizou.

 

(…) para  alimento fez chover o maná,

deu-lhes o pão do céu.»

 

E o refrão, tomado deste último versículo, reforça a ponte entre o Antigo e o Novo Testamento, entre a figura do maná e a realidade do pão eucarístico: «O Senhor deu-lhes o pão do céu.»

 

 

 

“Levanta-te e come” 


 09 de agosto

XIX DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: 1 Rs 19,4-8. Salmo 34(33),2-3.4--5.6-7.8-9. R/ Saboreai e vede como o Senhor é bom. 2ª: Ef 4,30–5,2. Evangelho: Jo 6,41-51. Semana III do Saltério.

 

O Evangelho começa com uma reação dos judeus igual às dos conterrâneos de Jesus que vimos no Domingo XIV, a propósito de Ele ter dito, no texto anterior, que era o verdadeiro Pão descido do Céu. Os judeus terão pensado e murmurado: “Se nós conhecemos a sua família, como é que Ele diz que desceu do Céu?!” E, muito ao jeito das catequeses dialogadas em João, que referi no domingo passado, Jesus responde-lhes, reafirmando o mesmo frontalmente: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne pela vida do mundo.»

 

Na 1ª Leitura, o profeta Elias, cansado de andar um dia inteiro a percorrer o deserto e a subir o Monte Horeb, sentou-se à sombra de um junípero e pediu a Deus que lhe tirasse a vida; e, deitando-se, adormeceu. Um Anjo do Senhor despertou-o e mandou-o comer e beber do pão e da água que lhe trouxera; ele assim fez, mas voltou a adormecer. O Anjo insistiu com ele segunda vez, e «Elias levantou-se, comeu e bebeu. Depois, fortalecido com aquele alimento, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites até ao monte de Deus, Horeb.»

 

Renovando e personalizando num profeta famoso de Israel o que tinha acontecido séculos antes com todo o povo, o texto vem reforçar as palavras de Jesus, estimulando-nos a comungar o seu Corpo e Sangue de forma habitual como condição de garantirmos a força necessária para o seguir até ao fim. «Saboreai e vede como o Senhor é bom», exorta-nos o refrão do Salmo. Quem comunga, sabe que sim.

 

 

“Vede como procedeis” 


 

16 de agosto

XX DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Pr 9,1-6. Salmo 34(33),2-3.10-11.12-13.14-15. R/ Saboreai e vede como o Senhor é bom. 2ª: Ef 5,15-20. Evangelho: Jo 6,51-58. Semana IV do Saltério.

 

A 1ª Leitura faz-nos o convite da Sabedoria, para o seu banquete: «Vinde comer do meu pão e beber do meu vinho que vos preparei. Deixei a insensatez e vivereis; segui o caminho da prudência.»

 

E no Evangelho, Jesus renova o apelo à comunhão do seu Corpo e Sangue: «Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.»

 

O Salmo responsorial repete o mesmo refrão do domingo passado e há de voltar a repeti-lo no próximo: «Saboreai e vede como o Senhor é bom.» Talvez isso nos deva merecer alguma atenção. Pois não basta saborear o Pão da eucaristia e ficar a saber ou dizer que o Senhor é bom; é preciso viver em união com o Senhor que se comungou e em comunhão com todas as pessoas. Daí o Salmista apontar para vida:

 

«A toda a hora bendirei o Senhor,

o seu louvor estará sempre na minha boca.

A minha alma gloria-se no Senhor:

escutem e alegrem-se os humildes. (…)

  

Guarda do mal a tua língua

e da mentira os teus lábios.

Evita o mal e faz o bem,

procura a paz e segue-a.»

 

Na 2ª Leitura, Paulo acompanha o Salmo: «Vede como procedeis. Não vivais como insensatos, mas como pessoas inteligentes. Aproveitai bem o tempo, porque os dias que correm são maus. Por isso, não sejais irrefletidos.»

 

E, como que num ritornello que tudo rememora e relança, o verso do Aleluia volta à palavra de Jesus: «Quem come a minha carne e bebe o meu Sangue/ permanece em mim e Eu nele, diz o Senhor.» Que mais precisamos de ouvir e saber, para reAGIRMOS de maneira diferente dos judeus ouvintes de Jesus, que «discutiam entre si» em vez de acolherem a palavra do Mestre e aderirem a Ele pela fé? O que Jesus diz neste Evangelho tem a ver com ganhar ou perder a nossa vida. Faremos bem em lê-lo várias vezes.

 

 

 

 

“Nós acreditamos e sabemos” 


 

                                                            

23 de agosto

XXI DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Js 24,1-2a.15-17.18b. Salmo 34(33),2-3.16-17.18-19.20-21.22-23. R/ Saboreai e vede como o Senhor é bom. 2ª: Ef 5,21-32. Evangelho: Jo 6,60-69. Semana I do Saltério.

 

Após o longo diálogo entre os judeus e Jesus, ao jeito de S. João, vem a separação das águas pela rejeição ou o acolhimento da Palavra. Domingo passado, os judeus ficaram a discutir entre si: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?» A pensar nas suas razões, não ouviram a resposta de Jesus. Por isso, hoje, escandalizados com a afirmação de que tinham de comer a sua carne e beber o seu sangue, «muitos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele». Jesus apenas tinha convidado alguns a segui-lo, não obrigando ninguém a fazê-lo. Por isso, desafia os que tinham ficado com Ele, pois não queria seguidismos ambíguos nem interesseiros: «Também vós quereis ir embora? Respondeu-lhe Simão Pedro: “Para quem havemos de ir, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus.»

 

E nós? Porque ficámos e continuamos com Ele? Em quem – ou em que – acreditamos?

Procuramos esclarecer as nossas razoáveis dúvidas humanas com a sua Palavra de Deus?

 

À profissão de fé de Pedro, em nome dos Apóstolos, corresponde a de Josué na 1ª Leitura. Convocando os responsáveis e o povo numa assembleia em Siquém, desafia-os a optar de vez pelos deuses pagãos, a quem os seus pais tinham servido, ou pelo Senhor. E diz: «Eu e a minha família serviremos o Senhor.» Estimulado pelo seu testemunho, o povo respondeu: «Também nós queremos servir o Senhor, porque Ele é o nosso Deus.»

 

E nós? A quem queremos servir? Porquê?

 

Do Evangelho, fiquem as palavras de Jesus que motivaram a decisão de Pedro: «As palavras que Eu disse são espírito e vida. Mas, entre vós, há alguns que não acreditam.» Para a história da Aliança continuar, é preciso que nós, na Eucaristia de hoje, renovemos uma vez mais a nossa fé, mas atualizada pela escuta e a aceitação da Palavra de Deus.

 

 

 

 

“… pela palavra da verdade”


  

30 de agosto

 

XXII DOMINGO COMUM

 

LEITURAS: 1ª: Dt 4,1-2.6-8. Salmo 15(14),2-3a.3cd-4ab.4c-5. R/ Quem habitará, Senhor, no vosso santuário? 2ª: Tg 1,17-18.21b-22.27. Evangelho: Mc 7,1-8.14-15.21-23. Semana II do Saltério.

 

 

 

Voltamos ao Evangelho de Marcos. E defrontamo-nos com um tema sempre antigo e sempre novo: a questão da pureza. Havia leis do Antigo Testamento sobre alimentos a não comer, contactos com certos doentes a evitar, lavagens a fazer… como condição para entrar no templo. Tudo para criar no povo eleito, através de sinais físicos, a consciência de que devia ser santo porque o seu Deus era santo.

 

 

 

Convém não confundir. Os filhos de Israel receberam «os mandamentos do Senhor» seu Deus, com ordem expressa de os cumprir e pôr em prática, sem acrescentar nem suprimir nada; tal observância ia dar-lhes «sabedoria e prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis», reconheceriam que Deus lhes dera «mandamentos e decretos tão justos» (1ª Leitura).

 

Mas os judeus acrescentarem-lhes inúmeros preceitos humanos, confundindo impureza legal com impureza moral. Jesus revela a plenitude do sentido da Lei: ter uma vida limpa não é lavar as mãos, a roupa e os pratos, evitar os leprosos e outros doentes contagiosos; é purificar o interior do coração, pois daí é que sai tudo aquilo que nos torna impuros.

  

É essa a «palavra da verdade», pela qual o Pai nos gerou em Cristo (2ª Leitura).

  

O Salmo insiste nesse caminho:

 

«O que vive sem mancha e pratica a justiça 

e diz a verdade que tem no coração 

e guarda a língua da calúnia. 

 

  

O que não falta ao juramento mesmo em seu prejuízo, 

e não empresta dinheiro com usura.»

 

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LITURGIA DO TEMPO COMUM

(Ano B)

 

Escrito por frei Lopes Morgado

 

Após a Solenidade do Pentecostes, reentrámos no Tempo Comum, de que já tínhamos celebrado uma primeira parte entre a solenidade do Batismo do Senhor e quarta-feira de Cinzas. Então, no dia 15 de fevereiro celebrámos o VI domingo comum;

agora, nas semanas de 25 a 30 de maio, de 1 a 6 de junho

e de 8 a 13 de junho, celebramos a liturgia correspondente

à VIII, IX e X semanas do Tempo Comum;

mas, ao recomeçarmos a celebração dos domingos do Tempo Comum,

a 14 de junho, já estaremos no XI,

ficando assim, este ano, os domingos VIII, IX e X por celebrar.

 

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“O Senhor é o único Senhor”

 

 

 

31 de maio

SANTÍSSIMA TRINDADE

 

LEITURAS: : Dt 4,32-34.39-40. Salmo 33(32),4-5.6.9.19.20.22.

R/ Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança. : Rm 814-17. Evangelho: Mt 28,16-20. Semana I do Saltério.

 

Durante 50 dias, fizemos a experiência do Filho de Deus ressuscitado, presente e ativo na Igreja e no Mundo pelo seu Espírito. Hoje somos chamados a celebrar conjuntamente o nosso Deus no mistério da sua Trindade e Unidade.

 

O apelo vem de Moisés, ao povo hebreu: «Considera hoje e medita no teu coração que o Senhor é o único Deus.»

Isso dá uma outra dimensão à nossa vida, porque faz de nós um povo diferente; povo chamado a escutar a voz desse Deus pessoal e único, a amá-lo como resposta às suas muitas «provas, sinais, prodígios, combates com mão forte e braço estendido, juntamente com tremendas maravilhas», e a anunciá-lo aos outros povos com uma vida mais perfeita, como a do nosso Pai (1ª Leitura).

 

A Liturgia da Palavra percorre toda a história da salvação, «desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra» (1ª), até à plenitude dos tempos, quando, sempre «conduzidos pelo Espírito de Deus», nos tornámos «filhos de Deus, herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo»; pois, «se sofremos com Ele, também com Ele seremos glorificados» (2ª). E, para que essa história continue, somos enviados a fazer discípulos e a batizar, multiplicando os filhos de Deus: «Ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo o que vos tenho mandado». E assim, o Deus-connosco será Deus de todos e para todos (Evangelho).

 

Razão para aclamarmos: «Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, ao Deus que é, que era e que há de vir» (Aleluia).

 

 

 

                                

«Isto é o meu Corpo. 

Este é o meu Sangue»

 

 

07 junho

SS. CORPO E SANGUE DE CRISTO

LEITURAS: : Ex 24,3-8. Salmo 116(115),12-13.15.16bc.17-18. R/ Tomarei o cálice da salva- ção e invocarei o nome do Senhor. : Heb 9,11-15. Evangelho: Mt 14,12-16.22-26. Semana II do Saltério.

 

 

Com a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, a Igreja quer proclamar, no espaço público da cidade, o amor de Deus por nós, levado ao extremo na entrega de seu Filho na cruz e prolongado na Eucaristia. Isto porque, no dia da sua instituição em quinta-feira santa, o grande mistério da fé cristã foi celebrado apenas dentro das igrejas e com muita gente sem dispensa do trabalho ou a caminho de umas férias prolongadas.

 

As Leituras da palavra de Deus apresentam as raízes e motivações desta Festa. A 1ª Leitura decorre no Monte Sinai, onde o povo de Israel, por mediação de Moisés, renova a Aliança de fidelidade ao Deus único, evocado na solenidade da Santíssima Trindade. «Moisés veio comunicar ao povo todas as palavras do Senhor e todas as suas leis. O povo inteiro respondeu numa só voz: “Faremos tudo o que o Senhor ordenou”. Moisés escreveu todas as palavras do Senhor. No dia seguinte, levantou-se muito cedo, construiu um altar no sopé do monte e ergueu doze pedras pelas tribos de Israel. Depois mandou que alguns jovens israelitas oferecessem holocaustos e imolassem novilhos, como sacrifícios pacíficos ao Senhor. Moisés recolheu metade do sangue, deitou-o em vasilhas e derramou a outra metade sobre o altar. Depois, tomou o Livro da Aliança e leu-o em voz alta ao povo, que respondeu: “Faremos tudo quanto o Senhor disse e em tudo obedeceremos.” Então, Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: “Este é o sangue da aliança que o Senhor firmou convosco, mediante todas estas palavras”.»

 

Os elementos são suficientemente ricos para fazermos a relação entre este sacrifício de Jesus. E o Salmo Responsorial estabelece a relação e passagem: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor.»

 

No Evangelho, Jesus, o novo Moisés, reúne os chefes do novo Povo de Deus e cumpre aquela aliança de um modo novo e eterno. E também o faz num rito judaico, envolto em textos da Sagrada Escritura e muitas orações (que algumas comunidades evocaram, no “Seder pascal”): «Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: “Tomai: isto é o meu corpo.” Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-lho. E todos beberam dele. Disse Jesus: “Este é o meu Sangue, o sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens.”»

 

Na 2ª Leitura, o autor do sermão chamado “Carta aos Hebreus” apresenta o sacerdócio de Cristo superior ao da Antiga Lei: «veio como sumo-sacerdote dos bens futuros, atravessou o tabernáculo maior e mais perfeito e entrou de uma vez para sempre no santuário; «não derramou sangue de cabritos e novilhos, mas o seu próprio sangue, e alcançou-nos uma redenção eterna… Por isso, Ele é mediador de uma nova aliança».

 

Ao ser-nos facultado um dia especial, fora do domingo, para celebrarmos isto, é fácil de ver que não estávamos diante de um mero feriado, para o negociarmos em nome de um suposto maior rendimento económico; pois na Eucaristia oferecemos ao Senhor o «fruto da terra e do trabalho, que para nós se vão tornar pão da vida e vinho de salvação» (Ofertório). Que “valor acrescentado” maior do que este, podemos esperar do nosso trabalho, além de alimentarmos as pessoas com os bens da terra? Esquecê-lo, poderá levar à desumanização do trabalhador. 

 

O cedro frondoso e a semente

 

14 de junho

XI DOMINGO COMUM

LEITURAS: : Ez 17,22-24. Salmo 92(91),2-3.13-14. 15-16 R/ É bom louvar-Vos, Senhor. 2ª: 2 Cor 5,6-10.Evangelho: Mc 4,26-34. Semana III do Saltério.

 

A Palavra de hoje fala da providência e gratuidade de Deus, servindo-se de elementos da natureza para entendermos melhor nos explicar a mensagem. Quase me apetece convidar os visitadores desta página a visitarem também, o Jardim Bíblico no Centro dos Capuchinhos, em Fátima (na imagem), para a conferirmos e compreendermos à vista das árvores aqui referidas.

 

Na 1ª Leitura, o profeta Ezequiel tenta prevenir as autoridades e o povo de Judá de uma deportação semelhante à do Reino do Norte, que sucumbira sob a Assíria em 722 aC.. Para isso, denuncia a sua relação com o Egito e a confiança quase mágica no templo.

De facto, em 597, as tropas de Nabucodonosor invadem Jerusalém e destroem o templo, levando os principais para o exílio na Babilónia. Ezequiel, sacerdote e profeta, vai também. Aí, em nome de Deus, anuncia tempos novos: do cimo desse império, apresentado como um cedro alto, Deus cortará um ramo novo (o rei Jeconias, também deportado), com que iniciará uma nova plantação em Israel. E «ele lançará ramos e dará frutos e tornar-se-á um cedro majestoso. Nele farão ninho todas as aves, toda a espécie de pássaros habitará à sombra dos seus ramos».

 

O anúncio cumpriu-se em Jesus Cristo; o reino florescente já será o «reino de Deus», que Jesus apresenta no Evangelho com duas parábolas: a da semente lançada à terra, que segundo Marcos germina, cresce e dá trigo sem sabermos (bastante diferente da de Mateus 13,3-9.18-23); e a do grão de mostarda, que, «sendo a menor de todas as sementes», depois «torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra» O paralelo destas parábolas com a 1ª Leitura é evidente.

 

Salmo Responsorial vem ligar as parábolas à vida, com a referência a mais duas árvores:

 

 

«O justo florescerá como a palmeira,
crescerá como o cedro do Líbano […]
Mesmo na velhice dará o seu fruto,
Cheio de seiva e de vigor.»

 

 

Por sua vez, o refrão do Aleluia ajuda a entender a semente da parábola do Evangelho:

 

«A semente é a palavra de Deus e o semeador é Cristo:
quem O encontrar permanecerá para sempre.»

A explicação é importante, pois ajuda-nos a entender que o nosso objetivo ao ler a Bíblia não é tanto encontrar a palavra literária do escritor sagrado, embora Deus tenha encarnado nela, mas a mensagem ou o espírito de Deus que nela nos fala; e que o cristianismo não é, de facto, uma “religião do livro”, mas fundamenta a sua fé na pessoa de Cristo. «Caminhamos à luz da fé – diz Paulo na 2ª Leitura –, e não da visão clara.»

 

 

 

 

“A menina não morreu…”

 

 

 

28 de junho

XIII DOMINGO COMUM

 

LEITURAS:: Sb 1,13-15; 2,23-24. Salmo 30(29), 2. 4.5-6.11.12a.13b R/ Eu Vos louvarei, Senhor, porque me salvastes. 2ª: 2 Cor 8,7.9.13-15. Evangelho: Mc 5,21-43. Semana I do Saltério.

 

Lidar com a morte, como fazendo parte da vida, é difícil para quem tem apetência de imortalidade também ao nível físico. Mas é uma realidade que temos de integrar na gestão da nossa existência. O autor da Sabedoria, situado entre 150 e 50 a.C., é peremptório: «Não foi Deus quem fez a morte, nem Ele se alegra com a perdição dos vivos… Deus criou o homem para ser incorruptível e fê-lo à imagem da sua própria natureza.» E argumenta: «Em nada existe o veneno que mata, nem o poder da morte reina sobre a terra, porque a justiça é imortal.» Mas, nele, morte identifica-se com perdição, e vida, com salvação. Por isso, ao explicar a causa da morte, responde assim: «Foi pela inveja do demónio que a morte entrou no mundo, e experimentam-na aqueles que lhe pertencem» (1ª Leitura).

 

Não era desta morte que estávamos a falar, dirão. Mas poderá ser, se julgarmos a realidade segundo a cultura e a teologia de então. E, mesmo hoje, porque recorrem tanto a Deus e aos santos, as pessoas doentes, apesar de tantos avanços científicos? Porque dizem os médicos, em casos terminais: “Se tem fé, reze”? Mas somos mais sensíveis à morte física e às doenças. O Evangelho fala de duas pessoas que acorrem a Jesus: o chefe da sinagoga, com uma filha a morrer, e «certa mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos». Ambos os casos são resolvidos pela fé. 

 

O Salmo ensina-nos uma coisa de que às vezes nos esquecemos;

ensina-nos a agradecer:

«Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes (…).

Tirastes a minha alma da mansão dos mortos.» (…)

Vós convertestes em júbilo o meu pranto:

Senhor meu Deus, eu Vos louvarei eternamente.»

 

 

 

“Filho do homem, Eu te envio…”

  

 

05 de julho

XIV DOMINGO COMUM

 

LEITURAS:: Ez 2,2-5. Salmo 123(122),1-2a.2bcd. 3-4 R/ Os nossos olhos estão postos no Senhor, até que se compadeça de nós. 2ª: 2 Cor 12,7-10. Evangelho: Mc 6,1-6. Semana II do Saltério.

 

Em tempos de apelo à evangelização, Ezequiel relata o seu chamamento ao apostolado: «O Espírito entrou em mim e fez-me levantar. Ouvi então Alguém que me dizia: “Filho do homem, Eu te envio aos filhos de Israel, a um povo rebelde que se revoltou contra Mim”».

A iniciativa é de Deus. O profeta não escolhe o campo de missão nem os destinatários da mensagem: «É a esses filhos de cabeça dura e coração obstinado que te envio.» E é-lhe dito o que deve transmitir: «Eis o que diz o Senhor.»

Assim, só será responsabilizado no caso de se calar. Mas, que outra responsabilidade poderá ter, se Deus é o único Salvador? «Podem escutar-te ou não – porque são uma casa de rebeldes –, mas saberão que há um profeta no meio deles.» Só isso nos é pedido: dispormo-nos a revelar o Deus que fala pelas nossas palavras; a resposta ao anúncio já é da responsabilidade de cada um (1ª Leitura).

 

Claro que a resposta pode ser comprometida por quem faz a proposta, pois apresenta-se em nome de Deus. Mas, atenção às leituras apressadas: às vezes parte-se o frasco para não ter que tomar o medicamento que podia curar.

Jesus era quem era e foi rejeitado na sua terra. Até Ele «estava admirado com a falta de fé daquela gente.» Mas, que fez? Desistiu e calou-se? Não: «percorria as aldeias dos arredores, ensinando» (Evangelho).

 

Como Ezequiel, Isaías, Jesus e Paulo (), os batizados podemos dizer:

«O Espírito do Senhor está sobre mim: Ele me enviou a anunciar o Evangelho» (Aleluia).

E temo-lo anunciado?

 

«Como os olhos da serva

se fixam nas mãos da sua senhora,

assim os nossos olhos se voltam para o Senhor nosso Deus,

até que tenha piedade de nós» (Salmo Responsorial).

 

 

 

 

“ Vai profetizar ao meu povo…”

 

 

12 de julho

XV DOMINGO COMUM

 

LEITURAS:: Am 7,12-15. Salmo 85(84),9ab-10.11-12.13-14. R/ Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor e dai--nos a vossa salvação. 2ª: Ef 1,3-14. Evangelho: Mc 6,7-13. Semana III do Saltério.

 

A Palavra, hoje, complementa a de domingo passado. No séc. VIII a.C., Amós vivia no reino do Sul. Guardava tranquilamente o seu gado e cultivava sicómoros, quando se sentiu chamado a ir falar em nome de Deus no reino do Norte: «Vai profetizar ao meu povo de Israel.»

Estando ele a pregar no santuário real de Betel aquilo que o povo precisaria de ouvir, o sacerdote local, para não perder os favores do rei, tentou demovê-lo: «Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias.»

Mas ele não se vendeu, e resistiu: «Eu não era profeta nem filho de profeta… Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse…».

E foi dos profetas mais corajosos a denunciar a corrupção e a exploração. Muito atual! Leia o seu livro, nestes dias (1ª Leitura).

 

O Evangelho, em paralelo com a 1ª Leitura, apresenta o chamamento e envio dos Apóstolos. Também eles são escolhidos gratuitamente por Jesus, dentre os discípulos, são enviados, partem e entregam-se à missão… Pregam o arrependimento, expulsam demónios, ungem doentes com óleo e curam-nos.

 

E nós? «Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, de sua livre vontade» (2ª Leitura).

 

Não somos condicionados: somos especialmente escolhidos e amados por Deus.

Qual a nossa resposta?

«Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,

ilumine os olhos do nosso coração,

para sabermos a que esperança fomos chamados» (Aleluia).

 

 

 

“O Senhor é meu pastor” 


 

19 de julho

XVI DOMINGO COMUM

 

LEITURAS:: Jr 23,1-6. Salmo 23(22),1-3a.3b-4.5.6. R/ O Senhor é meu pastor: nada me faltará. 2ª: Ef 2, 13-18. Evangelho: Mc 6,30-34. Semana IV do Saltério.

 

No IV domingo da Páscoa, chamado “domingo do Bom Pastor”, muitos párocos terão sido acarinhados pela sua comunidade.

Neste, a 1ª Leitura dirige-se a outros “pastores” do povo, que à luz dela podem fazer uma revisão sobre o modo como o servem ou se servem dele: o poder político e judicial, os deputados, autarcas e funcionários públicos.

Poderá ser para eles a recriminação de Deus aos maus pastores do seu povo: «Dispersastes as minhas ovelhas e as escorraçastes, sem terdes cuidado delas. Vou ocupar-me de vós e castigar-vos, pedir-vos contas das vossas más acções…».

Deus era representado pelos poderes civis, que não eram donos do povo, mas seus servidores (é o sentido de “ministro”). E porque não o serviam, foram removidos: «Dar-lhes-ei pastores que as apascentem e não mais terão medo nem sobressalto; nem se perderá nenhuma delas. Dias virão em que farei surgir para David um rebento justo. Será um verdadeiro rei e governará com sabedoria; há-de exercer o direito e a justiça. Nos seus dias, Judá será salvo e Israel viverá em segurança.»

Isto é mesmo para hoje!

 

O Salmo celebra a imagem de Deus, como bom pastor:

«O Senhor é meu pastor: nada me falta.

Leva-me a descansar em verdes prados,

conduz-me às águas refrescantes

 e reconforta a minha alma».

 

O Evangelho incarna-o na pessoa de Jesus: acolhe os Apóstolos vindos da missão (domingo passado), dá-lhes descanso «e compadeceu-se de toda aquela gente, que eram como ovelhas sem pastor.»

 

Como Paulo bem diz, «Cristo é, de facto, a nossa paz» (2ª Leitura).

 

 

 

 

“Comerão e ainda há de sobrar”

 

 

 

29 de julho

XVII DOMINGO COMUM

 

LEITURAS:: 2 Rs 4,42-44. Salmo 145(144),10-11. 15-16.17-18. R/ Abris, Senhor, as vossas mãos e saciais a vossa fome. 2ª: Ef 4,1-6. Evangelho: Jo 6,1-15. Semana I do Saltério.

 

A partir deste domingo, até ao XXI (23 de agosto), a liturgia serve-nos, no Evangelho, todo o capítulo VI de S. João, chamado “discurso do pão da vida”. Isso fará com a 1ª Leitura nos proporcione sempre um texto paralelo do Antigo Testamento, em que hoje encontramos figuras da Eucaristia. À luz dos dois textos, veremos, com maior força de compromisso, os nossos problemas atuais de solidariedade e partilha de bens.

 

Na 1ª Leitura surge Eliseu, sucessor de Elias e com mais poder taumatúrgico do que ele. Após ter enchido, com uma só ânfora de azeite, todas as que uma mulher e as vizinhas tinham em casa, para ela pagar uma dívida, faz com que vinte pães de cevada cheguem para matar a fome a cem pessoas.

 

No Evangelho é Jesus a alimentar cinco mil pessoas com cinco pães de cevada e dois peixes, que «um rapazito» disponibiliza para todos. Na multiplicação, Jesus faz quase os gestos da última ceia: «tomou os pães, deu graças e distribuiu-os.» Aliás, em João, é este o relato da instituição da Eucaristia, que ele omite na última ceia de Jesus.

 

Quer dizer que estava na intenção do evangelista relacionar a Eucaristia com a partilha; e os cristãos entendiam que os atos solidários com os outros membros da comunidade nasciam da comunhão do corpo de Jesus. Porque «há um só Corpo e um só Espírito… um só Deus e Pai de todos» (2ª Leitura).

 

Um pormenor: a multidão tinha tanta fome da palavra, que descurou o alimento; mas, quem ouviu a palavra, repartiu-o. Agradeçamos ao Senhor, com o Salmo:

 

«Graças vos deem, Senhor, todas as criaturas

e bendigam-vos todos os fiéis.

Proclamem a glória do vosso reino

e anunciem vossos feitos gloriosos.

 

Todos têm os olhos postos em Vós,

e a seu tempo lhes dais o alimento.

Abris as vossas mãos

e a todos saciais generosamente.

 

O Senhor é justo em todos os seus caminhos

e perfeito em todas as suas obras.

O Senhor está perto de quantos O invocam,

de quantos O invocam em verdade.»

 

«O Senhor… »

E nós…? Até quando?

O HOMEM, A MULHER E A FAMÍLIA

 

04 de outubro

XXVII DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Gn 2,18-24. Salmo 128/127, 1-2.3.4-5.6 R/ O Senhor nos abençoe em toda a nossa vida. 2ª: Heb 2,9-11. Evangelho: Mc 10,2-16. Semana III do Saltério.

 

Os textosdehojeconvidama refletir sobre a família em geral e a família de cada um, confrontando o sonho das origens com a realidade da vida. A 1ª Leitura apresenta o projeto do Criador, na 2ª versão bíblica das origens, onde o ser humano surge no topo da obra de Deus e responsável por ela, como na 1ª versão, pois é ele que lhes impõe o nome.

 

Em forma poética, diz-nos: Deus fez o homem como ser de relação, para dialogar e partilhar a vida com alguém: «Não é bom que o homem esteja só.» Esse alguém deve ser da suaespécie e natureza:entretodos os animais e aves, «não encontrou uma auxiliar semelhante a ele»; por isso Deus a forma de uma costela do homem, para dizer que é da sua espécie e tem a mesma dignidade, mas nãoédomesmogénero,aocontrário do que hoje se pretende impor. Como a Bíblia já dissera na 1ª versão da criação, «Ele os criou homem e mulher» (Gn 1,27).

 

«Por isso, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne». O texto supõe que de modo exclusivo e definitivo. Assim o interpretou Cristo, à pergunta dos fariseus: «Pode um homem repudiar a sua mulher?» Disse: «não separe o homem o que Deus uniu.» E acrescentou: «Quem repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério com a primeira. E se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério.»

 

A solução está no amor, diz o verso do Aleluia. E o Salmo canta uma família: marido ganhando o sustento com o seu trabalho, esposa «como videira fecunda» e «filhos como ramos de oliveira,/ ao redor da tua mesa».

 

O ESPÍRITO DE SABEDORIA

 

11 de outubro

XXVIII DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª:Sb 7,7-11. Salmo 90/89,12-13.14-15.16-17. R/ Enchei-nos, Senhor, da vossa misericórdia: será ela a nossa alegria. 2ª: Heb 4,12-13. Evangelho: Mc 10,17-30.Semana IV do Saltério.

 

O «homem»doEvangelho(e não falemos do «jovem» rico, todos os anos, pois só Mateus é que fala de um «jovem»!) não teve «o espírito de sabedoria». E ele até começou muito bem: aproximou-se de Jesusa correr, ajoelhou-se diante d´Ele e perguntou-lhecommuitoboaintenção:«Bom Mestre, que hei de fazer para alcançar a vida eterna?» E até cumpria todos os mandamentos «desde a juventude» (por isso, já não era um jovem…).

 

Só não teve «o espírito de sabedoria», porque o sábio a quem ela foi concedida

«preferiu-a «aos cetros e aos tronos

e, em sua comparação, considerou a riqueza como nada

(…) pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia

e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo»» (1ª Leitura).

Ele, ouvindo o convite de Jesus a dar tudo aos pobres e segui-lo, para ter um tesouro do Céu, «retirou-sepesaroso,porqueeramuitorico».Eassim, aonão querer arriscar nada para garantir o que desejava, pôs em risco a vida eternaqueinicialmentepretendia alcançar: «Como sé difícil paraosquetêmriquezasentrarnoreinode Deus!» E, com essa incapacidade para avaliar as coisas, talvez nem tenha tirado grande partido da sua riqueza.

 

No Salmo pedimos: Senhor, «ensinai-nos a contar os nossos dias.»

Quantos teria ainda aquele homem, para perder aoportunidadedo negócio da sua vida – ser discípulo de Jesus?!

 

«A palavra de Deus é viva e eficaz, (…)

é capaz de discernir os pensamentos e intenções do coração» (2ª Leitura).

Deixemo-la discernir em nós o que melhor convém à nossa vida.

 

 

“PARA SERVIR E DAR A VIDA”

 

18 de outubro

XXIX DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: Is 53,10-11. Salmo 33/32,4-5.18-19.20.21. R/ Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vos esperamos, Senhor. 2ª: Heb 4,14-16. Evangelho: Mc 10,35-45. Semana I do Saltério. DIA MUNDIAL DAS MISSÕES.

 

Voltamos à ideia central do domingo passado: a arte de saber investir a vida para ganhá-la. A 1ª Leitura dá-nos apenas dois versículos do IV Cântico do Servo, sobre Paixão e Glória, mas neles temos a síntese de toda a mensagem: o Senhor quis «esmagar o seu Servo pelo sofrimento», porque é fonte de vida e sabe que faz parte da vida morrer para dar fruto. Não é por sadismo. Daí o sofrimento não ser imposto: só vale «se o Servo anónimo oferecer a sua vida como vítima de expiação»; nesse caso,«teráumadescendênciaduradoira,viverá longos dias, e a obra doSenhorprosperaráemsuas mãos. Terminados os sofrimentos, verá a luz e ficará saciado.» E, deste modo, «pela sua sabedoria, o Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades». Ao servir, dá a vida e dá vida. «Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há de salvá-la» (Mc 8,35).

 

Eis porque o rico do domingo passado fez um mau negócio. Como poderá suceder-nos, se nos quisermos salvar apenas a nós; este Dia Mundial das Missões lembra-nos que devemos procurar fazê-lo preocupando-nos com a salvação dos outros. Foi o que fez São Lucas, o evangelista deste ano, que hoje celebramos: deixando o conforto da sua comunidade, juntou-se a Paulo na evangelização, manteve-se fielmente junto dele, e pelo seu testemunho ganhou a confiança da Igreja que o promoveu de discípulo a evangelista com especial atenção aos pagãos, aos pecadores e aos mais desfavorecidos ou marginalizados, como os doentes, os pecadores e as mulheres.  

 

A profecia do Cântico do Servo cumpre-se em Jesus – o Messias-Mestre que nos salvou pelo sofrimento. Por isso, no Evangelho, Ele desafia «Tiago e João, filhos de Zebedeu», a beber o cálice da suaPaixãopara obterem, pelo “serviço”, os dois lugaresde honra na sua glória, que pretendiam obter por “cunha” ou “favor”: «quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo, e quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos; porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos» (Evangelho). Esta última frase, em que Jesus se propõe como modelo de serviço, é a que a Liturgia seleciona para o refrão do Aleluia.

 

«Permaneçamos firmes na profissão da nossa fé» - exorta o autor da Carta aos Hebreus (2ª Leitura), lembrando que temos nos Céus um sumo-sacerdote, «Jesus Cristo, Filho de Deus», que passou por toda a provação, exceto a do pecado. «Vamos, portanto, cheios de confiança ao trona da graça, a fim de alcançamos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno».

 

Apoiados nesta confiança, rezamos o refrão do Salmo Responsorial:

«Desça sobre nós a vossa misericórdia,

porque em Vós esperamos, Senhor.»

E proclamamos, com o Salmista:

«A nossa alma espera o Senhor:

Ele é o nosso amparo e protetor.»

 

 

“EU SOU UM PAI PARA ISRAEL”

 

25 de outubro

XXX DOMINGO COMUM

LEITURAS: 1ª: J 31,7-9. Salmo 126/125,1-2ab.2cd-3.4-5.6. R/ O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo. 2ª: Heb 5,1-6. Evangelho: Mc 10,46-52. Semana II do Saltério.

 

O título deste comentário é da 1ª Leitura, que diz: «O Senhor salvou o seu povo, o resto de Israel.» Nela, o profeta Jeremias descreveantecipadamenteo regresso à pátria dos exilados em Babilónia, exortando: «Soltai brados de alegria.» O texto é belo e comovente, ultrapassando a realidade:

«Vou trazê-los das terras do Norte

e reuni-los dos confins do mundo.

Entre eles vêm o cego e o coxo

a mulher que vai ser mãe e a que já deu à luz.

É uma grande multidão que regressa.

Eles partiram com lágrimas nos olhos

e Eu vou trazê-los no meio de consolações.»

 

Diria que o grande regresso/êxodo deste povo ainda não terminou; mas hoje tem outros contornos.

 

O Salmo confirma: «O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo.» Evoca o mesmo regresso dos cativos de Sião, que fazia exclamar os pagãos: «O Senhor fez por eles grandes coisas.» E dá confiança a todos os expatriados:

«À ida vão a chorar,

levando as sementes;

à volta vêm a cantar,

trazendo os molhos de espigas.»

Temos que ler e rezar mais os salmos que, não apenas na Liturgia, fazem a ponte entre o Antigo Testamento, o Novo e a vida.

 

Deus diz-nos, cada dia, o que diz de seu Filho Jesus: «Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» (2ª Leitura). Ser pai é isso. E não apenas gerar de uma vez, porque nós estamos – ou devemos estar – sempre a nascer de novo. Por isso Ele é, também para nós, um Pai.

 

Jesus cura um cego: «Vai, a tua fé te salvou» (Evangelho). E ele segue-o, feliz. Uma lição para os Apóstolos, que o seguiam «assombrados e temerosos» (Mc 10,32).

 


 

 

Páscoa 2015

Escrito por: frei Lopes Morgado

 

 

 

 

SEMANA SANTA

 

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A Semana Santa, ou Semana Maior do ano litúrgico abre com o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor.

Segue-se, depois, o Tríduo Pascal e todo o Tempo da Páscoa, que tem o seu coroamento no Domingo de Pentecostes, em que Jesus concede o Espírito Santo aos seus discípulos e, com Ele, a paz e o ministério do perdão dos pecados.

 

 

“ESTE HOMEM ERA FILHO DE DEUS”

 

 

 

29 de março

 

DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR LEITURAS

 

Antes da Procissão de Ramos: Mc 11,1-10 (ou Jo 12,12-16).

 

Leituras da Missa: : Is 50,4-7. Salmo 22,8-9.17-18a.19-20.23-24. R/Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes? 2ª: Fl 2,6-11. Evangelho: Mc 14, 1-15,47 [ou Mc 15,1-39]. Semana II do Saltério

 

 

 

O Jesus segundo S. Marcos caracteriza-se por uma urgência em cumprir a missão que trouxe do Pai: anunciar o “Evangelho” da salvação «a toda a criatura»(16,15), curar os males do corpo e do espírito com os seus milagres e entregar-se como servo de Javé, derramando o seu sangue «por todos» (14,24). Ele era «o Filho do Homem»; e por isso, «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos»(10,45).

 

Ao aproximar-se dos mais débeis de maneira muito humana, e quase se identificando com eles na mesma fragilidade, foi sinal de esperança e fonte de libertação. A Ele se aplica o texto de Isaías:

 

«O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo,

 

para que eu saiba dizer uma palavra de alento

 

aos que andam abatidos» (1ª Leitura).

 

 

 

E assim os ergueu, pela confiança em si próprios e em Deus:

 

«Hei de falar do vosso nome aos meus irmãos,

 

hei de louvar-vos no meio da assembleia» (Salmo).

 

 

 

Para isso, assumiu a plenitude da encarnação, sendo glorificado pelo Pai acima de toda humanidade, ao mesmo tempo que a glorificava consigo:

 

«Cristo Jesus, que era de condição divina, (…)

 

tornou-se semelhante aos homens. (…)

 

humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz.

 

Por isso Deus o exaltou» ( e Aleluia).

 

Quem «não se valeu da sua igualdade com Deus» () e se fez «Filho do Homem», não passou despercebido.

 

 

 

O centurião responde a todas as dúvidas do Evangelho de Marcos:

 

«Na verdade, este homem era Filho de Deus» (Evangelho).

 

 

 

 

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TEMPO PASCAL / ANO B

 

 

 

 

 

 

 

OS DOMINGOS DO TEMPO PASCAL

 

A EXPERIÊNCIA CRENTE DO RESSUSCITADO

 

 

A Ressurreição de Jesus é o acontecimento fundamental da Fé cristã, como o Êxodo foi o acontecimento fundador do povo de Deus no Antigo Testamento. Por isso, temos um Tempo de 50 dias para o aprofundar e reviver.

 

Num mesmo documento, apresentamos a caminhada de Jesus com os seus Apóstolos, até os deixar fisicamente e os confiar ao Espírito Santo. Eis o que vamos recordar e celebrar, nos Evangelhos do Tempo Pascal deste Ano B:

 

 

 

● Pedro e João, alertados por Maria Madalena, entram no sepulcro de Jesus: não veem o corpo e acreditam na sua ressurreição. Jesus sai ao caminho de dois discípulos que descriam n’Ele, e eles reconhecem-no quando partia o pão em casa, num rito de Eucaristia (I Domingo).

 

> Jo 20,1-9

 

● Jesus aparece aos Doze dois domingos seguidos. Transmite-lhes a paz e a alegria, com o Espírito Santo para perdoarem os pecados (II Domingo).

 

> Jo 20,19-31

 

● Jesus volta a aparecer aos Doze, deseja-lhes novamente a paz e desafia o seu medo: “Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne e ossos, como vedes que eu tenho.” E come peixe assado diante deles (III Domingo).

 

> Lc 24,35-48

 

● Jesus apresenta-se como o Bom Pastor que conhece e é reconhecido pelas suas ovelhas, e dá a vida por elas (IV Domingo).

 

> Jo 10,11-18

 

●Jesus compara-se com a videira: dá a vida aos seus ramos, que são os cristãos, se viverem unidos a Ele pela fé e pela graça (V Domingo).

 

> Jo 15,1-8

 

●Jesus proclama o amor como seu mandamento fundamental: “Assim como o Pai me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor… Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei” (VI Domingo).

 

> Jo 15,9-17

 

●Jesus aparece aos Doze, e diz-lhes: “Ide e pregai o Evangelho a toda a criatura.” E “depois de ter falado com Eles, foi elevado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam” (Ascensão).

 

> Mt 16,15-20

 

 

 

●Finalmente, Jesus entra na casa onde os Apóstolos se tinham fechado com medo dos judeus. Coloca-se no meio deles e diz-lhes: “A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.” Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo.”

 

 

 

Este Evangelho situa-se no próprio Dia de Páscoa à tarde. Quer dizer: durante estes 50 dias do Tempo Pascal, que hoje termina, celebrámos o mesmo acontecimento da Ressurreição de Jesus – experimentado, acreditado e vivido pelos Apóstolos e os primeiros cristãos… Sempre animados pelo mesmo Espírito Santo, que nos guiará para a “Verdade completa”, como Jesus prometeu (Jo 16,13). (Pentecostes).

 

> Jo 20,19-23

 

  

 

 “RESSUSCITOU: NÃO ESTÁ AQUI”

 

 

05 de abril

DOMINGO DE PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR

Leituras: : At 10,34.a37-43. Salmo 118,1-2.16ab-17.22-23. R/ Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria. 2ª: Cl 3,1-4; ou: 1 Cor 5,6b-8. Evangelho: Jo 20,1-9. Semana I do Saltério.

 

Por estarmos no Ano B, em que predomina S. Marcos, seleciono o Evangelho lido na Vigília Pascal. Nele, Marcos transmite o anúncio de «um jovem sentado do lado direito» dentro to túmulo de Jesus, às mulheres que tinham ido com aromas para embalsamar o seu corpo». Diz-lhes: «Não vos assusteis. Procurais a Jesus de Nazaré, o Crucificado? Ressuscitou: não está aqui.»

 

É a grande mensagem deste «dia que o Senhor fez» (Salmo) e que se vai prolongará durante a oitava da Páscoa.

 

A 1ª Leitura é quase um “Credo histórico” baseado na vida de Jesus, algo paralelo ao Credo do povo hebreu no Antigo Testamento com base no Êxodo (Dt 26,5b-9):

- «Deus ungiu com o Espírito Jesus de Nazaré,

- Jesus passou fazendo o bem e curando a todos, no país dos judeus e em Jerusalém;

- eles mataram-no, suspendendo-O na cruz;

- Deus ressuscitou-O ao terceiro dia;

- Jesus mandou-nos pregar e testemunhar;

- Nós somos testemunhas do que Ele fez.»

Temos, aqui, o fundamental da fé relativa a Cristo, assente na sua ressurreição, confirmada e testemunhada pela primeira geração cristã, e não objecto de fabulação posterior como alguns pretendem.

 

E assim,

«a pedra que os construtores rejeitaram

tornou-se pedra angular» (Salmo Responsorial).

para os que n’Ele crêem e com Ele morrem e ressuscitam pelo Batismo.

 

Ora, «porque vós morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus» ( – Cl), então, «celebremos a festa, não com fermento velho nem com fermento de malícia, mas com pães ázimos da pureza e da verdade» ( – 1 Cor).

 

 

 

FÉ: A VITÓRIA QUE VENCE O MUNDO

 

 

12 de abril

II DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: 1ª Leitura: At 4,32-35. Salmo 118,2-4.16ab-18.22-24. R/ Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia. 2ª: 1 Jo 5,1-6. Evangelho: Jo 20,19-31. Semana II do Saltério.

 

A 1ª Leitura revela a influência da fé na transformação da vida: «a multidão dos que tinham abraçado a fé» no Senhor ressuscitado graças ao discurso de Pedro no Pentecostes, «tinha um só coração e uma só alma», e «não havia entre eles qualquer necessitado», pois vendiam o que tinham, e «distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade». E essa vida tornava-se, ao mesmo tempo, resultado e argumento da ressurreição de Jesus: por um lado, os apóstolos continuavam a dar testemunho dela com grande poder; e, por outro, o povo tinha pela comunidade cristã grande simpatia.

Isto é uma referência importante para as comunidades cristãs de hoje, também chamadas a partilhar com todos e a ser motor de mudança na distribuição justa das riquezas e na resposta às necessidades de cada um, à luz da doutrina social da Igreja sobre a posse universal dos bens.

 

«Quem acredita que Jesus é o messias nasceu de Deus» e«todo o que nasceu de Deus vence o mundo. Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé» (2ª Leitura).

 

Uma nota importante para a nova Evangelização: nesta fé e vitória, o testemunho directo é fundamental: de Jesus aos apóstolos (Evangelho), de Pedro aos habitantes de Jerusalém ( Dia de Páscoa), dos cristãos e apóstolos aos pagãos ( de hoje). E a quem quer ver com os próprios olhos, como Tomé, é dito que a felicidade não está em crer por ter visto, mas em acreditar sem ver, atendendo às vidas transformadas pela fé (Evangelho).

 

 

 

“QUEM NOS FARÁ FELIZES?”

 

 

19 de abril

III DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: 1ª: At 3,13-15.17-19. Salmo Sl 5,2.4.7.9. R/Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz do vosso rosto. 2ª: 1 Jo 2,1-5a. Evangelho: Lc 24,35-48. Semana III do Saltério

 

O Salmista pergunta, com a gente de todos os tempos:«Quem nos fará felizes?» E procura a resposta no seu Deus:

«Fazei brilhar sobre nós, Senhor,

a luz da vossa face.»

Depois, como a Lua serena que reflete o Sol durante a noite, conclui:

«Em paz me deito e adormeço tranquilo, 

porque  Vós, Senhor, 

me fazeis repousar em segurança.»

 

Na 1ª Leitura, Pedro acende esta luz na alma do povo, anunciando a ressurreição de Jesus a quem eles tinham negado e matado, preferindo um assassino. E diz, a rematar: «Portanto, arrependei-vos e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados.» O povo, iluminado pela mensagem, pergunta a Pedro e aos apóstolos: «Que havemos de fazer, irmãos?» (At 2,37). O resultado final, vimo-lo na 1ª Leitura do domingo passado.

De algum modo, São João repete o mesmo aos que morremos e ressuscitámos com Cristo, no batismo:

«Meus filhos, escrevo-vos para que não pequeis.

Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo, o Justo,

como advogado junto do Pai.»

Mas não diz isso para nos deixar numa fé inconsequente; pois

«aquele que diz conhecê-lo e não guarda os seus mandamentos

é mentiroso e a verdade não está nele» ().

 

O Evangelho abre com os discípulos de Emaús a testemunharem aos apóstolos a sua experiência do Ressuscitado. Mas eis que Este se apresenta, e desafia-os a fazerem o que domingo recriminara a Tomé:

«Sou Eu mesmo; tocai-me e vede:

um espírito não tem carne nem ossos,

como vedes que Eu tenho.»

Não; aqui não há qualquer alucinação colectiva!

 

«Senhor Jesus, abri-nos as Escrituras, falai-nos» (Aleluia).

 

 

“O AMOR QUE O PAI NOS DEDICOU”

 

26 de abril

IV DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: 1ª: At 4,8-12. Salmo 118,1 e 8-9.21-23. 26 e 28cd e 29. R/ A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. 2ª: 1 Jo 3,1-2. Evangelho: Jo 10,11-18. Semana IV do Saltério.

 

O livro dos Actos dos Apóstolos, proclamado à semana e ao domingo nos cinquenta dias da Páscoa, mostra que a pregação dos Apóstolos se centrou no “mistério pascal”, ou seja, no anúncio da morte e ressurreição de Jesus. Pedro e João foram presos por estarem a pregar isso e por terem curado um coxo à porta do templo de Jerusalém.

Quando o Sinédrio lhes perguntou «com que poder ou em nome de quem fizestes isso?, Pedro, cheio do Espírito Santo, disse-lhes: “É em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, que vós crucificastes e Deus ressuscitou dos mortos, é por Ele que este homem se encontra perfeitamente curado na vossa presença”.»

 

E faz uma leitura cristológica do Salmo 118, o “grande Hallel” pascal, rezado na Missa de hoje: «Jesus é a pedra angular que vós, os construtores, desprezastes e que veio a tornar-se pedra angular. E em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos» (1ª Leitura).

 

No Evangelho, o próprio Jesus se apresenta nesta missão, assumindo o papel do bom pastor que conhece as suas ovelhas e é reconhecido por elas, reúne-as, convoca-as para formarem um só rebanho com um só Pastor e dá a vida por elas.

Bem podemos dizer com São João, que nos acompanha ao domingo, na Páscoa:

«Vede que admirável amor o Pai nos consagrou,

em nos chamarmos filhos de Deus.

 

«E somo-lo, de facto» (2ª Leitura).

 

E com o Salmista:

«Eu Vos darei graças porque me ouvistes

e fostes o meu Salvador.

Vós sois o meu Deus: eu vos darei graças.

Sois o meu Deus: eu vos exaltarei» (Salmo Responsorial).

 

 

 

 

“ACREDITAR, AMAR, CUMPRIR”

 

 

03 de maio

V DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: 1ª: At 9,26-31. Salmo 22,26b-27.28.30. 31-32.R/ Eu Vos louvo, Senhor, no meio da multidão. 2ª: 1 Jo 3,18-24. Evangelho: Jo 15,1-8. Semana I do Saltério.

 

Estamos nos dias a seguir ao encontro de Saulo com Cristo no caminho de Damasco. E assistimos à sua integração na comunidade: em Jerusalém, onde «os helenistas o queriam matar», e depois em Tarso. «Entretanto, a Igreja gozava de paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e vivendo no temor do Senhor e ia crescendo com a assistência do Espírito Santo»(1ª Leitura).

 

Este fruto era o que Jesus, «a verdadeira vide», desejava que os discípulos produzissem sob a acção Pai, «o agricultor». Sete vezes aparece a palavra «fruto», neste Evangelho! Mas os frutos supõem a «poda», como condição de maior qualidade e abundância.

Jesus sintetiza: «A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos.» Esses frutos identificam-se com as obras de que fala a2ª Leitura, a partir do fundamental: «É este o seu mandamento: acreditar no nome de seu Filho, Jesus Cristo, e amarmo-nos uns aos outros, como Ele nos mandou.»

Atendendo bem a esta prevenção: «não amemos com palavras e com a língua,

mas com as obras e em verdade. Deste modo saberemos que somos da verdade

e tranquilizaremos o nosso coração.» A garantia para isto é permanecer no Senhor (Aleluia e Evangelho).

 

Por isso,

«cumprirei a minha promessa

na presença dos vossos fiéis…

Para Ele viverá a minha alma.»

Assim unidos ao Senhor, façamos da oração deste dia um ato de louvor e de evangelização, para que as novas gerações continuem a celebrá-lo e a reconhecer as suas obras:

«Falar-se-á do Senhor às gerações vindouras:

“Eis o que fez o Senhor”» (Salmo).

 

 

 

“Para que vades e deis fruto”

 

 

 

10 de maio

VI DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: 1ª: At 10,25-26.34-35.44-48. Salmo 98, 1.2-3ab.3cd-4. R/ O Senhor manifestou a salvação a todos os povos. 2ª: 1 Jo 4,7-10; ou: 1 Jo 4,11-16.  Evangelho: Jo 15,9-17; ou: Jo 17,11b-19. Semana II do Saltério.

 

Centremo-nos no Evangelho, que vem do Domingo passado. Na última Ceia, Jesus despede-se dos seus. O que lhes diz, destina-se a prepará-los, e a nós, para o tempo a seguir à Páscoa em que já não poderão contar com a sua presença física.

- Centra-se no mandamento novo do amor:

herança de Jesus aos cristãos,

sinal que os há de identificar no mundo como seus discípulos e

fruto principal que hão-de produzir.

- A fonte desse amor é o amor do Pai e do Filho: «assim como o Pai me amou, também Eu vos amei.»

- O modelo é o amor do Filho: «Permanecei no meu amor… Ninguém tem maior amor.»

- A condição: «Se guardardes os eus mandamentos, permanecereisno meu amor,

assim como Eu guardo os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.»

- O meio: «que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei.»

- O fruto é a alegria de passarmos de servos a amigos de Jesus: «Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa…

Já não vos chamo servos…; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai.»

 

Isto há-de manter-nos unidos ao Pai e ao Filho, e preparar-nos para que a SS. Trindade faça em nós a sua morada (Aleluia) pela descida do Espírito Santo (1ª Leitura).

 

Eis a garantia da nossa identidade e felicidade (III Domingo), pois é a vocação a que fomos chamados pelo Senhor. De facto,

«não fostes vós que me escolhestes – diz Ele;

fui Eu que vos escolhi e destinei,

para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça» (Evangelho).

 

 

 

 

“COM O SILÊNCIO E A PALAVRA”

 

 

 

17 de maio

VII domingo da Páscoa

ASCENSÃO DO SENHOR

Leituras: 1ª: At 1,1-11. Salmo 47,2-3.6-7.8-9. R/ Ergue-Se Deus, o Senhor, em júbilo e ao som da trombeta. 2ª: Ef 1,17-23 ou Ef 4,1-13. Evangelho: Mc 16,15-20. Semana III do Saltério

 

Da Ascensão de Jesus nasceu o programa e a tarefa a realizar no mundo pelos cristãos, em Igreja: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo.»

Se nos metermos à obra, temos a garantia da sua presença e colaboração: «Eles partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam» (Evangelho).

 

Ao ouvir falar da urgência da evangelização, o nosso primeiro impulso é multiplicar e repetir as palavras. Mas, trata-se de uma nova evangelização, a pessoas que já ouviram o primeiro anúncio e o fecharam no seu interior sem expressão na vida. E o renovado anúncio que é preciso fazer deve servir-se dos novos meios de comunicação social.

 

 

 

 

“RECEBEI O ESPÍRITO SANTO”

 

 

 

 

24 de maio

DOMINGO DE PENTECOSTES

Leituras: 1ª: At 2,1-11. Salmo104,1ab+24ac.29bc-30.31 e 34. R/ Mandai, Senhor, o vosso Espírito e renovai a terra.2ª: 1 Cor 12,3b-7.12-13; Gl 5,16-25. Evangelho: Jo 20,19-23 ou Gl 5,16-25. Semana IV do Saltério

 

Em complemento da sua missão, Jesus concedeu o Espírito Santo aos discípulos no dia de páscoa – «estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se  encontravam com medo dos judeus».

De um modo gratuito e vencendo todos sinais contrários, «veio, colocou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco”. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.» E eles «ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.» Saudando-os de novo, «soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo.» E concedeu-lhes o poder de perdoar os pecados (Evangelho).

 

Apareceu-lhes durante cinquenta dias, e subiu aos céus.

«Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar»; não já com medo, mas como Jesus lhes tinha dito antes de subir ao céu: «unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração» (At 1,14).

Era a condição ideal: do céu veio «um rumor semelhante a forte rajada de vento» e «uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo e poisando sobre cada um deles». E «todos ficaram cheios do Espírito Santo» (1ª Leitura).

 

Nasceu a Igreja, que nestes 50 dias vimos viver e testemunhar o que os discípulos tinham visto e ouvido do Mestre. Para continuarmos hoje a sua missão, recebemos o mesmo Espírito, com «diversidade de dons espirituais e de ministérios,

para o bem comum… Na verdade, todos nós fomos batizados num só Espírito,

para constituirmos um só Corpo» (2ª Leitura).

 

«Vinde, Espírito Santo,

enchei os corações dos vossos fiéis

e acendei neles o fogo do vosso amor» (Aleluia e Salmo).

Quaresma 2015

FREI LOPES MORGADO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

TEMPO DA QUARESMA 

 

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 “CONVERTEI-VOS A MIM…”

 

18 de fevereiro

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

 

LEITURAS: : Joel 2,12-18. Salmo 51,3-4.5-6a.12-13.4-17. R/ Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós. : 2 Cor 5,20 – 6,2. Evangelho: Mt 6,1-6.16-18. Missa/Liturgia das Horas: Féria depois das Cinzas.

 

No I Prefácio da Quaresma agradecemos a Deus os OBJETIVOS e MEIOS do Tempo que hoje começa. Destaco-os a itálico e redondo negro, respectivamente «Todos os anos concedeis aos vossos fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que, pela oração mais intensa, pela  caridade  mais diligente, participando nos mistérios da renovação  cristã, alcancem a plenitude da filiação divina.»  

É um tempo de graça (um “Tempo forte” da Liturgia). Deve ser celebrado e vivido de coração alegre e purificado/convertido. Com os meio da oração, da caridade e da renovação (penitência=conversão). Ao rezá-lo, após a caridade acrescento: «pela escuta mais atenta da vossa palavra.» É fundamental!

 

A Palavra de Deus nesta Quarta-feira sublinha as mesmas IDEIAS-FORÇA. A 1ª Leitura exorta à converter-se a Deus de todo o coração, a pedir-lhe perdão e a reconhecer que Ele tem compaixão do seu povo.

No Salmo 51, o grande “salmo penitencial”, o crente prolonga isto:

reconhece o seu pecado,

pede perdão a Deus,

suplica-lhe um coração novo (convertido)

e dispõe-se a proclamar a sua misericórdia.

 

2ª Leitura apela à reconciliação com Deus: «Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus.» E a não receber em vão a graça de Deus, pois «este é o tempo favorável, este é o dia da salvação».

 

Por sua vez, no Evangelho, Jesus pede-nos uma vida com verdade, sem hipocrisia, quer nos lugares e atitudes de oração, quer nos sinais exteriores do jejum. 

 

ARREPENDEI-VOS E ACREDITAI…”

 

22 de fevereiro

I DOMINGO DA QUARESMA

LEITURAS: : Gn 9,8-15. Sl 25,4bc-5ab.6-7bc.8-9. R/Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade para os que são fiéis à vossa aliança. : 1 Pe 3,18-22.Evangelho: Mc 1,12-15. I Semana do Saltério.

 

Quando alguns parecem querer abandonar-nos como gente e como país, desqualificando a nossa capacidade para sermos seus parceiros, Deus reata os laços de amizade e comunhão, por nós quebrados, e quer viver connosco em aliança.

 

Na 1ª Leitura parece arrepender-se de ter castigado o ser humano e as outras criaturas com o dilúvio, propondo uma nova aliança com Noé e os seus descendentes  «e com todos os seres vivos», dizendo: «de hoje em diante nenhuma criatura será exterminada pelas águas do dilúvio e nunca mais um dilúvio devastará a terra.» E institui o arco-íris como sinal e garante dessa religação entre o céu e a terra:  «Sempre que Eu cobrir a terra de nuvens e aparecer nas nuvens o arco, recordarei a minha aliança convosco e com todos os seres vivos…». Uma religião do arco-da-velha… Aliança: de comunhão com o Criador e com a natureza, nossa casa-mãe.

O autor do Génesis viu na bonança após a tempestade um gesto da misericórdia de Deus. E o Salmista recorda-Lho:

«Lembrai-vos, Senhor, das vossas misericórdias

e das vossas graças que são eternas.»

Mas também pede capacidade para andar o caminho que o leva até à sua fonte:

«Mostrai-me, Senhor, os vossos caminhos,

ensinai-me as vossas veredas.»

 

Na Páscoa, renovaremos o «compromisso com Deus de uma boa consciência, pela ressurreição de Jesus», assumido no Baptismo (2ª Leitura).

 

Por isso, hoje, acompanhamo-Lo ao deserto para o encontro com Deus e o mundo, e voltamos para reiterar com Ele o anúncio: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.» (Evangelho).

  

“ESTE É O MEU FILHO: ESCUTAI-O.”

 

01 de março

II DOMINGO DA QUARESMA

LEITURAS: 1ª: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18. Sl 116,10 e 15.16-17. 18-19. R/ Andarei na presença do Senhor sobre a terra dos vivos. : Rm 8,31b-34. Evangelho: Mc 9,2 10.  II Semana do Saltério.

 

Abraão e Jesus sobem hoje ao monte. Mas não vão sós: ABRAÃO leva seu filho Isaac para ser oferecido em sacrifício (1ª Leitura), Jesus leva os DISCÍPULOS Pedro, Tiago e João, a fim de os preparar para quando morrer no Calvário (Evangelho 2ª Leitura).

 

Vamos também NÓS com eles, sabendo que, na Bíblia, o monte é o lugar privilegiado para um crente se encontrar com Deus e ouvir a sua palavra. Por isso, como Abraão, temos de optar por Deus, de modo que nada nem ninguém nos possa separar d’Ele; foi o que fizemos no Baptismo, ao renunciar ao mal e aderir à graça, mas o pecado fez-nos regredir. Como os discípulos, precisamos de escutar o seu Filho muito amado, pois o Pai já nos revelou n’Ele o que tinha a dizer-nos.

 

Vem a propósito a palavra de S. João da Cruz (séc. XVI): «Quem agora quisesse consultar Deus ou pedir-lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade. Poderia Deus responder-lhe deste modo: Este é o meu Filho amado em quem pus as minhas complacências; escutai-O. Se já te falei de todas as coisas na minha Palavra, que é o meu Filho – e não tenho outra – que mais te posso Eu responder agora ou revelar? Põe os olhos só n’Ele, porque n’Ele tudo disse e revelei, e acharás ainda mais do que pedes e desejas» (Liturgia das Horas I, p. 193).

 

«Quem estará contra nós?» Confiemos em «CRISTO JESUS, que morreu, e mais ainda, que ressuscitou e que está à direita de Deus e intercede por nós» (2ª Leitura).

 

Identificados com o essencial da nossa vida crente, também NÓS descemos do monte e retomamos o caminho da vida rumo à Páscoa, decididos a renovar a aliança com Deus: «Cumprirei as minhas promessas ao Senhor / na presença de todo o povo» (Salmo). 

 

“PREGAMOS CRISTO CRUCIFICADO”

 

08 de março

III DOMINGO DA QUARESMA

LEITURAS: 1ª: Ex 20,1-17. Sl 19,8.9.10.11. R/ Senhor, Vós tendes palavras de vida eterna. : 1 Cor 1,22-25.Evangelho: Jo 2,13-25. III Semana do Saltério

 

O povo hebreu foi preparado para viver segundo a Lei de Deus revelada a MOISÉS. Os dez mandamentos, registados na 1ª Leitura, sintetizam a pedagogia divina, que neles se revela e propõe ao povo como Deus único, porque seu libertador:

«Eu sou o Senhor, teu Deus,

que te tirou da terra do Egipto,

dessa casa de escravidão.

Não terás outro Deus perante Mim.»

Daí surgem 10 «Não» e 10 «nem». Uma linguagem proibitiva ou negativa, supõe imaturidade no educando; mas também revela clareza e definição do mestre. Se cria vontades débeis ou fortes, e inteligências mais ou menos submissas, depende do espírito de cada um.

 

Na verdade,

«a lei do Senhor é perfeita

… os preceitos do Senhor são rectos

e alegram o coração;

os mandamentos do Senhor são claros,

e iluminam os olhos» (Salmo).

 

Mas, a lei tinha acorrentado o espírito de muitos, e a letra cegava-os na hora da decisão. JESUS, revelação viva do amor de Deus, não queria que o Pai fosse servido por escravos, nem que o culto e o templo fossem desvirtuados pelo negócio a coberto da religião. Daí expulsar os que no templo de Jerusalém vendiam e compravam o necessário para os sacrifícios previstas na Lei. Ele nunca ofereceu esses sacrifícios no tempo; só lá vai rezar, escutar a Palavra, pregar e curar; hoje, porque «estava próxima a Páscoa dos judeus», também anuncia a sua Páscoa de morte/ressurreição (Evangelho).

 

Foi difícil, a PAULO, anunciar um crucificado como Deus, na pessoa de Cristo! Mas foi assim que Deus demoveu os judeus e os gregos dos seus (pre)conceitos (2ª Leitura).

 

 

“DEUS AMOU TANTO O MUNDO…”

 

15 de março

IV DOMINGO DA QUARESMA

LEITURAS: 1ª: 2 Cr 36,14-16.19-23. Sl 137,1-2.3.4-5.6. R/Se eu me não lembrar de ti, Jerusalém, fique presa a minha língua. : Ef 2,4-10. Evangelho: Jo 3,14-21. IV Semana do Saltério.

 

QUARESMA significa e pretende realizar no coração dos cristãos, a caminhada até à «plenitude da filiação divina» (Prefácio I). Por isso, a Palavra dominical reconstitui a caminhada de Deus com o seu povo na história da salvação, que será retomada na Vigília Pascal: Criação, chamamento de Abraão, Êxodo, regresso do Exílio, nova aliança com o povo e eterna aliança em Jesus Cristo.

 

1ª Leitura de hoje fala da libertação do exílio na Babilónia, por Dario, rei da Pérsia; a do próximo Domingo falará da aliança nova proclamada por Jeremias. O coração do povo, no EXÍLIO, lembra o de muitos que hoje vivem em si mesmos, exilados de tudo e todos, relativamente a valores perdidos:

«O Senhor Deus de seus pais, desde o princípio e sem cessar, enviou-lhes mensageiros, pois queria poupar o povo e a sua própria morada. Mas eles escarneciam dos mensageiros de Deus, desprezavam as suas palavras e riam-se dos profetas.» Por isso, «os caldeus incendiaram o templo de Deus, demoliram as muralhas de Jerusalém, deitaram fogo aos palácios… O rei dos caldeus deportou para a Babilónia todos que tinham escapado ao fio da espada...» (1ª Leitura).

 

Mais do que libertar-nos, «Deus restituiu-nos à vida com Cristo e com Ele nos ressuscitou». Porque «a SALVAÇÃO não vem de vós: é dom de Deus» (2ª Leitura).

 

E «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha vida eterna. Quem não acredita no nome do Filho Unigénito de Deus» (Evangelho) é como o Salmista exilado junto do rio da Babilónia «a chorar, com saudades» da sua terra perdida – que bem o parafraseou Camões! –, em vez de aproveitar a torrente que poderá levá-lo à pátria do futuro.

 

 

 

“CHEGOU A HORA…”

 

22 de Março

V DOMINGO DA QUARESMA

LEITURAS: 1ª: Jr 31,34. Sl 51,3-4.12-13.14-15. R/ Dai-me, Senhor, um coração puro. : Heb 5,7-9. Evangelho: Jo 12,20-33. I Semana do Saltério.

 

Nos capítulos 30-31, Jeremias fala da restauração de Israel e da NOVA ALIANÇA que Deus quer refazer com o resto do seu povo disposto a ouvir os profetas. Porque é nova, vai ser feita com pessoas e é para durar sempre, esta aliança não será gravada em letras na pedra que o tempo gasta, mas no coração:

«Hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma

e gravá-la-ei no seu coração.

Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.» (1ª Leitura).

 

De novo é retomada a Aliança do Sinai (Ex 19,5-6a), e novamente é Deus quem propõe, se compromete e dá garantias: «Porque vou perdoar os seus pecados/ e não mais recordarei as suas faltas.» Este Deus é o mesmo dos Dez Mandamentos do II Domingo; o povo é que já lá não vai com leis: precisa de sentir-se amado e de ser (e)levado ao colo.

 

Deus vai fazê-lo por meio de seu Filho Unigénito: JESUS, tendo encarnado a imagem do bom pastor, não só leva as ovelhas ao colo, mas dá a vida por elas. É Ele quem o diz:

«Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a mim.» Por isso, também «chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado»; pois, «se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto» (Evangelho).

 

E assim, «tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de salvação eterna» (2ª Leitura).

 

«Compadecei-vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados. …

Criai em mim, ó Deus, um coração puro

e fazei nascer dentro de mim um espírito firme» (Salmo Responsorial).

 

 

Tempo comum I 2015

Com a Páscoa “baixa”, a 5 de abril, a Quaresma já tem início a 18 de fevereiro, com a quarta-feira de Cinzas. Daí esta I parte do Tempo Comum ir apenas até ao VI Domingo.

dezembro 2014

Iniciamos o ano litúrgico 2014-2015, do Ciclo B, em que vão predominar textos do Evangelho de Marcos sobretudo no Tempo Comum.