Capuchinhos

A Bíblia na Idade Média

Apresentação de "A Bíblia na Idade Média"Dia 23 de Novembro de 2017, pelas 18 horas, no Salão Nobre da Universidade Aberta, em Lisboa, perto do Largo do Rato, realizou-se a sessão de apresentação do 2º volume de “A Bíblia em Portugal”, da autoria de Frei Herculano Alves. Este volume, que tem como título “A Bíblia na Idade Média”, foi apresentado pelo Prof. Doutor Guilherme d’Oliveira Martins, perante uma audiência que encheu completamente o nobre e artístico espaço da Universidade Aberta, uma sala com decorações do séc. XVIII. Na mesa de honra, além do distinto orador e conferencista, estava o Prof. José Eduardo Franco, o Dr. Francisco Abreu (Director da editora «Esfera do Caos») e o autor da obra.

Na sua sábia, esmerada e convincente intervenção, o Prof. Doutor Guilherme d’Oliveira Martins começou por saudar o “Prof. Frei Herculano Alves”, a quem endereçou “felicitações sinceras” pelo árduo trabalho sobre a Bíblia, denominando o livro sagrado como uma “biblioteca incontornável”. Na sua intervenção, começou por salientar a importância que “esta biblioteca, que é a Bíblia, tem para a cultura portuguesa. E, se dúvidas houvesse, este volume sobre “A Bíblia na Idade Média” é a demonstração evidente de que a cultura portuguesa está a dar os seus primeiros passos”.

“A primeira parte dos autores que são referenciados por Frei Herculano Alves são autores portugueses que estão entre aspas, porque ainda não existia Portugal. Estamos nos fundamentos, estamos nas bases. Não é possível compreendermos a cultura da língua portuguesa sem estes autores. Todos eles são autores referenciais, na afirmação da cultura da língua portuguesa”. E continuou o conferencista: “Numa sessão em que participei na Academia das Ciências, evocávamos o velho confrade Alexandre Herculano que, quando lhe perguntavam sobre «qual é a nossa relação com os Lusitanos», ele dizia que a nossa relação é com estes autores”. “São as fontes próximas – continuou – daquilo que vai permitir responder a um mistério, que muitas vezes os nossos irmãos espanhóis têm: «porque é que vocês existem, porque é que têm a independência, porque é que são autónomos?». Alexandre Herculano dizia: somos porque queremos. Portanto, no pórtico da História de Portugal aí está a justificação, a afirmação da vontade. E, mais tarde, quando lhe perguntavam sobre qual o momento mais glorioso da História portuguesa, que é a 1ª dinastia, ao contrário de outros autores que consideram que é o tempo dos Descobrimentos, Herculano dizia que é o tempo dos Fundamentos. Mas há duas circunstâncias fundamentais. A independência portuguesa deve-se a dois factores: primeiro, a vontade dos ‘portugueses’, com aspas porque ainda não havia Portugal e, depois, sem aspas, já na parte em que há Portugal, e aqui encontrámos todas as grandes referências da nossa cultura; e o segundo factor, o mar. É esta ‘maritimidade’ que vai levar a esta permanência. Uma permanência que se afirma frente a esta Europa onde encontramos pulsões fragmentárias, incluindo a nossa vizinha Espanha, que é um mosaico de várias nações e de várias influências. Nós temos esta característica muito própria, em que a vontade e o mar definem a nossa independência.

Mas porque é que vos digo isto? Porque os primeiros autores, os autores referenciais nesta obra, são os que vão lançar as bases dessa relação autónoma. Caminhando entre Douro e Minho, não podemos deixar de nos lembrar de São Martinho de Dume, de São Frutuoso, estamos a falar daqueles que todos conhecemos, mas temos um conjunto vastíssimo que nesta obra é analisado. Digo-vos o seguinte: esta obra, este volume, é mais do que a História da Bíblia em Portugal, é a História dos fundamentos da Cultura em Portugal… Paulo Orósio, São Martinho de Dume, São Frutuoso, ao todo são catorze autores, são indiscutivelmente referências fundamentais. Esta é a razão pela qual nós temos uma certidão de identidade que nos liga ao Cristianismo. A nossa cultura baseia-se aqui. Quando nos lembramos do Tratado de Zamora, celebrado no dia 5 de Outubro de 1143, em que estava presente, naturalmente, um legado do Papa, ainda não havia reconhecimento e, por isso, Afonso VII – com a sua soberba – afirma-se como ‘imperator’ perante aquele que é, daqui para a frente, um ‘rex’. Pois bem: os fundamentos, designadamente neste momento crucial que é o Tratado de Zamora, são fundamentos que têm uma base e uma legitimidade fundada certamente na Bíblia, no texto bíblico. Há dias, a convite do Prof. José Eduardo Franco, quando recordava a importância das traduções sistemáticas da Bíblia em português, ele dizia: atenção, a Bíblia já tinha sido traduzida. João Ferreira d’Almeida inicia o trabalho da tradução da Bíblia (será uma outra pessoa que completará essa tradução), mas como primeira tradução sistemática. Mas esta tradução e esta exegese relativamente à Bíblia e em língua portuguesa corresponde a este conjunto de autores; conjunto de autores que estão nos primórdios da afirmação da nossa cultura. Esta é a base da cultura ocidental. Depois, vamos encontrar nas traduções e obras de carácter bíblico, esse extraordinário exemplo de um cultor da língua portuguesa que foi rei de Leão e Castela, Afonso X, o Sábio. É um autor da nossa língua, era a língua da cultura, da criação poética e, simultaneamente, como está aqui também demonstrado, da relação às duas línguas que vão ser as línguas dos trovadores: o galaico-português e o provençal. Há uma pergunta que lança o nosso autor: ‘D. João I, tradutor da Bíblia?’ Vamos ver. Quem fala de D. Duarte, fala também do Infante D. Pedro, no seu ‘Livro da Virtuosa Benfeitoria’. O conjunto dos autores que é aqui analisado com extremo rigor permite-nos, mais uma vez, vermos a cada passo aquilo que é a afirmação da língua portuguesa. Esta atingirá a sua maturidade na poesia no séc. XVI, designadamente com Camões. Vamos igualmente encontrar, a propósito da reflexão bíblica, ou dos textos que comentam, ou que na prática os traduzem, porque era necessário levá-los ao debate intelectual, o nosso rei D. Dinis, que foi absolutamente pioneiro, por exemplo, pela coragem na decisão da língua portuguesa como língua dos tabelianos, quando o latim é que era a língua do Direito. Isto significa a afirmação da autonomia, a independência e, simultaneamente, a modernidade de dizer que os grandes debates devem-se fazer na língua comum, numa altura em que as línguas dos tabeliães em toda a Europa ainda era o latim. É o rei D. Dinis que consegue esta autonomia, como grande poeta que era, como neto que era de Afonso X! E, simultaneamente, a fronteira. Porque é que a nossa fronteira é a fronteira mais antiga da Europa e, certamente, do Mundo? Por uma razão simples: porque antes de todos os outros, o rei D. Dinis foi o grande artífice do Tratado de Alcanices, que é o mais antigo tratado de fronteiras em vigor! Ele está em vigor. Com que emoção, há uns anos, estive em Almeida, juntamente com o Prof. Eduardo Lourenço que visitava as suas raízes e ver, num ponto em que não há fronteira física, à noite, os rebanhos dos portugueses vêm para Portugal e os rebanhos dos espanhóis vão para Espanha! Isto é extraordinário! Sem fronteira física, uma fronteira que vem do séc. XIII. É um caso único: uma fronteira estavelmente definida! E porque é que eu vos digo isto? Porque o nosso Prof. Frei Herculano Alves, a propósito da Bíblia, vai dizer-nos a par e passo, aquilo que é algo de fundamental na afirmação cultural: não há afirmação cultural da língua portuguesa sem a reflexão bíblica. Naturalmente que, com a evolução do tempo, como no caso da poesia, a maturidade é alcançada no séc. XVI: ‘Sete anos de pastor Jacob servia, Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia o pai, servia a ela, e a ela só por prémio pretendia’. Aqui está, neste soneto de Camões, a Bíblia (livro do Génesis). É apenas um exemplo, mas podia dar ‘n’ exemplos. É a presença da reflexão bíblica e, simultaneamente, em termos que nos são tão próximos. Porque é que eu invoco a maturidade da língua no séc. XVI? Porque este caminho que nós encontramos nestes mil anos da Idade Média é um caminho muito seguro, um caminho sem recuos, um caminho que vai permitir termos no séc. XVI a maturidade da poesia. Dei-vos o exemplo de um poema sobre o Génesis, clara e inequivocamente! E não é uma passagem qualquer: vemos Raquel, mãe de José do Egipto e de Benjamim. Não há hoje, nos tempos actuais, ninguém que possa explicar aos seus alunos o que é um ciclo económico, sem invocar a forma como José vai revelar o significado do sonho do faraó. O significado é a primeira lição de economia. ‘Sete vacas gordas, sete vacas magras!’ No séc. XIX, Clément Juglar vem apenas dizer o seguinte: são sete anos, um ciclo.

A maturidade da prosa vai-se atingir com o nosso Padre António Vieira. Será tema do próximo volume.

Esta obra do Prof. Frei Herculano Alves é uma obra absolutamente essencial. Este volume permite-nos compreender a certidão de idade da realidade, com os portugueses, antes de haver Portugal, e todos os portugueses, depois de Portugal independente. Nota-se, por outro lado, que estes portugueses são, normalmente, do norte do Tejo mas, a pouco e pouco, nós temos que compreender que este Portugal do Ocidente, este Portugal do mar constrói-se com dois movimentos fundamentais: de norte para sul e de sul para norte. Isto compreendeu D. Afonso Henriques e compreendeu, antes que todos, o primeiro santo português (já sem aspas), São Teotónio, que vai ser peça fundamental na afirmação da realidade cultural portuguesa.

É um momento apaixonante, este volume. É absolutamente crucial. Permite não só compreender a importância bíblica, mas também, simultaneamente, permite compreender a afirmação da língua portuguesa. E a afirmação da língua portuguesa é algo de fundamental. Dizer isto nesta casa é algo que nós nunca diremos o suficiente: no final deste século nós vamos ter 450 milhões de falantes da língua portuguesa. E estes falantes vão estar globalmente distribuídos, com especial incidência no Atlântico sul. O Atlântico sul vai ser uma espécie de rio com as duas margens da língua portuguesa. Todos os estudos apontam para que, a partir de 2070, o progresso demográfico seja maior do lado de África. Quando os nossos irmãos brasileiros dizem que o cânon português do Brasil é dominante, vemos que não. Não vai haver um cânon dominante. E mais: África será o espaço onde se registará o maior desenvolvimento relativamente à evolução demográfica. Vai acontecer algo de extraordinário: a própria diversidade de cânones.

Comecei por dar os parabéns, acabo dando os parabéns. Confesso que fiquei apaixonado por este volume, Frei Herculano Alves, porque permitiu compreender, não apenas aquilo que é justamente a História da Bíblia em Portugal, a tal enciclopédia de que faz referência o nosso Prof. José Eduardo Franco, mas também as raízes. Não é possível estudar a história da cultura portuguesa sem conhecer este volume. É absolutamente essencial.»

A sessão continuou, com a intervenção do autor, Frei Herculano Alves. Começou por agradecer às várias entidades que dão o seu apoio à edição deste II volume e, em particular, à sábia intervenção do Prof. Doutor Guilherme d’Oliveira Martins. Depois, referiu alguns objectivos desta obra: colocar a Bíblia no meio da cultura portuguesa, como elemento chave. Depois, colocar de relevo as raízes de Portugal, que são raízes cristãs. Neste período, vemos que Portugal nasceu com a Bíblia na mão, nasceu com a Bíblia nos ouvidos, com a Bíblia nas imagens… foi a matriz de Portugal.”

Encerrou a sessão o Prof. José Eduardo Franco, que agradeceu as intervenções dos ilustres componentes da mesa e a presença de tão numerosa plateia. No final o autor ficou ao dispor para a habitual sessão de autógrafos.

 

Texto: frei Américo Costa

Foto: frei José Luís