Capuchinhos

Ordenação sacerdotal do fr. Júlio Ramos

  Envolvida pelos olhares vigilantes das montanhas e as sinuosas estradas da “rota do românico”, deparamos com a freguesia de Ribas, uma aldeia tipicamente minhota, pertencente ao concelho de Celorico de Basto, distrito de Braga, e terra da avó do actual Presidente da República.

Terra onde a água corre abundante e fresca e a vegetação de tons verdejantes surpreende os forasteiros, assim é Ribas, nascida nos meados do séc. XIII, o século de São Francisco de Assis.

Como em 1987, quando um filho desta terra, o missionário Capuchinho, Frei Alfredo Teixeira de Sousa, foi ordenado Sacerdote pelo saudoso D. Carlos Pinheiro, novamente o bom povo de Ribas vestiu os seus melhores trajes para, no passado dia 17 de Abril deste ano de 2016, celebrar festivamente mais uma Ordenação Sacerdotal de um filho desta terra de Basto e “filho” do “Poverello” de Assis: Frei Júlio Cunha Ramos.

O tempo apresentava-se tranquilo e sereno, iluminado pelas nuvens de algodão pousadas no cimo das montanhas, irradiando uma misteriosa claridade sem sol, como que a abençoar a sagrada efeméride. Toda a população foi convocada para o evento, através de grandes tarjas que, atempadamente, foram colocadas em todas as estradas que davam acesso a Ribas.

Eram as 10 horas quando o Frei Júlio, revestido do hábito religioso e de sobrepeliz iniciou, junto do cruzeiro, a caminhada até à igreja paroquial, acompanhado das gentes da terra.

No primeiro degrau da longa escadaria de granito, o caminho apresentava-se juncado de verdes e atapetado de multicoloridas flores. Ali, com os sinos a repicar, o cortejo foi acolhido pelo Pe. Albano Fernandes da Costa, Pároco de Ribas, e pelo Frei Fernando Alberto Pedrosa Cabecinhas, Ministro Provincial dos Franciscanos Capuchinhos, autoridades locais e um numeroso grupo de crianças que, fazendo ala em duas filas, dava as boas-vindas a este filho da terra. No frontispício da granítica igreja românica, uma enorme tarja expressava o sentir dos “ribenses”: “Obrigado, Senhor, por escolheres mais um dos nossos para a Tua vinha”.

No adro da igreja, formou-se um cortejo solene, que subiu até ao “Centro Social Paroquial do Divino Salvador de Ribas”, onde iria decorrer a celebração litúrgica. Incorporou-se, nesta caminhada processional, o Senhor Arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga, tendo a seu lado o referido pároco, o Frei Fernando Alberto Pedrosa Cabecinhas, o Pe. Alípio Barbosa, pároco de São Cosme, Gondomar, e, apesar de ser Domingo, também marcaram presença vários sacerdotes capuchinhos vindos das fraternidades de Barcelos, Porto, Gondomar, Fátima, Lisboa e Baixa da Banheira. Serviu o altar o Diácono Edmilson, ajudado pelos vários acólitos, sob a responsabilidade de uma jovem orientadora de Gondomar. Estavam ainda presentes membros das associações e confrarias, membros de ordens religiosas, femininas e masculinas, e muitas pessoas que se deslocaram desde Gondomar. Os postulantes, revestidos de alva, os irmãos noviços, pós-noviços portugueses e timorenses e irmãos professos perpétuos capuchinhos também marcaram presença, sendo a cruz processional levada pelo noviço Frei Márcio Inocêncio Rodrigues.

A meio do percurso, surgia nova tarja, com a foto do candidato ao sacerdócio e a mensagem: “Eu venho, Senhor, para fazer a Tua vontade”. Neste trajecto, o contínuo estalar de foguetes dava um peculiar sabor minhoto ao evento. Finalmente, ao entrar no recinto da celebração, outra mensagem em tarja – que bela sequência de mensagem vocacional e catequética – “Eis-me aqui, Senhor, porque me chamaste”.

Já dentro do salão, mais uma frase ajudava a assembleia, que mal cabia dentro, a interiorizar o momento solene: “Dignai-vos, Senhor, abençoar, santificar e consagrar este eleito”. Animou a celebração o Grupo Coral de Ribas, tendo como maestro o sr. Orlando e organista, o sr. Moura, e ainda vários instrumentistas locais. As composições musicais eram da autoria de Frei Acílio Mendes, que brilhantemente dirigiu e animou toda a celebração.

Nesta animação, o Frei Acílio anunciou à assembleia que a D. Antónia ali presente e Mãe do Frei Júlio, tinha cumprido 82 anos no dia anterior e, por isso, sugeriu ao senhor Arcebispo que se cantasse os “Parabéns”, o qual prontamente anuiu. Assim, com toda assembleia a cantar os parabéns, a celebração iniciava-se com um hino de louvor ao Deus da Vida, momento que foi concluído com uma grande salva de palmas. Seguiu-se o cântico introdutório “Profetas de um Mundo Novo, anúncio de Paz e Bem”, que fez vibrar os fiéis, já envolvidos pelo espírito do dia do “Bom Pastor” e do “Ano Santo da Misericórdia”. Depois do canto do “Glória! Glória! Glória a Deus!”, a celebração prosseguiu com a Liturgia da Palavra, sendo proclamadas as leituras do IV Domingo de Páscoa. Seguiu-se uma breve homilia do Presidente da Celebração.

D. Jorge Ortiga referiu que «a Eucaristia, hoje, tem um sentido e um significado para o Frei Júlio e para esta Comunidade paroquial, a quem agradecemos o dom desta vocação sacerdotal, mas deve ter também um significado para todos e cada um de nós…

O projecto de Jesus Cristo é um projecto de Salvação universal que Ele veio trazer a este Mundo e que hoje a Igreja deve interpretar e viver. Ouvimos na 2ª leitura, tirada do livro do Apocalipse dizer que, quando chegar o Reino de Deus, não haverá nem fome, nem sede, nem o sol ou o vento ardente cairão sobre as pessoas. É esta a vontade do Senhor Jesus Cristo: que não haja fome, com todo o sentido que esta palavra tem, que não haja sede, e que também o sol e o vento, como sinal das diversas contrariedades, não impeçam a vida que foi feita para a felicidade e para a alegria…

Mas Jesus Cristo confiou o Seu projecto à Igreja: à Igreja que é constituída por todos nós. E esse projecto de Jesus Cristo deve ser continuado por todos. Por isso, ao celebrarmos o «Dia Mundial das Vocações», teremos de nos interrogar, teremos que nos perguntar sobre aquilo que cada um de nós poderá, efectivamente, fazer para que o Reino de Deus aconteça e, consequentemente, a alegria, a paz e a felicidade para todos os homens… Temos uma missão, temos uma tarefa, mas diferente para cada um. O Frei Júlio sentiu este apelo com esta idade: é que o Senhor Jesus Cristo não estipula idades para o chamamento e para a resposta... É sempre tempo de recomeçar! Não nos deixemos envolver pelas realidades pessimistas, realidades que nos atemorizam.

Vamos viver esta celebração com este sentido e com esta finalidade: é um ‘sim’ do Frei Júlio mas é também um apelo a cada um de nós para que, porventura, como jovens que somos, nos interroguemos sobre o que é que o Senhor Jesus Cristo quer de nós; ou, então, como adultos, também tomemos consciência da responsabilidade que Deus coloca nas nossas mãos. Jesus quer a alegria, aquela alegria verdadeira que os primeiros discípulos gozavam, mas quer que essa alegria chegue a todos. A alegria do Senhor Jesus chegará a todos por cada um de nós, pelo trabalho que fazemos na nossa paróquia, no nosso lugar, na nossa rua, com os nossos familiares, porventura com os nossos inimigos. É aí que Jesus Cristo quer: que cada um se sinta uma pessoa vocacionada para, em nome d’Ele, oferecer a Palavra de Deus, mas, sobretudo, oferecer o seu amor, o seu amor misericordioso.

O testemunho, o modo como vivemos, o modo como sabemos estar na sociedade e na Igreja, isso é que é fundamental, isso é que arrasta, isso é que convence. Esse é que é o verdadeiro contributo para uma sociedade mais justa e mais fraterna».

 

 

A celebração prosseguiu com a súplica litânica ou canto das Ladainhas, um momento sempre impressionante, com o Frei Júlio prostrado e todo o povo participando de joelhos. E eis-nos chegados ao momento alto deste dia: a imposição das mãos sobre a cabeça do Frei Júlio, primeiro pelo senhor Arcebispo e, depois, por todos os presbíteros, seguindo-se a longa Oração de Ordenação, a Unção das mãos e a entrega do Pão e do Vinho, ao neo-Sacerdote, associando-se toda a assembleia com o cântico “Eis-me aqui, Senhor! Eis-me aqui, Senhor!”

 

 

Durante a procissão do ofertório, além das oferendas e dos símbolos trazidos ao altar, veio a oferta mais importante, sugerida pelo cântico: “Meu coração é para Ti, Senhor!” A celebração prosseguiu com a presença do novo Sacerdote junto do senhor Arcebispo. Na Comunhão, o momento mais enternecedor, aconteceu quando o Frei Júlio se abeirou da sua querida Mãe, D. Antónia, bastante debilitada, para lhe levar o Pão da Eucaristia, com toda a assembleia a entoar as palavras do Bom Pastor: “Eu sou o Pão da Vida em abundância”. Antes do momento de Acção de Graças, com a melodia “Bendizei, bendizei, bendizei o Senhor!”, ritmada com as palmas da assembleia, ainda se entoou, jubilosamente, o hino eucarístico “Jesus Cristo, Pão da Vida… Nossa festa és Tu, Senhor!”

 

 

Com a celebração a caminhar para o final, ainda houve tempo para algumas palavras de agradecimento, todas elas sublinhadas com uma estrondosa salva de palmas. Primeiro, tomou a palavra D. Jorge Ortiga: referiu a sua grande alegria em participar neste momento festivo da Comunidade Cristã de Ribas, e apelou aos presentes para que a terra de Ribas continue a ser alfobre de vocações sacerdotais, religiosas e missionárias.

Seguiu-se o Frei Júlio, expressando palavras de muito apreço ao senhor Arcebispo pela sua disponibilidade, desde o primeiro dia, em presidir à sua ordenação sacerdotal; manifestou gratidão às autoridades civis, membros das confrarias, comunidades religiosas ali presentes e, em especial, agradeceu ao Pe. Albano, pároco de Ribas há 44 anos, o esforço incansável que realizou, quer na preparação, quer na realização deste evento, sublinhando que “durante toda a minha vida lhe estarei amavelmente grato pela sua sincera amizade”; e terminou, com palavras emotivas sobre a sua família: a gratidão para com a sua querida Mãe ali presente, e a memória do seu Pai e irmão, que já celebraram a sua “Páscoa”.

Finalmente, o pároco, bastante comovido pelo júbilo que lhe ia na alma, agradeceu a presença do senhor Arcebispo, e, em especial, recordou os 8 Sacerdotes e várias Irmãs Religiosas, que são naturais de Ribas, e proferiu palavras de muito apreço para os Irmãos Capuchinhos, destacando os postulantes, noviços e professos, e sublinhou: “Aos mais novos, força e coragem! Gostaria de estar nas vossas ordenações sacerdotais, nas vossas missas novas”. Agradeceu, em particular, o Frei Acílio Mendes, “o grande inspirador e grande compositor dos cânticos que entoamos nesta comunidade paroquial, pelo sabor que têm, quer pastoral, teológico, quer popular, no sentido de cair bem no ouvido e, do ouvido, vai para o coração, porque a fé também chega pelo ouvido através da música. Quando cantamos os seus cânticos, como dizia S. Agostinho, rezamos duas vezes! Como em 1987, fizemos questão de utilizar cânticos totalmente da sua composição. Louvamos o Senhor pelo dom que lhe deu de se tornar, a si, este modo de enriquecimento da Igreja através da música litúrgica e pastoral.” Após a bênção final, seguiu-se o tradicional “beija-mão” ao neo-Sacerdote, acompanhado com os cânticos “A minha alma canta jubilosa”, “Sacerdote do Senhor, tu és Sacerdote do Senhor… Profeta e Bom pastor”, da entrega de um ‘santinho’ como lembrança da Ordenação e da tradicional girândola de foguetes a subir aos céus, sendo visível a alegria e a boa disposição estampadas nos rostos de toda aquela gente.

Parabéns ao Frei Júlio, à sua Mãe e familiares, pois a Ordenação Sacerdotal foi ocasião para que todo o Povo de Deus de Ribas se sentisse e vivesse mais um dia inolvidável da sua história. Estão de parabéns também os Franciscanos Capuchinhos que, depois da ordenação sacerdotal em 2015 do Frei Miguel Pinto Grilo, se vêm agora enriquecidos com mais um Sacerdote.

 

 

Dados biográficos

Frei Júlio Cunha Ramos é natural da freguesia de Vale de Bouro (Ribas), concelho de Celorico de Basto (diocese de Braga), de onde também é natural o missionário Capuchinho, Frei Alfredo Teixeira de Sousa (ligado a Angola desde 1988). Entrou para os Capuchinhos em 1987 (Postulantado), fez o Noviciado em 1989, emitiu a sua Profissão temporária em 1990, em Cabanas de Viriato. Em 1995 partiu para Angola (Luanda), onde fez uma experiência missionária durante um ano. Em 1997 emitiu a sua Profissão Perpétua no convento do Porto. Fica a viver na fraternidade de Cabanas de Viriato, concelho de Carregal do Sal, ajudando em serviços fraternos e na Catequese paroquial. Entretanto, nesse ano de 1997 integrou-se numa peregrinação a Assis organizada pela CIC (Conferência Ibérica de Capuchinhos), durante quinze dias. No ano 2000 é transferido para a Fraternidade de Gondomar. Ali, em 2002, faz parte da “Fraternidade Vocacional – Acolhimento e Itinerância”; em 2009, conclui o “Curso de Ciências Sociais e Humanas”. Nesse ano inicia, na Universidade Católica, o “Curso de Mestrado Integral de Teologia”, que conclui em 2015. Actualmente, dedica-se à Formação dos jovens candidatos à Ordem dos Capuchinhos, como Mestre dos Postulantes, em Gondomar, onde reside.

 

Altíssimo, omnipotente, bom Senhor,

a Ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção

(S. Francisco de Assis, “Cântico das Criaturas”)